Partido dos Trabalhadores

A crise de saúde mental que assola adolescentes e o ECA digital

79% dos estudantes de ensino médio relatam sintomas de depressão ou ansiedade. Alto número de casos de autoagressão entre os jovens trazem alertas

Agência Brasil

Regras do ECA Digital aumentam proteção de crianças e adolescentes n ambiente virtual.

A cada 10 minutos, um adolescente entre 10 e 19 anos é atendido por autoagressão no país. Esse dado, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é um dos vários alertas para uma crise que segue assolando a sociedade: o aumento de casos de transtornos mentais, como depressão e ansiedade, em jovens e adolescentes. 

Elaborada a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e divulgada em setembro de 2025, essa pesquisa adverte que, nos dois últimos anos, foram atendidos 137 pessoas dessa faixa etária diariamente, incluindo casos de violência autoprovocada e tentativas de suicídio. A SBP alerta, porém, para a subnotificação. Falhas no registro em hospitais privados e escolas indicam que o número de adolescentes pedindo ajuda através da autoagressão pode ser muito maior do que o oficialmente mapeado – ressaltando que a questão pode ser ainda mais grave.

No mesmo mês em que foi divulgada a pesquisa, o presidente Lula sancionou a lei que cria o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, que entrou em vigor na terça-feira, 17. Conhecida como “Lei Felca”, a nova regulamentação traz diretrizes para plataformas e fornecedores de serviços digitais quanto a disponibilização de conteúdos para todas as idades, sendo uma outra iniciativa voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual.

Nesta quarta-feira, presidente Lula assinou decretos que regulamentam e trazem mais operacionalidade e efetividade para as regras do ECA Digital.

A Polícia Federal segue realizando ações para combater crimes cibernéticos relacionados ao abuso sexual de crianças e adolescentes, com o objetivo de manter a integridade desse público. Um exemplo disso é Operação Guardião Digital, deflagrada em 18 estados e no Distrito Federal.

Tendência global

O cenário brasileiro reflete uma tendência global alarmante monitorada pelas autoridades internacionais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio já se consolidou como a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 10 a 19 anos em todo o mundo. 

O dado, de março de 2025, reforça que o aumento dos atos de autoagressão nesta etapa da vida é uma emergência a ser tratada nesta geração que deve ser tratado com a devida importância, assim como afirmou a psicóloga clínica Daniela Pereira, em entrevista à Rede PT de Comunicação.

“Quando olhamos para esses dados isso acende um alerta muito sério para toda a sociedade. A automutilação, muitas vezes, aparece como uma tentativa de aliviar uma dor emocional muito intensa que o jovem ainda não sabe como expressar de outra forma. Por isso, é fundamental olhar para esses comportamentos não apenas como um ‘problema de comportamento’, mas como um pedido de ajuda“, explicou a psicóloga.

Alerta nas escolas

Em outubro de 2025, a Avaliação do Futuro, realizada pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com o CAEd/UFJF, trouxe números que auxiliam na compreensão da temática. Ao ouvir 89 mil estudantes do Ensino Médio em cinco estados (Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará e Paraná), a pesquisa apontou que 8 em cada 10 alunos apresentam sintomas de ansiedade e depressão em níveis altos. 

Entre os entrevistados, 38,9% sentem-se esgotados ou sob pressão constante, 33,9% perdem o sono devido a preocupações, 22% relataram sentir-se incapazes de superar suas dificuldades e 20,4% sentem-se infelizes ou deprimidos. A falta parcial ou total de confiança é outra característica apontada: 25,2% das meninas e 17,8% dos meninos ouvidos são afetados por isso.

A psicóloga Daniela Pereira ressalta que os índices podem ser resultados de múltiplos fatores. “Entre os principais, podemos citar a pressão por desempenho, insegurança em relação à identidade e pertencimento, conflitos familiares e exposição intensa às redes sociais, além da comparação constante e de dificuldades em lidar com a frustração.

Livre circulação na internet e suas consequências

O ambiente virtual, muito acessado pelas novas gerações desde a infância, é um dos espaços em que as vulnerabilidades se tornam mais nítidas e os riscos se multiplicam. O relatório Disrupting Harm in Brazil, lançado pelo UNICEF em março de 2026, revela que 3 milhões de crianças e adolescentes (19% da faixa entre 12 e 17 anos) foram vítimas de exploração ou abuso sexual online no último ano.

Por acreditarem que não seja algo de tamanha importância, 34% das vítimas não contam o ocorrido a ninguém. O silêncio é alimentado pela vergonha (21%) ou pelo medo de não serem acreditadas (16%). O impacto na saúde mental é direto e severo: jovens expostos a essa violência têm cinco vezes mais chances de praticar automutilação ou ter pensamentos suicidas. 

Medidas do governo

Buscando reduzir os casos e priorizando o bem-estar dos mais jovens, o Governo Federal e os Ministérios têm articulado ações para frear a escalada da crise. Um exemplo central é a sanção da Lei Nº 15.100/2025, que restringiu o uso de celulares nas escolas. A legislação surgiu como uma resposta direta ao debate sobre como a hiperconexão prejudica o aprendizado, a concentração e, principalmente, a saúde mental.

A legislação estabelece, ainda, que as redes de ensino e escolas implementem estratégias para tratar da saúde mental dos estudantes, oferecendo treinamentos periódicos para prevenção e detecção de sinais de sofrimento psíquico e mental relacionados ao uso excessivo de dispositivos digitais. Também devem ser criados espaços de escuta e acolhimento para estudantes e funcionários.  

Em vigor há pouco mais de um ano, a lei trouxe respostas positivas em seus primeiros meses de sanção. A Frente Parlamentar Mista da Educação do Congresso Nacional divulgou uma pesquisa em novembro de 2025 que apontou que mais de 77% dos gestores e 65% dos professores relataram diminuição do bullying virtual dentro das escolas, identificando a efetividade de tal ação para combater ataques e consequências na saúde mental dos estudantes.

Onde buscar ajuda: Rede Pode Falar 

Com o objetivo de ajudar adolescentes e jovens com questões psicológicas, o UNICEF criou em 2021, a Rede Pode Falar, um canal anônimo de escuta online destinado para pessoas entre 13 e 24 anos. O atendimento é realizado por meio de um chat e oferece escuta acolhedora, realizada por uma equipe multidisciplinar supervisionada, diferenciando-se, assim, de um processo de psicoterapia. 

De acordo com a organização, a plataforma tem cerca de mil acessos mensais, a maioria feita por adolescentes entre 16 e 18 anos. As meninas são as que mais buscam o atendimento, contemplando 75% dos usuários. Ansiedade, preocupações com o futuro, conflitos afetivos e amorosos e questões familiares são os temas mais discutidos nos acessos. 

Os atendimentos são gratuitos e anônimos e podem ser feitos de segunda a sábado, exceto feriados, das 8h às 22h (horário de Brasília). Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, o primeiro passo é romper o silêncio.

Da Rede PT de Comunicação.