Por Eliara Santana (*)
“Estamos vivendo, hoje, a realidade de um avanço sem precedentes das ações do ecossistema de desinformação no Brasil. O que vem sendo pavimentado desde 2018. A partir daquele ano, com a eleição de Jair Bolsonaro, o país foi sendo transformado num grande laboratório de desinformação para provocar o caos na sociedade, pulverizar as instituições e esgarçar o sistema político. O bolsonarismo se consolidou na onda da desinformação, e esse grupo apostava num projeto duradouro e vitorioso – o que era celebrado pela extrema direita mundo afora.
A eleição de Lula em 2022 e a intensificação das ações do Supremo Tribunal Federal contra a desinformação, sobretudo na figura do ministro Alexandre de Moraes, impuseram uma derrota a esse conjunto de forças. Mas foi somente uma derrota que impactou o avanço do projeto naquele momento, sem eliminar o ecossistema, que segue dando mostras de seu poder. Três exemplos recentes deixam isso às claras: o 8 de janeiro de 2023, a pandemia de desinformação durante a tragédia climática no Rio Grande do Sul e a explosão de narrativas mentirosas ligando o governo e a esquerda ao crime organizado à medida que se aproximavam as eleições municipais de 2024.
Por que falar, agora, em ataques coordenados? Porque não se trata, simplesmente, de “espalhar” mentiras – é algo profissional, elaborado, pensado e com propósito claro de provocar o caos e desestabilizar o funcionamento institucional e os sistemas de representação instituídos (ciência, universidades, sistema judiciário). A extrema direita usa sistematicamente as dinâmicas de desinformação com esse propósito, num poderoso ecossistema.
E por que o Brasil na mira, de novo? Porque era um laboratório dos mais promissores nos idos de 2018 – senão o mais promissor – para consolidar a desinformação como estratégia política da extrema direita no mundo. Com a eleição de Lula em 2022 e a derrota do bolsonarismo, o ecossistema de desinformação foi golpeado, mas não eliminado. O Brasil prosseguiu como país cobiçado pelas Big Techs e pela extrema direita – um território gigante com população ávida pelas redes sociais e onde a experiência do laboratório bolsonarista havia surtido efeito importante.
As articulações de bolsonaristas com atores estrangeiros, os contatos permanentes de grupos religiosos, as “visitas” de CEOs falantes e poderosos, nada disso é aleatório. O Brasil sempre esteve na mira e sob os olhares mais que atentos da extrema direita pois, ao mesmo tempo em que possibilitou o avanço dessas forças com o bolsonarismo – quando se transformou num grande laboratório de realidade paralela –, o país também mostrou resistência e mobilização contra esse projeto nefasto de poder.
E então, quando chega o ano eleitoral de 2026, chegam também as campanhas coordenadas de desinformação com alvos bem específicos, como o STF (especialmente Alexandre de Moraes, mais uma vez), o presidente Lula e o governo, numa intensificação muito expressiva de ataques e de desconstrução de reputações para gerar o caos e minar a confiança da população, criando todas as condições para o retorno da extrema direita ao poder.
Aqui neste espaço vamos discutir, duas vezes por semana, algumas dinâmicas desse ecossistema brasileiro de desinformação.
Campanhas coordenadas e permanentes
Elege-se um tema que está em circulação, faz-se uma remodelagem dos sentidos – ele é ressignificado e ganha novos (e falsos) contornos, mas a essência do tema está ali preservada; uma narrativa rápida, curta e de fácil assimilação é criada; uma estrutura de disseminação é acionada para “viralizar” aquele conteúdo. Está aí a receita de uma bem-sucedida campanha de desinformação.
Essas campanhas não são tópicas ou ocasionais, elas ocorrem de modo permanente, investindo em temas-chave mais complexos e utilizando estratégias bem diversificadas, como a divulgação passiva, um grande volume de conteúdo, o disparo multiplataforma. Com o envolvimento de diversos atores e uma produção sistematizada de conteúdo, a narrativa elaborada dialoga com os sensos comuns da sociedade, especialmente em momentos tensos ou de exacerbação política, como uma eleição, a partir do agenciamento dos medos, das dúvidas, do desconhecimento da população em relação a diversos temas. As fake news conquistam um grande terreno ao redesenharem e apresentarem questões complexas de modo simplificado.
Sendo coordenadas e permanentes, essas campanhas quebram a resistência das pessoas em relação a determinados temas e assuntos, sobretudo aqueles de difícil assimilação (como os que envolvem questões econômicas), minam a possibilidade de dissenso e formam uma opinião pública “deformada”.
Núcleo “norte-americano” de desinformação
Desde a eleição de 2022, ficou totalmente evidente a ligação dos filhos de Jair Bolsonaro – sobretudo Eduardo e Carlos – com o guru de Donald Trump, Steve Bannon, e suas técnicas de desinformação, que foram imprescindíveis para a organização do gabinete do ódio que funcionava no Planalto.
A partir do 8 de janeiro de 2023 e da descoberta da tentativa de golpe contra a democracia, as ações contra o ecossistema foram intensificadas, e alguns desses atores buscaram guarida nos EUA de Trump. Eles passaram, então, a articular campanhas contra o Brasil, na tentativa de convencimento do presidente norte-americano para aplicar medidas punitivas ao Brasil e na construção de narrativas mentirosas para mobilizar os brasileiros nessas campanhas. Dois exemplos: 1) O caso da taxação imposta aos produtos brasileiros, quando houve uma orquestração para convencer a população de que Lula e o governo brasileiro eram os culpados pelo tarifaço porque não queriam negociar com os EUA; 2) Agora, entra em cena a perspectiva fantasiosa do “narcoterrorismo” no Brasil, com possibilidade de classificação do PCC e do CV como grupos terroristas pelo governo Trump, o que está sendo celebrado por esse núcleo de disseminadores de fake news com narrativas de convencimento da população em relação à necessidade de intervenção dos EUA no Brasil.
O núcleo segue sendo acionado e atuante com Flávio Bolsonaro
Toda ação “política” da extrema direita está vinculada a campanhas prévias e permanentes de mobilização dos grupos pela desinformação. Não são ações tópicas, de momento, que “vão passar”. Vieram para ficar. Nessa discussão aqui colocada, não estamos falando de manipulação somente, o que já é gravíssimo, mas de dinâmicas que provocam uma erosão tal da confiança no sistema político e nas instituições e que implode não somente processos eleitorais, mas o próprio funcionamento democrático. E aí está aberto e livre o caminho para a extrema direita transitar com desenvoltura e voltar ao poder.”