O presidente Lula abriu, nesta quinta-feira (23), em Jacarta, a agenda oficial de compromissos no Sudeste Asiático com uma recepção marcada por honras militares e pela assinatura de oito acordos de cooperação entre Brasil e Indonésia. A visita reforçou a parceria entre dois gigantes do Sul Global que, juntos, somam quase meio bilhão de habitantes e compartilham a defesa de um mundo mais equilibrado, baseado no diálogo, na solidariedade e no multilateralismo.
Parceria estratégica e novos acordos
Lula foi recebido no Palácio Merdeka pelo presidente Prabowo Subianto, com quem firmou memorandos nas áreas de energia, mineração, agricultura, estatísticas, defesa, ciência e tecnologia. O encontro marca uma nova etapa na relação bilateral iniciada em 2008, agora fortalecida pela busca de uma “transição energética justa” e pela ampliação do comércio de produtos de maior valor agregado.
“É quase inexplicável como dois países importantes como Brasil e Indonésia tenham um comércio de apenas US$ 6 bilhões. É pouco”, afirmou Lula, lembrando que o intercâmbio entre os dois países triplicou nas últimas duas décadas e tem potencial para atingir US$ 20 bilhões nos próximos anos.
Os acordos também preveem parcerias em inovação e biocombustíveis, além da ampliação das exportações brasileiras de proteína animal e a cooperação na indústria de defesa, área em que a Embraer já fornece aeronaves ao governo indonésio.
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Diálogo e soberania econômica
Em sua fala, Lula voltou a criticar o protecionismo e as políticas unilaterais impulsionadas pelo governo de Donald Trump. “Nós queremos multilateralismo e não unilateralismo. Queremos democracia comercial e não protecionismo. Nós queremos crescer, gerar empregos, emprego de qualidade, porque é para isso que fomos eleitos para representar o nosso povo”, afirmou.
O presidente reiterou ainda o desejo de reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais e bilaterais. “Tanto a Indonésia quanto o Brasil têm interesse em discutir a possibilidade de comercialização entre nós dois com as nossas moedas. O século XXI exige que tenhamos a coragem que não tivemos no século XX”.
A posição reforça a agenda brasileira no Brics, grupo que inclui ainda Indonésia, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos e busca criar mecanismos financeiros independentes do sistema dominado pelos Estados Unidos.
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Cooperação ambiental e cultural
Além das pautas econômicas, os presidentes também destacaram a convergência em temas ambientais e sociais. “Indonésia e Brasil trabalharão juntos para uma transição energética justa, rumo a economias menos poluentes e mais sustentáveis, sem prescindir da geração de empregos de qualidade e da redução das desigualdades”, disse Lula.
A parceria ganhará ainda um capítulo cultural. Prabowo anunciou que o português passará a ser ensinado nas escolas locais, reconhecendo a importância do Brasil e da língua falada por mais de 260 milhões de pessoas. “Será uma língua prioritária em nossa educação, porque queremos que esse relacionamento se fortaleça”.
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Desafios
A fala de Lula reafirma a autonomia do Brasil em um cenário internacional marcado por tensões comerciais e pela volta de medidas protecionistas. A aproximação com países do Sudeste Asiático é parte da estratégia de diversificação das rotas comerciais brasileiras.
Há, porém, desafios a enfrentar. A imposição de tarifas de até 50% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e a pressão de Washington contra o uso de moedas locais em transações do Brics criam tensões que o governo brasileiro tenta contornar com diplomacia e novos parceiros.
Ainda assim, o clima em Jacarta foi de otimismo. As duas delegações celebraram o início de uma “parceria estratégica de longo prazo”, nas palavras de Prabowo, que classificou o Brasil como “uma força complementar e essencial para o futuro do Sul Global”.
Da Redação