Partido dos Trabalhadores

‘PT aos 46 anos: entre a história e o desafio de se manter fiel às suas origens’

Em artigo, deputada diz que debate sobre mercantilização da política evidencia a necessidade permanente de vigilância ética. Partido precisa se renovar, sem romper com sua história

Orlando Kissner-Alep

A deputada estadual Ana Júlia, líder do PT na Assembleia do Paraná.

(*) Por Ana Júlia Ribeiro

“Ao completar 46 anos de existência, o Partido dos Trabalhadores celebra mais do que a longevidade de uma organização política: celebra um projeto que nasceu das lutas populares e que ajudou a moldar a democracia brasileira contemporânea. Fundado nas periferias urbanas, nos sindicatos, no campo, nas universidades e nas comunidades de base, o PT surgiu como instrumento político dos trabalhadores e trabalhadoras que historicamente não tinham voz nas estruturas de poder.

Desde sua origem, a juventude esteve no coração desse processo. Foram estudantes, jovens operários, militantes culturais e lideranças emergentes que ajudaram a construir o partido, a organizar movimentos sociais e a impulsionar as lutas pela redemocratização do país. O movimento estudantil teve papel decisivo tanto na fundação quanto nas grandes mobilizações que marcaram a história do PT, da campanha pelas Diretas Já às lutas pela educação pública e pelos direitos sociais.

Ao longo de quase cinco décadas, o partido desempenhou papel decisivo na consolidação democrática e na ampliação de direitos sociais no Brasil. Sob governos petistas, milhões de brasileiros saíram da pobreza, o salário mínimo teve valorização real, a universidade pública se abriu para jovens de baixa renda e políticas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ProUni e Luz para Todos transformaram a vida cotidiana de milhões de famílias. O Estado voltou a olhar para os mais pobres, e o país ganhou protagonismo internacional.

Essas conquistas ajudaram a afirmar um projeto de desenvolvimento com inclusão social e soberania nacional, baseado na valorização do trabalho, da educação, da ciência e da integração latino-americana. O PT tornou-se, assim, uma das principais forças políticas da história recente do país, responsável por traduzir a indignação social em propostas concretas de governo.

Mas celebrar a trajetória exige também honestidade política. A grandeza de um partido popular e democrático reside na capacidade de autocrítica. O PT cometeu erros e precisa reconhecê-los para preservar sua coerência e credibilidade. O debate recente sobre práticas que contribuíram para a mercantilização da política evidencia a necessidade permanente de vigilância ética e política. Um partido que nasceu da defesa da participação popular não pode se acomodar a mecanismos que fragilizam o interesse público.

Em um cenário político marcado pela influência crescente do capital financeiro, pela banalização da violência e por discursos autoritários, torna-se ainda mais necessário reafirmar valores democráticos e republicanos. Defender a política como instrumento do bem comum e não como mercado de interesses é tarefa central para quem pretende manter a confiança popular.

Nesse contexto, o desafio do PT é também o de sua renovação. A juventude que ajudou a fundar o partido precisa agora dar lugar a novas gerações de lideranças. Renovar não significa romper com a história, mas atualizá-la. Significa abrir espaço para jovens militantes, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras que enfrentam os dilemas do presente: o mundo do trabalho em transformação, a crise climática, a revolução tecnológica, a saúde mental, a luta contra todas as formas de preconceito.

Sem renovação geracional, não há futuro político duradouro. O PT precisa voltar a ser, para a juventude, não apenas uma referência histórica, mas um instrumento vivo de participação, formação e transformação social. Isso exige democratizar ainda mais suas estruturas internas, estimular novas lideranças e dialogar com as pautas contemporâneas sem perder seus princípios fundadores.

A missão do partido é, portanto, tripla: defender o Brasil e a democracia diante de ameaças autoritárias; defender a si próprio de desvios que comprometam sua identidade; e preparar uma nova geração capaz de conduzir o projeto de desenvolvimento com justiça social nas próximas décadas.

Sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT enfrenta um novo ciclo histórico: reconstruir o país, aprofundar um projeto de inclusão e soberania e ampliar alianças democráticas. Para que esse projeto tenha continuidade, será fundamental garantir a participação ativa da juventude e assegurar uma transição geracional que preserve valores e renove práticas.

O PT não pertence a dirigentes ou mandatos. Pertence ao povo brasileiro que o construiu — e às novas gerações que precisam se reconhecer nele. Ao completar 46 anos, o partido tem diante de si o desafio de honrar sua história, corrigir seus erros e preparar o futuro. Um futuro que só será possível se permanecer fiel às lutas que lhe deram origem e à esperança de um Brasil mais justo, democrático e soberano.”

(*) Deputada estadual, líder do PT na Assembleia Legislativa do Paraná.