Por Luís Sabanay (*)
“É possível ignorar que certos discursos de inimigos, honra, controle moral e radicalização política estiveram associados a violências reais no Brasil recente?
Chama atenção a indignação seletiva de setores da chamada família tradicional quando chega o Carnaval. Em 2026, essa reação reaparece nas redes e em campanhas que apresentam a família conservadora como sitiada culturalmente, supostamente ameaçada por influências externas.
Repete-se o mesmo discurso sobre moral, bons costumes e defesa da família, como se a maior ameaça às famílias brasileiras fosse a festa, o corpo ou a liberdade alheia.
Esse tipo de reação não é novo. Em diferentes anos, representações religiosas no Carnaval já provocaram protestos e acusações de blasfêmia, desrespeito à fé ou ataque à família cristã. Em 2020, a Mangueira enfrentou forte reação de lideranças e grupos religiosos com o enredo “A verdade vos fará livre”, que retratava um Jesus negro, periférico e próximo dos pobres. Já em 1989, a Beija-Flor também foi alvo de críticas morais e religiosas com “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, desfile que expunha miséria, exclusão e símbolos sacralizados da cultura brasileira.
A cada ciclo, o padrão se repete. O Carnaval é transformado em ofensa religiosa ou decadência moral, enquanto violências concretas que atingem famílias permanecem em segundo plano no debate público.
No entanto, olhando com honestidade para o Brasil recente, o que mais destruiu famílias não foi o Carnaval, mas o machismo, a lógica de posse e a violência dentro de casa. O caso de Itumbiara, em 2026, é devastador. Um pai matou os próprios filhos para atingir a mãe, por ciúme. Esse tipo de crime tem nome. Violência vicária. Ele se enraíza na ideia de que a mulher pertence ao homem e de que a honra masculina poderia justificar punição.
Há ainda outro aspecto quase ausente desse debate moral. Entre 2019 e 2024, o Brasil viveu um dos períodos mais intensos de violência política desde a redemocratização, associado à radicalização política ligada ao bolsonarismo. O país não possui estatísticas criminais por ideologia, portanto não é possível quantificar autores por identidade política. Ainda assim, há fatos documentados.
O Supremo Tribunal Federal já condenou cerca de 310 pessoas pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. A Polícia Federal apontou 37 investigados, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados, por tentativa de manter o poder após a derrota eleitoral de 2022. Em 2024, registraram-se 76 assassinatos com motivação política. Entre 2020 e 2022, ocorreram 54 assassinatos e 109 atentados desse tipo. O tesoureiro do Partido dos Trabalhadores Marcelo Arruda foi morto por um bolsonarista em 2022. Estudos sobre ataques à imprensa indicaram que, em 2020, cerca de 85 por cento das agressões a jornalistas partiram de autoridades ligadas ao bolsonarismo.
As contradições tornam-se mais nítidas quando observadas em conjunto.
Primeira contradição. O discurso de defesa da família volta-se com intensidade contra o Carnaval e a liberdade de costumes. Já as violências domésticas que efetivamente destroem famílias tendem a ser tratadas como desvios individuais ou tragédias privadas.
Segunda contradição. A honra masculina e o controle moral são exaltados como pilares da ordem familiar. Esses mesmos valores aparecem na base cultural de crimes como a violência vicária e o feminicídio, nos quais a mulher é tratada como propriedade e a punição é legitimada como restauração de honra.
Terceira contradição. Esse campo, hoje fortemente articulado pela extrema direita, se percebe como moralmente ordeiro e protetor da sociedade. No entanto, houve associação documentada de lideranças e militantes com radicalização política, retórica de inimigos e episódios concretos de violência no Brasil recente.
Quarta contradição. O Carnaval é construído como ameaça simbólica à família. Não há relação factual entre Carnaval e destruição familiar, enquanto há ampla evidência de que machismo e violência política produzem danos diretos e mensuráveis às famílias.
Por isso soa incoerente ver esse mesmo campo se apresentar como guardião da família contra o Carnaval. A festa, com todos os seus excessos, não matou filhos para punir mães, não organizou tentativa de golpe nem transformou adversários políticos em inimigos a eliminar.
Se a preocupação é realmente com famílias, o debate central não deveria ser fantasia ou samba, mas machismo, violência doméstica e radicalização política. O que se apresenta como defesa da família frequentemente opera como defesa de hierarquias, de controle e de uma ideia de honra que historicamente legitimou a violência contra mulheres e crianças.
Família não é propriedade.
Mulher não é honra.
Liberdade não é ameaça.”
(*) Pastor presbiteriano, teólogo, membro do Diretório Nacional do PT e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Religião da Fundação Perseu Abramo.