Partido dos Trabalhadores

Exaustão, adoecimento mental e desigualdade: o custo social da escala 6×1

Lula pediu que Congresso trate o tema como prioridade. Redução de jornada é bandeira do PT desde a origem do partido. Especialistas explicam como a produtividade pode aumentar com jornada menor

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Redução da jornada é uma das principais reivindicações dos trabalhadores no Brasil contemporâneo.

A pernambucana Elayne Cristina, 29 anos, acorda todos os dias às 5h20 da manhã. A rotina da técnica em enfermagem inclui cuidados com a sogra que está acamada, com os filhos, e serviços domésticos. Moradora de Nova Descoberta, na periferia do Recife, ela explica que passa cerca de três horas por dia nos ônibus, em função dos deslocamentos. “Começo meu dia organizando as crianças, que têm 11 e 9 anos. Antes de sair para o trabalho, deixo almoço pronto e os afazeres domésticos em dia. Preciso sair de casa duas horas antes de pegar no serviço”, descreve. 

Elayne é casada e percebe a diferença da carga de trabalho em relação ao marido, que não tem tanta responsabilidade com as tarefas em casa. “Todos os dias ele sai para trabalhar despreocupado, as tarefas com os cuidados domésticos estão na minha conta”, explica. 

Hoje, Elayne comemora o fato de fazer três vezes por semana 40 minutos de exercício, por indicação médica. “Meu dia a dia é bem puxado, trabalho desde os 18 anos, tenho dois filhos, fui mãe com 16 anos. Sempre trabalhei no formato 6×1. Ainda trabalho por fora, como cuidadora. Não sobra tempo pra mim.”

O dia a dia de Elayne é parecido com o de milhões trabalhadoras e trabalhadores no Brasil, que estão no regime de trabalho 6×1 e seriam beneficiados com a redução da jornada. No início do Ano Legislativo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao Congresso Nacional prioridade ao tema. “Nosso próximo desafio é o fim da escala 6×1 de trabalho, sem redução de salário. O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente e curtir a família”, 

A técnica em enfermagem concorda com o presidente: “Ter que dar conta de tudo, e o fato de não ter muitas vezes amparo também faz ficar um pouco mais pesado. Se eu trabalhasse menos horas melhoraria bastante. Nós, mulheres, quase não temos tempo de descanso”.

A realidade da sobrecarga feminina

 

A professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Marina Souza, é doutora em Terapia Ocupacional e pesquisadora nas áreas de trabalho, políticas públicas, vulnerabilidades sociais e saúde mental. Segundo ela, a realidade das mulheres no mundo do trabalho no Brasil é essa, de múltiplas jornadas. 

“A divisão sexual do trabalho, que podemos resumir como sendo a diferença de atribuições entre homens e mulheres, sustenta até hoje a naturalização da sobrecarga feminina e da terceira jornada. No Brasil isso se dá por uma herança histórica com raízes na escravidão e nos processos de colonização; por um discurso patriarcal moralizante que coloca a mulher como “mais cuidadosa e dona do lar” e por um modelo centrado na produtividade, que não valoriza o trabalho doméstico e, por conseguinte, não investe em políticas públicas de cuidado para mulheres trabalhadoras, como creches públicas em tempo integral, por exemplo”, analisa. 

Douglas Ferreira,  professor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), de Ciências do Trabalho, e assessor de economia da liderança do Partido dos Trabalhadores no Senado, ressalta a importância de repactuar a relação capital-trabalho numa dinâmica mais favorável aos trabalhadores. 

“A gente teve nesse período os ganhos de produção, o avanço notável da internet. Diversas tecnologias que incidem no mundo do trabalho modificaram a relação desses trabalhadores com a produção econômica”, atesta o professor do Dieese. 

Ele explica que foi a partir dessa inquietação que surgiu o movimento Vida Além do Trabalho (VAT): “Essa é uma discussão que foi puxada pela base da sociedade brasileira e que vem para colocar em xeque a atual forma de relação dos trabalhadores com o trabalho e com a sua vida, com o lazer, com a sua família, com a sua saúde, com a reprodução, com os cuidados necessários”.

“O tempo do não trabalho vem sendo desvalorizado devido à influência da racionalidade neoliberal: valoriza-se estar sempre produtivo. Ainda, em contextos de desigualdade social como no caso do Brasil, existe a necessidade material de manutenção da vida por meio do dinheiro, que faz com que os trabalhadores precisem trabalhar cada vez mais”, complementa a professora da UFPB.

A vida, observa Marina Souza, “passa a ser vivida de forma que o trabalhador se culpabiliza por não trabalhar e passa até mesmo a normalizar e romantizar quando é sempre invadido por demandas produtivas”.

Redução de jornada é tendência mundial

 

O governo avalia encaminhar ao Congresso uma proposta sobre a redução da jornada. Para o Governo Lula e o PT, o tema está maduro para debate e o Brasil precisa encarar essas transformações sociais. A redução da jornada de trabalho é uma tendência mundial. No México, está sob análise uma proposta para reduzir de 48 horas semanais para 40 horas semanais até 2030, com redução de duas horas por ano. Já na Colômbia, a jornada é de 42 horas. O Equador tem uma jornada máxima de 40 horas por semana, No Chile, a tendência é reduzir de 42 horas para 40 horas. 

No Brasil, está tramitando no Senado a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, de autoria de Paulo Paim (PT) e outros parlamentares, que prevê o fim da escala 6×1 sem alteração dos salários, e uma redução progressiva da jornada. A matéria foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e segue para votação no plenário. “A PEC 148/2015 está pronta para ser votada. É o fim da escala 6×1, uma luta histórica do Partido dos Trabalhadores, uma luta por dignidade, por justiça social, qualidade de vida”, ressalta Paim. 

Hoje no Brasil a jornada limite é de 44 horas semanais e oito horas por dia. A PEC 148/2015 propõe que a jornada limite seja de 40 horas, chegando a 36 horas, reduzindo, a partir de sua aprovação, uma hora por ano da jornada de trabalho, chegando a uma jornada de 4×3. 

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil tem uma das maiores jornadas anuais do mundo, com cerca de 1.936 horas trabalhadas, ocupando o 4° lugar nesse ranking, além de ter um dos menores custos salariais entre as grandes economias. 

Dados comprovam aumento de produtividade

 

Estudos mostram que a redução da jornada de trabalho pode aumentar a produtividade e atuar positivamente no sistema previdenciário. “O primeiro impacto positivo da redução de jornada é que mais trabalhadores tendem a sair da informalidade, e com isso contribuir para a Previdência. Com isso terão, também, seus direitos assegurados em termos de leis trabalhistas”, analisa Douglas. 

O principal argumento contrário ao fim da jornada 6×1 é que a mudança implicaria perda de empregos, aumento dos custos para as empresas e, consequentemente, aumento dos preços ao consumidor. 

Douglas Ferreira opina que é possível reduzir a jornada sem afetar negativamente a competitividade econômica do país. “O  piloto da semana de 4 dias mostrou ganhos em bem-estar, desempenho e até aumento de receita nas empresas”, informa o técnico do Dieese. O país, acrescenta, também ganharia em relação à capacitação dos seus trabalhadores e trabalhadoras. 

“Com maior tempo disponível, esses trabalhadores também têm uma maior possibilidade de capacitação.  Quem está fazendo uma jornada diária de oito horas com pelo menos uma hora de deslocamento de ida e volta para o trabalho não tem tempo para fazer qualificação, para estudar, para buscar um melhor posicionamento no mercado de trabalho e, evidentemente, isso contribui também para o geral da sociedade, isso contribui com ganhos de produtividade.”

A técnica em enfermagem Elayne Cristina confirma o desejo de mais qualificação profissional. “Eu tenho vontade de fazer meu curso superior em enfermagem e gostaria de me especializar na área dos cuidados paliativos. Talvez, com a diminuição das horas de trabalho, eu consiga ter mais tempo para os meus filhos e para os meus sonhos”, imagina.

Saúde mental, um efeito colateral indesejado

 

Uma outra preocupação em relação às jornadas de trabalho exaustivas são os afastamentos por burnout —síndrome do esgotamento profissional— que se multiplicaram em quatro anos e passaram a pressionar os gastos da Previdência Social, crescendo 493% entre 2021 e 2024. “Em 2024, o número total de pedidos de afastamento foi de 3,5 milhões, sendo que 455 mil foram por afastamentos de doenças mentais. Uma categoria que não era muito conhecida pelo INSS e tem se tornado cada vez mais recorrente, e é justamente o burnout, que atinge pessoas que trabalham horas excessivas e que adoecem mentalmente”, declara Douglas Ferreira.

Em relação à sobrecarga de trabalho, a professora Marina Souza ainda acrescenta que “o adoecimento mental é frequentemente tratado como menos legítimo que o físico e estigmatiza os trabalhadores, atuando como tecnologia de poder, já que a partir da negação deste problema as empresas e o Estado podem regular corpos, silenciar denúncias e individualizar problemas que são coletivos e que deveriam ser solucionados através de estratégias e responsabilidades produzidas por contratantes, por meio de políticas públicas e de leis que fortaleçam a proteção social e os direitos trabalhistas”.

Ecos da reforma trabalhista de 2017

 

O Dieese publicou em setembro de 2025 uma nota técnica com o título “Tempo de Trabalho e Tempo de Descanso, uma Luta Histórica” que analisa, entre outros fatores, a reforma trabalhista de 2017 no Brasil e a precarização dos dispositivos relacionados à jornada de trabalho. O documento alerta que as mudanças impuseram reduções de direitos relacionados ao tempo de trabalho com ênfase no esvaziamento da negociação coletiva, priorizando a negociação individual. 

A professora Marina Souza diz que no Brasil tem se valorizado o que ela chama de empreendedorismo de sobrevivência. “O que se nomeia como “empreendedorismo” ou “trabalho autônomo” tem se constituído predominantemente no país de duas formas: 

A primeira ocorre por meio da transformação de pessoas físicas em pessoas jurídicas, a chamada pejotização, utilizada como estratégia para burlar vínculos empregatícios formais, fragilizar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e reduzir a proteção social garantida pelos contratos formais. A segunda se expressa nas atividades realizadas como forma de “dar um jeito” de garantir renda, caracterizadas pela informalidade, instabilidade e ausência de direitos, como o trabalho de rua e outras ocupações precárias”, alerta.

Para Douglas Ferreira, a redução da jornada geraria mais empregos e teria impacto na rede informal. “Me refiro à uberização das relações de trabalho. A maior empresa de transporte urbano do mundo não tem um trabalhador de transporte registrado. A maior rede hoteleira do mundo hoje, que se chama Airbnb, é um aplicativo do setor hoteleiro, que também não tem um hotel. Podemos também citar a Amazon, ou o Mercado Livre, que fazem e-commerce, e não têm uma loja física. Como que a gente regula também essas novas formas de trabalho? Isso ainda está em discussão, mas é fato que quando a gente reduz a jornada do mercado formal, isso tende a impactar também o mercado informal, porque o mundo é dinâmico, e a economia informal e a formal dialogam muito”, finaliza.