Partido dos Trabalhadores

O Retorno do “Xerife”: A invasão da Venezuela e o perigoso precedente contra a soberania latina

Rafael Tavares, membro do DN- PT, analisa neste artigo a violação da soberania do país vizinho como afronta à autodeterminação dos povos, e alerta para a retórica da “salvação da democracia” que alimentou os golpistas do 8/01

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Artigo: O Retorno do "Xerife": A invasão da Venezuela e o perigoso precedente contra a soberania latina

A recente escalada militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando na invasão de território soberano e no sequestro do presidente Nicolás Maduro, marca um dos capítulos mais sombrios da história diplomática do século XXI. Sob o pretexto de uma “missão de justiça”, Washington ressuscita os fantasmas do intervencionismo que assolaram o continente no século passado.

As acusações que sustentam essa agressão, envolvimento com o narcotráfico e a pecha de “regime antidemocrático”, são um roteiro bem ensaiado pela direita global. Essa estratégia de criminalização da política visa desestabilizar governos que não se curvam à agenda do Norte Global.
No Brasil, observamos essa mesma tática de “lawfare” sendo aplicada contra o presidente Lula. A tentativa de associar líderes populares ao crime organizado é a ferramenta predileta para justificar rupturas democráticas.

O Alerta do 8 de Janeiro: Essa retórica de “salvação da democracia” contra um suposto “mal maior” alimentou as invasões golpistas em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023. Ali, a tentativa de golpe interno usou os mesmos pilares discursivos que agora os EUA utilizam externamente. O que se faz hoje em Caracas é o laboratório do que setores reacionários desejam replicar e já tentaram no Brasil.

O véu do discurso humanitário cai por terra quando analisamos os recursos naturais. Recentemente, o governo dos EUA emitiu declarações explícitas sobre o controle do petróleo venezuelano, chegando a afirmar que as receitas das vendas serão mantidas em contas controladas por Washington. Ao “emparedar” a Venezuela com sanções comerciais e chantagens energéticas, os EUA revelam que seu interesse não é a “liberdade”, muito menos a “democracia”, mas sim a posse das maiores reservas de petróleo do mundo.

O projeto de dominação não para na Venezuela. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também entrou na mira da retórica agressiva de Washington. Ao rechaçar a invasão da Venezuela, Petro passou a sofrer ameaças diretas de intervenção e acusações de conluio com o tráfico, o mesmo modus operandi aplicado a Maduro. Isso prova que qualquer líder latino-americano que defenda a integração regional e a soberania nacional será rotulado como inimigo.

A ideia de que os EUA possuem o direito divino de atuar como “policiais do mundo” é uma afronta à autodeterminação dos povos. Ao invadir a Venezuela para sequestrar um chefe de Estado, cometem um ato de pirataria internacional que abre precedentes catastróficos:

* Violação da Soberania: Se um país decide quem é o governante legítimo de outro, o conceito de nação deixa de existir.
* Instabilidade Regional: A América Latina é transformada em um tabuleiro de guerra onde o poder militar substitui a diplomacia.
* Desprezo à ONU: A ação unilateral esvazia o papel das instituições que deveriam evitar conflitos globais.

Posicionar-se contra a invasão da Venezuela não é uma questão de alinhamento ideológico, mas de princípio democrático. Aceitar que o controle de recursos estratégicos e a política interna do continente sejam ditados pela força bruta é aceitar que a soberania brasileira também está em xeque. O mundo não precisa de xerifes, mas de respeito à independência política e econômica de cada nação.

Rafael Tavares é membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores e diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE)