Partido dos Trabalhadores

A desinformação e a manipulação das emoções para manter engajamento

Na coluna de hoje, Eliara Santana explica as estratégias usadas, como o conteúdo impostor: as fontes são genuínas, mas as declarações postadas são mentirosas

Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

“A desinformação mobiliza e manipula emoções, e isso se dá com objetivos diversos e muito específicos: para manter as pessoas engajadas, para construir a imagem de um inimigo público, para atrair certa simpatia a uma causa ou personagem, para despertar “pena” em relação a um personagem e provocar o vitimismo. São muitas as possibilidades, e muito sutis as estratégias.

A sutileza também está presente nos vários tipos dos conteúdos desinformativos, como descreve a jornalista e pesquisadora Claire Wardle, em Information Desordem (2019). Para entender como a desinformação funciona, é importante conhecer esses tipos e suas nuances:   

a) Conteúdo fabricado: novo conteúdo que é 100% falso, projetado para enganar –  ou seja, o conteúdo é criado de modo intencional para mentir e causar danos. Exemplo: Fake news sobre urnas eletrônicas;

b) Conteúdo manipulado: quando informações ou imagens genuínas são manipuladas para enganar. Exemplo: Foto do Papa Francisco usando casaco de grife;

c) Conteúdo impostor: quando fontes genuínas são representadas ou imitadas em textos, artigos, videos, matérias que não escreveram ou em declarações que não deram, ou ainda quando logos de instituições são usadas para reproduzir conteúdos falsos. Exemplo: Vídeos de figuras como Drauzio Varella, com o áudio manipulado por IA para apresentar pesquisas e medicamentos fake;

d) Conteúdo enganoso: uso enganoso ou distorcido de informações para enquadrar um problema ou indivíduo. Exemplo: Uso de fragmentos de aspas para sustentar um determinado aspecto, citando dados de maneira que se alinhem a uma posição determinada;

e) Conexão falsa: quando manchetes, imagens ou legendas não correspondem ao conteúdo. Exemplo: Manchetes sensacionalistas que exploram vertentes que não estão nas matérias;

f) Contexto falso: conteúdos genuínos, verdadeiros, que são retirados do seu contexto original. Exemplo: Trechos de entrevistas que são reproduzidos em outros momentos como ser estivessem naquele contexto.   

Raiva, medo, ojeriza, pertencimento…

Voltando à interface desinformação e emoções, os conteúdos produzidos nos mais variados tipos e formatos interpelam nossas emoções e trabalham para despertar em nós raiva, medo, solidariedade, afinidade, pertencimento, ojeriza.

Memes e vídeos são produzidos estrategicamente e colocados em circulação  para gerarem indignação e ódio. O passo a passo é relativamente simples:

Cria-se uma narrativa falsa, meio bombástica,  partir de um fato corriqueiro;

Há utilização de uma linguagem que apela ao emocional das pessoas, estabelecendo vinculação e pertencimento ou raiva e indignação;

3 º Uso de vídeos e imagens bem criativos que interpelam os interlocutores, o público-alvo, e despertam as emoções;

  Ideias altruístas – de missão por uma causa, de abnegação, de dedicação – são mobilizadas de modo falso para criar empatia.

O ódio a jornalistas a partir de vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro

Nas redes sociais, o discurso da extrema direita é de defesa da democracia, da liberdade de expressão, de solidariedade e empatia. Mas, na vida real, a prática é bem outra. A desinformação protagonizada por atores relevantes desse grupo, usando temas sensíveis que despertam nossas emoções, mobiliza a raiva das pessoas pela disseminação de fake news.

A doença é um desses temas, e o brasileiro é muito solidário e sensível quando uma figura pública de destaque está em situação delicada de saúde.

Recentemente, esse conjunto de elementos foi bem explorado no episódio envolvendo Michelle Bolsonaro e a divulgação de um vídeo com conteúdo falso e enganoso. No material, uma influenciadora dizia – sem provas – que os jornalistas que estavam na porta do hospital para cobrir a mais recente internação de Jair Bolsonaro estavam desejando a morte dele.

Na legenda do vídeo, os dizeres: “Jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”.

Michelle Bolsonaro não hesitou nem por minuto e divulgou o vídeo no Instagram, plataforma em que ela tem mais de 8 milhões de seguidores. Foi o que bastou para canalizar o ódio aos jornalistas que estavam trabalhando. O conteúdo do vídeo era deliberadamente mentiroso.

Outros políticos da extrema direita também replicaram, e os jornalistas passaram a sofrer ameaças e a receber mensagens de ódio. Alguns registraram boletim de ocorrência. Ninguém se desculpou.

Esse tipo de conteúdo, para além de disseminar ódio, também engana as pessoas para manter em evidência midiática certos personagens políticos. É assim que funcionam as engrenagens da desinformação.

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).