Partido dos Trabalhadores

10 anos do golpe: Brasil rompeu com democracia e usou misoginia para derrubar Dilma

Presidenta reforçou em seu discurso que impeachment foi um golpe parlamentar contra as mulheres e ocorreu por meio de uma farsa jurídica

Ricardo Stuckert/PR

O Brasil volta hoje os olhos para um dos capítulos mais violentos de sua história política recente: os 10 anos do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, um processo que revelou o uso da misoginia estrutural como ferramenta de desestabilização institucional. O golpe de 2016 foi articulado pelo parlamento numa ofensiva contra a primeira mulher eleita democraticamente para o cargo mais alto da República.

“É o segundo golpe de Estado que enfrento na vida. O segundo, o golpe parlamentar desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo”, declarou Dilma na ocasião do seu impeachment. 

O que se viu, desde a campanha de reeleição em 2014 até o desfecho no Senado em 31 de agosto de 2016, foi uma série de ataques que extrapolavam a crítica administrativa, que inicialmente denunciavam  “pedaladas fiscais”, tese jurídica posteriormente esvaziada. 

“O Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. (…) Decidiram pela interrupção do mandato de uma presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar”, afirmou Dilma Roussef. 

O que conecta 2016 ao presente

A violência política de gênero operada pela extrema direita naquela década não terminou com a saída de Dilma do Palácio do Planalto. O voto do então deputado federal Jair Bolsonaro em 17 de abril de 2016, que homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, mostra que o alvo não era apenas o mandato de Dilma. Era uma maneira de atingir diretamente a mandatária como mulher.  

Dez anos depois, a história mostra que a trajetória de Dilma, que hoje preside o Banco dos Brics, ressurge não apenas como uma memória de resistência, mas como um alerta: a democracia só é plena quando as mulheres podem exercê-la. 

“Acabam de derrubar a primeira mulher presidenta do Brasil, sem que haja qualquer justificativa constitucional. (…) O golpe é contra as mulheres. O golpe é misógino, o golpe é homofóbico, o golpe é racista”, declarou a presidenta.

A deputada federal Dandara Tonantzin(PT-MG), que hoje reúne assinaturas para votar em regime de urgência o PL que criminaliza a misoginia, analisa que o Brasil ainda precisa avançar muito para garantir um ambiente saudável para as mulheres na política.

 “Sabemos que o golpe contra Dilma também foi motivado pelo fato dela ter sido a primeira mulher eleita presidente do Brasil. O nosso país hoje discute mais sobre a sub-representação feminina como um problema democrático, avançou na denúncia de ataques misóginos em campanhas e parlamentos contra as mulheres e avançou na tipificação como crime da violência política de gênero. No entanto, ainda está longe de garantir igualdade efetiva e segurança plena para mulheres na política”, analisa. 

Lembrar para não repetir

O impeachment aconteceu no segundo mandato de Dilma, que também tinha sido ministra das minas e energia e ministra da casa civil durante os mandatos de Lula. 

Eleita pela primeira vez em 2010 com 56% dos votos e reeleita em 2014 com uma margem de 51,64%, Dilma governou, ao todo, por 5 anos, 6 meses e 15 dias. O processo de deslegitimação de Dilma Roussef como chefe do Executivo brasileiro começou muito antes da votação do impeachment. Discursos de ódio, misoginia e violência de gênero foram construídos pela extrema direita ao longo dos seus mandatos, numa campanha de enfraquecimento da figura da mulher eleita pelo voto da maioria das cidadãs e cidadãos brasileiros. 

O discurso final

A presidenta Dilma citou o poeta russo poeta russo Vladimir Maiakóvski para finalizar seu discurso de despedida há 10 anos.

“Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado, As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las, Rompê-las ao meio, Cortando-as como uma quilha corta.

Assista ao discurso de Dilma Roussef há dez anos:

Da Rede PT de Comunicação.