Normando Vasconcelos, de 24 anos, percorreu um longo caminho até começar o curso de fisioterapia na Universidade de Brasília (UnB). O jovem, morador da Ceilândia, com formação em escolas públicas, afirma que a ajuda do cursinho popular foi fundamental para alcançar seus objetivos. “A importância do cursinho para minha vida é porque sem um cursinho eu acho que eu não seria quem eu sou hoje”, afirmou.
Além de ter sido determinante em sua formação pessoal e acadêmica, o cursinho o auxiliou a compreender e acessar os caminhos necessários para chegar ao ensino superior, com explicações sobre os editais e os processos de ingresso, algo que, segundo ele, muitas vezes não está ao alcance de estudantes da periferia.
“Consegui junto com toda a equipe do Jovem de Expressão, por causa que é um processo que tem que ler o edital, entender como é que funciona. Então conversar com pessoas que entendem e sabem como é esse acesso à universidade pública, foi primordial para minha vida.”
Em um país marcado por profundas disparidades no acesso à universidade, experiências como o Jovem de Expressão, cursinho popular na Ceilândia, demonstram que a educação popular segue sendo um instrumento potente de mobilidade social e construção de cidadania.
Os cursinhos pré-vestibulares populares vêm se consolidando como uma das principais portas de entrada para o ensino superior no Brasil, especialmente para a juventude periférica. Mais do que preparar estudantes para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), essas iniciativas articulam formação crítica, pertencimento e transformação social, enfrentando desigualdades históricas e reafirmando a educação como direito.
De estudante a professor
Walison Moraes foi integrante da primeira turma do projeto Jovem de Expressão, quando sequer considerava a universidade pública como possibilidade concreta. “Eu não conhecia a UnB, eu não saberia que aquele espaço poderia ser para mim”, relata.
Hoje formado em artes cênicas, Walison retornou ao cursinho como professor, reafirmando o caráter coletivo e transformador da educação popular. “Ver que outros jovens estão tendo essa oportunidade também ao longo desses anos todos que tem se passado, para mim como educador é de encher os olhos assim.”
Pedro, que também cresceu na Ceilândia e estudou em escola pública, destaca que o cursinho foi decisivo no desempenho acadêmico, mas também no suporte emocional durante um período marcado por incertezas e pressões. “Não existe esse companheirismo em outros cursinhos. E lá no Jovem, existe um companheirismo, existe um auxílio dos professores de te perguntar se tá tudo bem”, afirma. Ele enfatiza que esse acolhimento fez diferença concreta em sua trajetória.
“A gente começa a trazer nossos problemas e aí conversar sobre tudo que a gente tá passando em relação a esses medos, esses anseios, do processo de entrar na universidade que é um processo difícil”, afirma.
Hoje Pedro também é professor do cursinho popular. “Essa visão que os professores tinham da educação lá, da educação popular e da significância da educação popular foi o que moldou parte da minha docência, parte da de como eu atuo em sala de aula”, explica.
Educação para os jovens no território
Fundado em 2016, na segunda maior Região Administrativa do Distrito Federal, o Jovem de Expressão surgiu da necessidade concreta de garantir que jovens do território tivessem acesso à universidade, superando barreiras econômicas e simbólicas.
Em entrevista à Rede PT de Comunicação, o coordenador do Jovem de Expressão, Rodrigo Soares, explica que o projeto vai além do ensino de conteúdo, e promove uma formação conectada à realidade dos estudantes, ampliando horizontes e fortalecendo identidades.
“Por meio das matérias, por meio do conteúdo que é cobrado no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a gente trabalha as questões, do território, as questões raciais e de gênero. Então vai além”, afirma Rodrigo. Ao dialogar diretamente com a vivência dos alunos, o cursinho enfrenta um dos principais obstáculos impostos à juventude periférica: a naturalização da exclusão.
Rodrigo destaca que muitos estudantes crescem ouvindo que a universidade não é um espaço para eles, e que a educação popular tem justamente o papel de romper com essa lógica, reconstruindo perspectivas e ampliando possibilidades de futuro.
“Quando você fortalece a identidade, você consegue mostrar para esse estudante os discursos que perpassam, entender o contexto social que essa pessoa está inserida e, por meio disso, tentar mostrar que o ensino superior é sim possível”, explica.
Essa abordagem crítica também se conecta diretamente ao perfil do ENEM, que exige interpretação, repertório sociocultural e capacidade de análise da realidade. Para Rodrigo, o retorno dos ex-estudantes como professores evidencia a eficácia desse modelo pedagógico, que articula conteúdo e consciência social de forma integrada.
Comitê Popular de Cursinhos Populares
Apesar dos resultados concretos, os cursinhos populares ainda enfrentam desafios estruturais importantes, como a garantia de transporte, alimentação e condições de permanência dos estudantes. Nesse cenário, o fortalecimento de políticas públicas específicas torna-se fundamental para ampliar o alcance dessas iniciativas e consolidar seus resultados.
O Comitê Popular de Cursinhos Populares (CPOP), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), representa um avanço ao reconhecer institucionalmente essas experiências e garantir apoio financeiro. A política se soma a outras iniciativas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como a Rede de Cursinhos Populares, que prevê apoio a até 500 cursinhos em 2026, com foco em estudantes em situação de vulnerabilidade social, especialmente jovens negros e indígenas.
“Este país nunca levou a sério a educação para o povo pobre”, afirmou Lula.
“O pai e a mãe de vocês, por mais necessidade que tenham, o maior sonho deles não é deixar riqueza para vocês. É deixar uma profissão. É ver o filho ou a filha se formando para que ele possa ter independência na vida. Não existe nenhum país do mundo que se desenvolveu sem antes investir na educação”, declarou o presidente.
Para Rodrigo, o fortalecimento dessas políticas deve caminhar junto com a valorização do coletivo e da organização social que sustenta os cursinhos populares. “Quando os problemas que a gente passa como educandos são problemas sociais, a gente começa a se mobilizar”, reflete.
Segundo o MEC, os editais publicados em 2026 preveem a participação dos cursinhos populares que fazem parte da CPOP nas ações de Mapeamento Nacional de Cursinhos Populares – MapeiaCPOP.
Essa é uma ferramenta inédita e estratégica para a produção, sistematização e publicização de dados envolvendo os cursinhos populares no país, que tem o objetivo não só de monitoramento e controle social, mas também de aperfeiçoamento das políticas públicas.
Para 2026, está prevista a realização de 5 encontros regionais e do II Encontro Nacional da Rede CPOP. Os encontros se constituem como espaços estratégicos e de diálogos entre os cursinhos, MEC e demais instâncias que buscam fortalecer e aprimorar a CPOP como política de Estado.
O MEC investirá R$ 290 milhões em apoio técnico e financeiro a mais de 1.200 cursinhos populares em 2026 por meio da CPOP, reforçando o compromisso com a educação popular e com os estudantes públicos da Lei de Cotas. Os valores representam um aumento de cerca de 170% nos recursos e 133% no número de cursinhos apoiados em relação à previsão inicial para o ano de 2026.