Partido dos Trabalhadores

Fraude nas urnas e ataque ao Pix: desinformação que mina a confiança do cidadão

Os ataques atuais de Flávio Bolsonaro ao processo eleitoral do país revelam uma construção intencional para gerar raiva e frustração, mostra Eliara Santana

Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

“Recordar é viver. Essa máxima parece apropriadíssima quando o assunto é desinformação estratégica no Brasil e a criação de realidades paralelas. Vamos voltar um pouquinho ao passado recente para entender a dimensão dos ataques atuais do senador Flávio Bolsonaro e sua trupe ao processo eleitoral brasileiro, lançando sombras sobre as eleições de 2026.

Em 2024, a Polícia Federal divulgou seu relatório de investigação sobre a chamada “trama golpista” – que eu prefiro nomear de arquitetura golpista da extrema direita, porque tinha um objetivo muito claro e organizado de atacar violentamente o Estado Democrático de Direito. O relatório da PF aponta vários “núcleos” de atuação da ORCRIM, e vou me ater aqui ao que foi enunciado sobre o “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”:

Forma de atuação: produção, divulgação e amplificação de notícias falsas quanto à lisura das eleições presidenciais de 2022 com a finalidade de estimular seguidores a permanecerem na frente de quartéis e instalações das Forças Armadas, no intuito de criar o ambiente propício para o Golpe de Estado, conforme exposto no tópico “Das Medidas para Desacreditar o Processo Eleitoral” constante na presente representação.

De acordo com a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República sobre o tema, “o grupo registrou a ideia de estabelecer um discurso sobre urnas eletrônicas e votações e de replicar essa narrativa novamente e constantemente, a fim de deslegitimar possível resultado eleitoral que lhe fosse desfavorável e propiciar condições indutoras da deposição do governo eleito”.

A partir desses trechos citados, eu quero destacar três pontos de ação estratégica:

-o “estímulo permanente aos seguidores”;

-a “criação de um ambiente propício para o golpe”;

– e a “replicação da narrativa novamente e constantemente”.

Percebam que esse pontos consolidam construções discursivas que têm dimensão de ação e de condução intencional para instrumentalizar o delírio, a frustração, a raiva. Como todos nos recordamos, essa estratégia manteve milhares de pessoas, POR TODO O PAÍS, em frente a quartéis, mobilizadas por meses, em vigília, orando, cantando, se abraçando, com um claro propósito político.

Desde as eleições de 2018, a construção da desconfiança no processo eleitoral brasileiro, com as urnas eletrônicas, vem se intensificando – já naquele momento, Jair Bolsonaro, numa entrevista exclusiva ao vivo no Jornal Nacional, afirmou que, se ele não fosse o eleito naquele pleito era em virtude das fraudes na votação.

No final do seu governo, na eleição de 2022, o tema foi ressuscitado com muita força, impactando a idoneidade do processo eleitoral brasileiro e plantando o descrédito em relação ao Poder Judiciário, especialmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Findo aquele processo eleitoral e após processos, investigações e ações das instituições e do Governo Lula no combate à desinformação, aquele tema parecia superado.

Mas chegamos a 2026 e constatamos que a sensação de superação era ilusória, pois o assunto “fraude nas eleições” se manteve pairando no ar e ressurge agora com destaque. A abordagem, nesse momento, adquire ares de coisa séria num evento internacional, pela voz de autoridade de um senador brasileiro candidato à Presidência da República.

A escolha da cena enunciativa foi perfeita, sem retoques. No evento da extrema direita conservadora nos EUA, a CPAC, Flávio Bolsonaro (cujo sobrenome volta a ser resgatado pela imprensa) criticou o sistema das urnas eletrônicas no Brasil, pediu pelo monitoramento dos EUA nas eleições, pediu pressão diplomática sobre as instituições brasileiras e a observação da “liberdade de expressão” nas redes sociais. No evento, Flávio Bolsonaro afirmou que “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente”, ele vencerá as eleições. Estava lançada, ali, a semente do descrédito na lisura do processo eleitoral em 2026.

Como já discutimos em outros artigos, o problema do ecossistema de desinformação no Brasil não é somente o de espalhar boatos ou mentiras, as famosas fake news. O que assola o país é uma questão sistêmica de ressignificação da realidade, ou seja, a reconstrução falseada e mentirosa de determinados aspectos e cenários do mundo real que se tornam uma “realidade” aceita a partir das dinâmicas de elaboração, produção e disseminação de conteúdo intencionalmente falso e danoso.

O dado real é recriado com um viés propositalmente mentiroso que institui realidades paralelas. Trocando em miúdos, fica muito difícil arrancar o véu e dizer ‘isso é mentira’, porque elementos do mundo real, vivido, estão ali misturados com novos significados e sentidos que são falsos. O convencimento das pessoas é construído discursivamente por meio de várias estratégias, como a manipulação das emoções e a alimentação da desconfiança.

Mentiras para desestabilizar as instituições

 

O ataque à lisura das urnas eletrônicas simboliza um ataque ao processo eleitoral como um todo e às instituições que o conduzem. Na mesma linha estão as investidas contra o Pix a partir do recente Relatório Comercial dos EUA, numa ação potencializada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro e influenciadores brasileiros foragidos nos Estados Unidos.

O ataque ao Pix simboliza um ataque ao sistema financeiro brasileiro, e nenhuma dessas ações de descredibilização é mero acaso, pelo contrário, é puro método. Essas campanhas coordenadas de desinformação que usam temas sensíveis têm o objetivo claro de estimular a grande desconfiança dos eleitores, dos cidadãos, e promover a hostilidade em relação às instituições.

Esse conjunto de ações e discursos corrói a credibilidade das instituições e as enfraquece, o que impacta a sensação dos cidadãos de um funcionamento democrático-institucional com certa estabilidade. Sem essa percepção, está formado o cenário de caos, o que é perfeito para os aventureiros da extrema direita.

A desinformação sistematizada e organizada num ecossistema era e continua a ser uma estratégia fundamental de ação presente e de planejamento futuro da extrema direita. Os discursos desses atores não são idiotices – eles têm método e propósito, mesmo quando falam de coisas inofensivas como comer carne de paca. Por isso, acho importante não nos deixarmos levar pela arrogância ingênua de minimizar esses feitos. Especialmente em ano eleitoral.”

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).