(*) Por Eliara Santana
Pesquisa recente produzida e divulgada pela Nexus revelou um crescimento muito expressivo do eleitorado 60+. Enquanto o eleitorado geral cresceu 15% em 16 anos (de 2010 a 2026), o público 60+ aumentou 74%. Alguns dados do levantamento dão a dimensão desse cenário e o impacto no processo eleitoral:
-Peso decisivo nas eleições: a Geração 60+ já representa cerca de 1 em cada 4 votos no Brasil;
-Maior engajamento ao longo do tempo: a abstenção entre 60+ caiu nas últimas eleições, enquanto que, no total da população, aumentou;
-Participação varia por faixa etária: eleitores de 60 a 69 anos têm alta presença (85,7%), enquanto acima de 70 anos a participação cai por ser facultativa;
-Concentração regional desigual: Sul e Sudeste concentram maior peso de eleitores 60+, chegando a quase o dobro da proporção do Norte.
Envelhecimento impacta a política e o país: a população idosa cresceu de 7% para 16% em 30 anos, tornando esse grupo central nas estratégias eleitorais e nos desafios econômicos
Esses dados são muito significativos, sobretudo se considerarmos que a população idosa está muito suscetível às armadilhas da desinformação. Lá nos idos de 2019, uma pesquisa realizada por professores das universidades de Princeton e de Nova York e publicada na revista Science Advances revelou que as pessoas acima de 65 anos compartilhavam, em média, sete vezes mais notícias falsas que usuários mais jovens, com idades entre 18 e 29 anos.
No Brasil, o uso de internet pelas pessoas mais idosas teve um salto impressionante: de 6,5 milhões para 24,5 milhões em oito anos – de 2016 a 2024. Esse crescimento representa alta de 278%, ou seja, quase quadruplicou. Em 2016, 44,8% das pessoas com 60 anos ou mais utilizavam a internet. Em 2024, esse patamar chegou a 69,8% dos idosos. Esses dados integram um suplemento sobre tecnologia da informação e comunicação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgada pelo IBGE em 2025. Trocando em miúdos, quase 25 milhões de idosos estão conectados no Brasil e utilizam o celular como principal meio de acesso para comunicação e para se informar – o smartphone é o aparelho mais usado, com 78% dos idosos com celular para uso pessoal em 2024. A pesquisa também mostrou que 87,9% dos idosos conectados acessam a internet todos os dias, sendo que a maioria utiliza para navegar pelas redes sociais e assistir a vídeos.
Desinformação e o jogo com as vulnerabilidades dos cidadãos
Boatos econômicos exploram o medo e a insegurança social; notícias falsas sobre tratamentos milagrosos para doenças dialogam com a angústia humana diante do incontrolável. Falsidades sobre políticas públicas — como supostos cortes no Bolsa Família e a falsa taxação do Pix –, promessas de lucro, promessas de uma cura milagrosa, tudo isso revela como a arquitetura da desinformação se aproveita da vulnerabilidade humana, sobretudo das pessoas mais idosas, que não são nativas digitais, não dominam esse ambiente e por isso ficam sujeitas à exploração de golpistas de toda ordem. Há três aspectos nesse cenário que acho relevante olhar com mais atenção.
O primeiro diz respeito à covardia dos golpes financeiros e da falta natural de habilidade das pessoas mais idosas no trato com o mundo digital. Os golpes, muitos deles vultosos, são duplamente penosos: pelo prejuízo financeiro e pela vergonha que a vítima sente após ser enganada – e isso pode afetar a saúde física e mental.
Um segundo aspecto é uma realidade preocupante que está se consolidando no Brasil e tem despertado o interesse de especialistas dos campos da psicologia social e da comunicação: o vício em celular pelo público de idosos – cada vez mais solitários, eles se vinculam a esses aparelhos de modo a criar dependência, deixando-os totalmente suscetíveis a golpes e à desinformação.
Por fim, o excesso de informação (infodemia) e a pandemia de desinformação (desinfodemia) levam as pessoas em geral e os idosos em particular a não saberem mais em que ou em quem acreditar. E isso tem um custo altíssimo em momentos políticos de escolhas delicadas, por exemplo, e levam as pessoas a se tornarem peças suscetíveis à manipulação.
Um exemplo desse caldo fervilhante é um vídeo compartilhado em rede social, há alguns meses, sobre fake news e que teve grande repercussão. Ele foi feito por uma filha que criticava a mãe que estava em dúvida (e por isso perguntou à jovem) sobre uma “notícia” que havia recebido do grupo de WhatsApp do qual ela fazia parte. A notícia falsa alertava que o governo Lula pretendia pagar Bolsa Família a mães de bebê Reborn (aquele boneco que parece um bebê de verdade e que causou grande furor entre adultos desocupados). No vídeo, a moça ria muito e dizia “gente, olha no que minha mãe está acreditando, ela recebeu da igreja”; e também mostrava a mãe, uma senhora que estava claramente constrangida em sua dúvida e sem saber no que acreditar.
Esse vídeo me provocou um grande incômodo e me levou a algumas percepções. O incômodo foi em função da exposição da mãe, uma senhora visivelmente pouco instruída, de modo jocoso. Quanto às percepções, aproveito para compartilhar com vocês:
1 As fake news provocam grande confusão entre as pessoas, de modo geral, e isso se potencializa com o público mais idoso – não se trata de ser mais ou menos instruído.
2 As pessoas sofrem e se angustiam porque, não sendo nativas digitais, têm muitas dificuldades em lidar com aquele ambiente e entender aquela tecnologia. Um exemplo: meu tio idoso veio comentar comigo que estava muito perigoso viajar de avião, pois estavam ocorrendo muitos acidentes; eu fui argumentar dizendo que não tinha visto anda disso, e ele me mostrou pelo menos três grandes “acidentes”, todos eles produtos de inteligência artificial – até explicar que nariz de porquinho não é tomada…
3 A desinformação instrumentalizada causa confusão – as pessoas, legitimamente, não sabem mais em que acreditar e duvidam de tudo, inclusive de fontes fidedignas de referência, como universidades, institutos de pesquisa, professores, pesquisadores
4 A desinformação impacta a capacidade de o cidadão escolher de modo livre, sem constrangimentos e coação
5 Os idosos em particular acreditam nas fontes de referência próximas e afetivas: uma amiga de longa data, o pastor da igreja, o filho mais ligado ao mundo digital. Portanto, vão compartilhar qualquer informação que chegar a eles vindas dessas fontes, sem procurar averiguar a veracidade.
Os idosos são um público muito suscetível à desinformação por vários motivos. Eles estão também muito conectados na internet, usam bastante o celular e são o público eleitor que mais cresce no Brasil. Os políticos inescrupulosos e disseminadores profissionais de fake news já estão de olho nesses dados há bastante tempo.