A cada 10 minutos, um adolescente entre 10 e 19 anos é atendido por autoagressão no país. Esse dado, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é um dos vários alertas para uma crise que segue assolando a sociedade: o aumento de casos de transtornos mentais, como depressão e ansiedade, em jovens e adolescentes.
Elaborada a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e divulgada em setembro de 2025, essa pesquisa adverte que, nos dois últimos anos, foram atendidos 137 pessoas dessa faixa etária diariamente, incluindo casos de violência autoprovocada e tentativas de suicídio. A SBP alerta, porém, para a subnotificação. Falhas no registro em hospitais privados e escolas indicam que o número de adolescentes pedindo ajuda através da autoagressão pode ser muito maior do que o oficialmente mapeado – ressaltando que a questão pode ser ainda mais grave.
No mesmo mês em que foi divulgada a pesquisa, o presidente Lula sancionou a lei que cria o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, que entrou em vigor na terça-feira, 17. Conhecida como “Lei Felca”, a nova regulamentação traz diretrizes para plataformas e fornecedores de serviços digitais quanto a disponibilização de conteúdos para todas as idades, sendo uma outra iniciativa voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual.
Nesta quarta-feira, presidente Lula assinou decretos que regulamentam e trazem mais operacionalidade e efetividade para as regras do ECA Digital.
A Polícia Federal segue realizando ações para combater crimes cibernéticos relacionados ao abuso sexual de crianças e adolescentes, com o objetivo de manter a integridade desse público. Um exemplo disso é Operação Guardião Digital, deflagrada em 18 estados e no Distrito Federal.
Tendência global
O cenário brasileiro reflete uma tendência global alarmante monitorada pelas autoridades internacionais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio já se consolidou como a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 10 a 19 anos em todo o mundo.
O dado, de março de 2025, reforça que o aumento dos atos de autoagressão nesta etapa da vida é uma emergência a ser tratada nesta geração que deve ser tratado com a devida importância, assim como afirmou a psicóloga clínica Daniela Pereira, em entrevista à Rede PT de Comunicação.
“Quando olhamos para esses dados isso acende um alerta muito sério para toda a sociedade. A automutilação, muitas vezes, aparece como uma tentativa de aliviar uma dor emocional muito intensa que o jovem ainda não sabe como expressar de outra forma. Por isso, é fundamental olhar para esses comportamentos não apenas como um ‘problema de comportamento’, mas como um pedido de ajuda“, explicou a psicóloga.
Alerta nas escolas
Em outubro de 2025, a Avaliação do Futuro, realizada pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com o CAEd/UFJF, trouxe números que auxiliam na compreensão da temática. Ao ouvir 89 mil estudantes do Ensino Médio em cinco estados (Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará e Paraná), a pesquisa apontou que 8 em cada 10 alunos apresentam sintomas de ansiedade e depressão em níveis altos.
Entre os entrevistados, 38,9% sentem-se esgotados ou sob pressão constante, 33,9% perdem o sono devido a preocupações, 22% relataram sentir-se incapazes de superar suas dificuldades e 20,4% sentem-se infelizes ou deprimidos. A falta parcial ou total de confiança é outra característica apontada: 25,2% das meninas e 17,8% dos meninos ouvidos são afetados por isso.
A psicóloga Daniela Pereira ressalta que os índices podem ser resultados de múltiplos fatores. “Entre os principais, podemos citar a pressão por desempenho, insegurança em relação à identidade e pertencimento, conflitos familiares e exposição intensa às redes sociais, além da comparação constante e de dificuldades em lidar com a frustração.“
Livre circulação na internet e suas consequências
O ambiente virtual, muito acessado pelas novas gerações desde a infância, é um dos espaços em que as vulnerabilidades se tornam mais nítidas e os riscos se multiplicam. O relatório Disrupting Harm in Brazil, lançado pelo UNICEF em março de 2026, revela que 3 milhões de crianças e adolescentes (19% da faixa entre 12 e 17 anos) foram vítimas de exploração ou abuso sexual online no último ano.
Por acreditarem que não seja algo de tamanha importância, 34% das vítimas não contam o ocorrido a ninguém. O silêncio é alimentado pela vergonha (21%) ou pelo medo de não serem acreditadas (16%). O impacto na saúde mental é direto e severo: jovens expostos a essa violência têm cinco vezes mais chances de praticar automutilação ou ter pensamentos suicidas.
Medidas do governo
Buscando reduzir os casos e priorizando o bem-estar dos mais jovens, o Governo Federal e os Ministérios têm articulado ações para frear a escalada da crise. Um exemplo central é a sanção da Lei Nº 15.100/2025, que restringiu o uso de celulares nas escolas. A legislação surgiu como uma resposta direta ao debate sobre como a hiperconexão prejudica o aprendizado, a concentração e, principalmente, a saúde mental.
A legislação estabelece, ainda, que as redes de ensino e escolas implementem estratégias para tratar da saúde mental dos estudantes, oferecendo treinamentos periódicos para prevenção e detecção de sinais de sofrimento psíquico e mental relacionados ao uso excessivo de dispositivos digitais. Também devem ser criados espaços de escuta e acolhimento para estudantes e funcionários.
Em vigor há pouco mais de um ano, a lei trouxe respostas positivas em seus primeiros meses de sanção. A Frente Parlamentar Mista da Educação do Congresso Nacional divulgou uma pesquisa em novembro de 2025 que apontou que mais de 77% dos gestores e 65% dos professores relataram diminuição do bullying virtual dentro das escolas, identificando a efetividade de tal ação para combater ataques e consequências na saúde mental dos estudantes.
Onde buscar ajuda: Rede Pode Falar
Com o objetivo de ajudar adolescentes e jovens com questões psicológicas, o UNICEF criou em 2021, a Rede Pode Falar, um canal anônimo de escuta online destinado para pessoas entre 13 e 24 anos. O atendimento é realizado por meio de um chat e oferece escuta acolhedora, realizada por uma equipe multidisciplinar supervisionada, diferenciando-se, assim, de um processo de psicoterapia.
De acordo com a organização, a plataforma tem cerca de mil acessos mensais, a maioria feita por adolescentes entre 16 e 18 anos. As meninas são as que mais buscam o atendimento, contemplando 75% dos usuários. Ansiedade, preocupações com o futuro, conflitos afetivos e amorosos e questões familiares são os temas mais discutidos nos acessos.
Os atendimentos são gratuitos e anônimos e podem ser feitos de segunda a sábado, exceto feriados, das 8h às 22h (horário de Brasília). Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, o primeiro passo é romper o silêncio.
Da Rede PT de Comunicação.