Após mais de duas décadas de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi finalmente assinado no sábado, dia 17, em Assunção, Paraguai, marcando um novo momento para a política externa brasileira e para a integração entre dois dos maiores blocos do mundo. A iniciativa é celebrada pelo Governo Lula como uma vitória do diálogo, da democracia e da cooperação entre os povos.
O acordo, agora, segue para os trâmites de ratificação nos parlamentos nacionais. Para o Ministério de Relações Exteriores (MRE), trata-se do maior acordo comercial negociado pelo Mercosul e um dos maiores pactuados pela União Europeia com parceiros comerciais.
“Ante o crescimento do extremismo político, Mercosul e União Europeia demonstram na prática como o multilateralismo, que tantos benefícios trouxe ao mundo depois da Segunda Guerra, segue atual e imprescindível”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em artigo publicado em veículos de imprensa dos dois blocos no último fim de semana.
O presidente Lula ressaltou que o acordo exigiu uma longa construção, de mais de 25 anos. Ele pontuou que os dois blocos se unem contra a lógica “das guerras comerciais que segregam economias” e apostam no compartilhamento de valores democráticos, humanos e de proteção ambiental.
Para o professor Antonio Jorge Ramalho, professor do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da Universidade de Brasília (UnB), o significado do acordo vai além da economia e se insere no esforço de reconstrução do papel do Brasil no mundo.
“Trata-se de grande realização política, a vitória da perseverança no diálogo sobre resistências setoriais e de uma importante direção política em um período turbulento e confuso das relações internacionais. O acordo renova a esperança no multilateralismo e aponta um caminho viável para ação conjunta em defesa da democracia e dos direitos humanos”, afirma.
Em entrevista ao PT Nacional, o professor também ressaltou que o Brasil volta a exercer um papel pedagógico na política internacional, ao mostrar que é possível construir consensos mesmo em um cenário de disputas e radicalizações. Segundo ele, o Governo Lula aposta em uma diplomacia que dialoga com governos, sociedades e instituições.
Cooperação é mais eficaz que o confronto
“O Brasil volta a dizer ao mundo que cooperação é mais eficaz do que confronto. Não se trata apenas de abrir mercados, mas de reconstruir confiança entre regiões que compartilham valores como democracia, soberania e justiça social”, pontuou o professor Antonio Ramalho.
Do ponto de vista estratégico, o acordo amplia horizontes para o Brasil e para o Mercosul. A União Europeia reúne 27 países e, junto com o bloco sul-americano, forma um mercado de 720 milhões de pessoas cujo Produto Interno Bruto (PIB) supera US$ 22 trilhões. Para o professor, isso significa novas oportunidades para investimentos, exportações e fortalecimento da integração regional. No total, há 31 países envolvidos no acordo.
“O acordo abre novas possibilidades de investimento e amplia os mercados potenciais. Permite diversificar destinos de exportações, reduzindo a dependência do Brasil em relação à China e estimula a competitividade das economias”, explica Ramalho.
Ele avalia ainda que, com o tempo, os ganhos econômicos podem fortalecer o apoio político e social à consolidação dessa área de livre comércio. “Quando os benefícios começarem a ser sentidos no cotidiano das pessoas, haverá mais apoio à ampliação dessa integração”, observa.
Exigências ambientais e transição verde
Outro ponto central do acordo diz respeito às exigências ambientais e sociais da União Europeia. Para Antonio Jorge, longe de representar um entrave, essas cláusulas podem impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento sustentável no Brasil.
“O acordo tende a acelerar a indução do desenvolvimento sustentável e da transição energética verde. O Brasil está bem posicionado para isso e os atores econômicos mais lúcidos já se ajustaram às exigências ambientais e sociais da UE”, afirma o professor.
Ele destaca ainda que essa agenda está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e às evidências científicas. “É uma agenda de bom-senso. O que impressiona é que ainda haja resistências a dar esse passo no sentido da inovação produtiva e da redistribuição de renda, necessária para ampliar a demanda e induzir o crescimento econômico”, completa.
Uma das maiores zonas econômicas do planeta
Pelo governo brasileiro, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, ressaltou que o acordo fortalece laços históricos entre as regiões e cria uma das maiores zonas econômicas do planeta.
“O acordo Mercosul-União Europeia aproxima ainda mais duas regiões que já são muito integradas do ponto de vista cultural, político, histórico e também econômico. O acordo cria uma das maiores zonas econômicas do mundo, reunindo 31 países, 720 milhões de habitantes e mais ou menos 14% do PIB mundial”, declarou.
Vieira também destacou os impactos concretos para a população. “É um acordo de interesse de todos os setores no Brasil. Vai produzir benefícios quase imediatos, com a integração dos sistemas produtivos e a redução de tarifas, melhorando a vida de produtores e consumidores brasileiros”, afirmou.
O chanceler lembrou ainda que a retomada das negociações foi uma orientação direta do presidente Lula logo no início do governo. “O presidente nos instruiu a retomar as negociações e rever um texto que estava parado há quatro anos. Era um texto desequilibrado e antiquado. Agora temos um acordo muito mais equilibrado e positivo para ambos os lados”, concluiu.
Ramíla Moura, especial para a Redação do PT.