Em meio ao avanço da extrema direita no mundo e ao uso agressivo do poder por lideranças como Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um duro ataque à desordem global e do sistema internacional. Em discurso no Fórum Democracia Sempre (Global Progressive Mobilisaiton – GPM), em Barcelona, na Espanha, Lula falou sobre a escalada de guerras, decisões unilaterais e a fragilidade da Organização das Nações Unidas diante de conflitos. Segundo ele, as batalhas são impulsionadas por interesses de grandes potências, muitas vezes sem qualquer consulta à comunidade internacional.
Ao conectar o cenário global com a realidade brasileira, Lula alertou que o país derrotou recentemente o extremismo ligado ao bolsonarismo, mas alertou que essa força política segue ativa e organizada. “No meu Brasil nós acabamos de derrotar o extremismo… mas ele continua vivo e vai disputar a eleição outra vez”. O petista destacou que a ameaça autoritária não é um fenômeno isolado, mas parte de uma engrenagem internacional que pressiona democracias ao redor do mundo.
Nesse contexto, o presidente apontou que o maior risco hoje não está apenas nos conflitos internos de cada país, mas na ausência de regras globais capazes de conter abusos de poder e garantir equilíbrio entre as nações. Para ele, o enfraquecimento do multilateralismo abre espaço para que líderes decidam guerras, imponham sanções e interfiram em outros países sem qualquer freio institucional.
Decisões unilaterais e “senhores da guerra”
Lula foi direto ao questionar a legitimidade de ações militares conduzidas sem consulta ao sistema internacional. “Nenhum presidente de nenhum país do mundo, por maior que seja, tem o direito de ficar impondo regras a outros países”, afirmou.
Ele citou como exemplos intervenções no Iraque, na Líbia, na Ucrânia, no Irã e na Faixa de Gaza, classificando essas ações como decisões unilaterais que ignoram o papel da ONU. Para o presidente, esse comportamento revela uma distorção profunda na governança global.
Ao criticar o funcionamento do Conselho de Segurança, Lula afirmou que os membros permanentes “viraram os senhores da guerra”, ao concentrar poder e utilizar o direito de veto para bloquear decisões estratégicas.
Ele também chamou a atenção para o risco de instabilidade permanente provocada por lideranças globais. “Nós não podemos levantar todo dia de manhã e dormir todo dia à noite com um tweet de um presidente ameaçando o mundo, fazendo guerra”, disse, em referência ao uso político das redes pelo presidente americano Donald Trump.
Regulação global das plataformas digitais
O presidente também criticou o funcionamento das redes sociais e à ausência de controle democrático sobre essas plataformas.
“O problema da violência contra a mulher não é um problema da mulher… se o Estado não agir, a gente não controla as chamadas plataformas digitais, que de rede social não têm nada, pouco social e muito ódio, muita promiscuidade”, afirmou.
Lula defendeu que a regulação das plataformas seja tratada como uma questão global, sob coordenação da ONU, com regras comuns que garantam proteção aos usuários e respeito às democracias.
Segundo ele, as redes têm sido usadas para espalhar desinformação, interferir em processos eleitorais e enfraquecer a soberania dos países. Além disso, criticou a falta de transparência das empresas de tecnologia, que operam globalmente sem prestar contas e muitas vezes sem pagar impostos nos países onde atuam.
Falta de representatividade
Outro ponto central do discurso foi a ausência de representatividade no sistema internacional. Lula questionou a exclusão de regiões inteiras das decisões globais, especialmente a África e países emergentes.
“Cadê a representação africana? Cadê a participação do México, do Brasil, de uma Argentina, de uma Colômbia? Cadê a participação da Índia?”, afirmou, ao defender uma reformulação do Conselho de Segurança.
Para o presidente, o mundo mudou, mas a estrutura de poder internacional segue presa a uma lógica ultrapassada, que não reflete o peso político, econômico e populacional de diversas nações.
Propostas para reformar a ONU
Diante desse cenário, Lula defendeu mudanças estruturais na ONU como condição para reconstruir o multilateralismo. Entre as propostas, destacou a necessidade de ampliar os poderes do secretário-geral, permitindo a convocação de reuniões extraordinárias sem depender dos membros permanentes.
Ele também defendeu a revisão da Carta das Nações Unidas para adaptar a organização à realidade atual e garantir maior eficiência na mediação de conflitos e na tomada de decisões globais.
Para Lula, a ONU precisa voltar a ser o principal espaço de articulação internacional, capaz de dar respostas rápidas e legítimas às crises contemporâneas.
Da Rede PT de Comunicação.