Partido dos Trabalhadores

O Brasil que cresce deve ser também o Brasil que sente

Éden Valadares e Camila Moreno analisam, em artigo, como a militância pode ser ponte e voz, transformando políticas públicas em identidade e esperança organizada

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Éden Valadares, secretário nacional de Comunicação do PT e Camila Moreno, secretária adjunta

*Éden Valadares e Camila Moreno

Há uma encruzilhada histórica que se impõe ao nosso tempo e que já não cabe mais somente nas métricas tradicionais da economia nem nos balanços oficiais. O Brasil que se desenha em 2026 nos convoca a olhar para além dos indicadores e a compreender, com mais profundidade, o tecido social e os processos pelos quais a consciência política se forma no cotidiano do povo. A percepção difusa de que a vida melhora, ao mesmo tempo em que o debate público se torna mais áspero, polarizado e instável, não é episódica nem individual: é expressão de uma nova etapa na luta de ideias. Se você sente que o país avança, mas que o ambiente político se torna mais hostil e difícil de decifrar, saiba que essa experiência é compartilhada e tem raízes estruturais no tempo que vivemos.

O terreno movediço do chamado “voto de gratidão” cede lugar a um campo de convicções mais enraizadas, no qual a disputa de hegemonia se estabelece de forma contínua e estrutural. Já não basta entregar: é preciso conectar.

Nesta nova quadra histórica, a relação quase automática entre a concretude da obra e o reconhecimento imediato da população se enfraquece. Governo que apenas anuncia entregas corre o risco de falar sozinho. Uma parcela significativa dos brasileiros passou a compreender as conquistas sociais como direitos adquiridos, ou seja, políticas de Estado que pertencem à cidadania, e não ao governante de ocasião.

Os avanços conquistados a duras penas deixam de ser percebidos como concessões e passam a ser reivindicados como direitos inalienáveis, patrimônio coletivo que não se subordina a mandatos nem a partidos, mas se inscreve na própria essência do Estado Democrático. São, em última instância, conquistas do povo independentemente de quem esteja no governo

Ao mesmo tempo, ecoa um anseio legítimo por aceleração histórica, um desejo profundo de que a mobilidade social não seja apenas um respiro momentâneo, mas uma superação definitiva das amarras de uma desigualdade secular. Boa parte da população enxerga os programas sociais, mesmo os mais recentemente criados, como passos importantes mas ainda insuficientes diante de um abismo histórico de desigualdade. É um sentimento legítimo de quem tem pressa e quer que a ascensão social seja uma ruptura real com o passado, e não apenas uma melhora pontual. É a voz de quem tem pressa de viver um novo Brasil. Esse sentimento está ainda mais presente nas novas gerações que não experimentaram o período anterior ao governos do PT, em que não havia o atual cinturão de proteção social.

A essa conjuntura somam-se os desafios de uma lógica na qual a velocidade se sobrepõe à verdade e a “viralidade” passa a valer mais do que a veracidade. Compreender esse fenômeno exige um olhar atento ao que o sociólogo Manuel Castells define como “sociedade em rede”: um ambiente em que os fluxos informacionais reconfiguram a percepção da realidade, frequentemente em choque com a objetividade dos fatos. Nesse contexto, a verdade factual, seja um índice recorde de emprego ou o crescimento do PIB, já não se sustenta apenas por sua precisão técnica. Ela disputa, cotidianamente, com a sedução da superficialidade viral, com a lógica opaca dos algoritmos de engajamento e, sobretudo, com uma engrenagem sistemática de desinformação, potencializada pelo uso predatório da inteligência artificial a serviço da extrema-direita.

A consolidação desse verdadeiro condomínio de forças, que articula militância bolsonarista, vultosos investimentos financeiros e o abandono explícito da fantasia da neutralidade das plataformas digitais, busca se apresentar como “antissistema”, ao mesmo tempo em que atua para corroer os alicerces de confiança nas instituições republicanas, reativar permanentemente a agenda da corrupção (não por compromisso histórico com seu enfrentamento, inclusive cabe lembrar que foram justamente os governos do PT que fortaleceram mecanismos de controle e ampliaram a autonomia dos órgãos de fiscalização, mas com falsas denúncias sensacionalistas com ajuda de parte da grande mídia) e colocar em xeque a credibilidade do governo e de suas iniciativas. Nesse cenário, os circuitos por onde a informação circula até alcançar a palma da mão de cada brasileiro tornam-se progressivamente contaminados por um fluxo massivo de conteúdos que distorcem dados oficiais, deslegitimam políticas públicas e embaralham a própria percepção da realidade.

A extrema direita global opera hoje como uma verdadeira máquina de reorganização da percepção social, capaz de dissociar memória, experiência concreta e juízo político. Amparada por redes digitais, desinformação sistemática e estímulos permanentes de medo e ressentimento, ela não apenas disputa narrativas, mas reprograma a forma como a realidade é percebida e lembrada. É nesse terreno que o absurdo se normaliza e o inaceitável se torna banal: fatos recentes e traumáticos são relativizados, apagados ou reinterpretados como mera opinião. Não é trivial, nem pode ser naturalizado, que se tente esquecer que houve quem recomendasse Cloroquina durante a pandemia, que se ridicularizasse o sofrimento de pessoas sem ar ou que se banalizasse a imagem da fome expressa na fila do osso. Tampouco é aceitável que declarações de líderes da extrema direita como Donald Trump, ameaçando destruir completamente uma nação, sejam absorvidas como normais, ou que, no Brasil, Jair Bolsonaro tenha defendido taxas norte americanas em nossos produtos que prejudicam a economia nacional e os próprios empresários brasileiros, tensionando nossa soberania e subordinando o interesse do nosso país aos EUA. Essa distorção da memória coletiva não é um efeito colateral, mas parte central de uma estratégia política que busca corroer referências éticas, embaralhar responsabilidades e criar um ambiente em que tudo parece equivalente, abrindo espaço para a reabilitação do que deveria ser inaceitável. Defender a democracia, hoje, passa também por reconstruir a memória, reafirmar fatos e reancorar a política na realidade vivida pelo povo.

Diante do uso industrial da mentira e da manipulação digital, nossa resposta não pode ser outra senão a radicalidade da transparência a mostrar a concretude da vida transformada, colocar essa realidade em perspectiva rememorando e comparando com o tempo do governo de direita dos Bolsonaros e apontando um futuro, próximo e objetivo, de reformas estruturais. A agilidade que as redes exigem deve ser nossa aliada, o sentimento de mudança presente nas ruas também, desde que consigamos nos firmar como porta-vozes de um projeto que tem lado e compromisso histórico com a classe trabalhadora. A insatisfação justa que porventura ainda ecoe nos corações e mentes do povo brasileiro não será jamais desprezada por nós; ao contrário, ela deve ser o combustível que move nosso compromisso em aprofundar políticas que desmontem as estruturas que perpetuam a desigualdade.

Desta forma, a travessia de 2026 não pode ser reduzida à mera disputa pelo cargo de Presidente, mas sim compreendida como uma batalha essencial pela ressignificação do próprio sentido de comunidade e de esperança no amanhã. O Brasil está mudando para melhor nos números e indicadores, e nosso desafio – do PT, do Governo e da Campanha Lula – é garantir que essa mudança seja percebida, sentida e defendida por cada brasileiro e brasileira. A democracia que almejamos se constrói na entrega concreta de direitos, é verdade. Mas ela só se tornará perene na teimosia de um diálogo constante, que flua no cotidiano das ruas e das telas.

O desafio que se impõe a nós, portanto, não é apenas o de governar bem, mas o de reconstruir, no cotidiano, os vínculos entre projeto político e vida concreta. Em um tempo em que a verdade disputa espaço com a velocidade e em que direitos são naturalizados como dados, a política volta a ser, antes de tudo, uma tarefa de presença, escuta e organização.

Se a extrema-direita opera de forma permanente nas redes e na produção de sentidos, nossa resposta não pode ser episódica nem reativa. Ela precisa ser estruturada, capilarizada e enraizada na vida concreta do povo brasileiro. Isso exige uma estratégia que articule, de forma indissociável, mobilização de rua e presença digital, organização de base e disputa narrativa, formação política e comunicação popular não como frentes isoladas, mas como dimensões de um mesmo projeto de construção de hegemonia.

É nesse sentido que a nucleação partidária, a ampliação dos comitês populares e o fortalecimento de uma agenda contínua de formação política deixam de ser tarefas acessórias e assumem centralidade estratégica. São esses instrumentos que permitem transformar políticas públicas em consciência política, direitos em identidade coletiva e avanços concretos em horizonte compartilhado de futuro. Não se trata apenas de informar, mas de formar; não apenas de comunicar, mas de organizar.

Ao mesmo tempo, iniciativas como o Pode Espalhar, o Porta-Vozes do Lula e o PTech apontam caminhos decisivos para essa nova etapa: ampliar nossa capacidade de comunicação, qualificar a militância para a disputa nas redes e constituir uma rede viva, ativa e enraizada de porta-vozes comprometidos com o projeto democrático, popular e soberano liderado pelo Presidente Lula e pelo PT.

Traduzir o Brasil que cresce em um Brasil que sente é, portanto, uma tarefa política organizada e permanente. Significa fazer com que cada conquista ganhe sentido, cada transformação seja reconhecida e cada avanço se converta em pertencimento e esperança. Significa disputar não apenas a interpretação do presente, mas a imaginação do futuro.

A travessia de 2026 não será uma eleição qualquer. Será, mais uma vez, a eleição das nossas vidas, aquela em que não está em jogo apenas um mandato, mas o próprio sentido de país que queremos ser. Já demonstramos, na prática, a capacidade de governar para melhorar a vida do povo brasileiro. Sob a liderança do Presidente Lula, o Brasil voltou a crescer, a cuidar de quem mais precisa e a se reconectar com sua dignidade e sua soberania. Mas a história nos ensina: não basta fazer, é preciso fazer com o povo, fazer com sentido, fazer com pertencimento.

Lula não é apenas um líder. Lula é expressão viva de um projeto coletivo, de um Brasil que ousou sonhar e transformar esse sonho em realidade. E é por isso que, nesta travessia, cada um de nós é chamado a ser, também, um pouco de Lula: a ser ponte, a ser voz, a ser coragem, a ser esperança organizada.

A vitória não será apenas fruto de um bom governo, que já temos e estamos fazendo, mas da nossa capacidade de mobilizar, organizar e engajar o povo brasileiro na defesa de um futuro comum. Porque, no fim, não basta que o Brasil melhore: é preciso que o povo sinta essa mudança pulsar em sua vida, reconheça nela sua própria história e a defenda como conquista sua. É nas ruas, nas redes, nos territórios e nos corações que essa eleição será decidida. E é com o povo consciente, mobilizado e em movimento que escreveremos, juntos, mais uma vez, a história do Brasil.

(*) Secretário Nacional de Comunicação do PT

(*) Professora, Doutoranda em Educação e Secretária Nacional Adjunta de Comunicação do PT.