Inspirado no filme Matrix, o termo Red Pill foi apropriado por comunidades online como metáfora de um suposto “despertar” masculino. A palavra, hoje, assumiu outro significado e , aparece como um grande alerta: Red Pill é o nome dado a redes digitais que disseminam misoginia, o ódio, aversão e preconceito contra as mulheres, reforçando desigualdades de gênero. Em alguns casos, são porta de entrada para ideologias extremistas e discursos ultraconservadores.
No Brasil, a incorporação do discurso Red Pill acompanha a expansão do consumo de conteúdos digitais voltados ao público masculino jovem a partir da década de 2010. A popularização de fóruns anônimos, canais no YouTube e perfis em redes sociais que replicam narrativas importadas de comunidades estrangeiras, como as originadas nos Estados Unidos, marcam o início desse movimento no país.
Inicialmente diluído em conteúdos de “autoajuda masculina”, sedução e desenvolvimento pessoal, esse discurso passou a ganhar contornos ideológicos ao dialogar com pautas antifeministas, conservadoras e, progressivamente, com setores da extrema direita.
Especialistas consultados pela Rede PT de Comunicação apontam que a ausência de regulação eficaz das plataformas, aliada à lógica de engajamento dos algoritmos, favoreceu a recomendação em cadeia desses conteúdos sobretudo aos jovens. A ampliação dos seus alcances contribuiu para a formação de comunidades brasileiras que adaptam termos, símbolos e narrativas à realidade local, adicionando circunstâncias de desinformação política e propagando a violência de gênero pelas redes.
Um ecossistema de misoginia
O Redpill não é um grupo isolado, mas parte de um sistema maior conhecido como machosfera — um conjunto de comunidades digitais que compartilham visões antifeministas e reacionárias. Dentro desse universo, há subdivisões com diferentes níveis de radicalização, como os grupos Incel, MGTOW (Men Going Their Own Way) e vertentes mais extremas, como a chamada BlackPill.
Segundo a pesquisadora de desinformação e violência digital de gênero Julie Ricard, essas comunidades produzem e reproduzem um discurso estruturado. “Esses grupos compartilham uma visão de mundo muito específica, baseada na ideia de que os homens estão sendo prejudicados pela sociedade contemporânea, principalmente pelos avanços das mulheres. Eles constroem uma narrativa de perda de poder e de necessidade de retomada desse lugar.”
Entre as principais características do movimento Red Pill estão pensamentos relacionados ao racismo social, ao masculinismo, críticas ao feminismo, a autodepreciação de seus integrantes e a busca por relações de dominação perante as mulheres.
O cientista de dados e pesquisador especialista em fake news e soberania digital, Ergon Cugler, reforça que essa forma de pensar não se trata de algo espontâneo. “Os Red Pills não são só grupos esporádicos que surgem por aí. Eles são um um movimento organizado que prega a supremacia de homens sobre mulheres, que prega a divisão social de gênero nos mais diversos setores da sociedade”, afirma.
A porta de entrada
A adolescência e o início da vida adulta aparecem como alguns dos momentos-chave para a entrada nesses grupos. Isso porque o discurso Red Pill se apresenta como resposta para inseguranças comuns dessa fase. Bruna Camilo, socióloga e doutora em estudos de gênero, realizou pesquisas se infiltrando nesses espaços digitais, e conta à Rede PT de Comunicação como essas redes atraem esse público.
“O discurso Red Pill oferece justificativas para questões muito sedutoras para esses jovens. Uma explicação simples de que o mundo, de fato, é complexo e o problema são as mulheres. Um pertencimento imediato. Cria-se uma sensação de pertencimento, comunidade, linguagem própria. Existe uma identificação, ‘encontrei um grupo que consegue responder a todas as minhas angústias’. Fora uma promessa de controle, técnicas, estratégias, jogos de como controlar esse meio, como que aquele garoto vai de fato ser dominante”, ressalta Bruna.
Ergon Cugler, por sua vez, aponta que não são apenas os jovens que se interessam em entrar nessas comunidades. “Pessoas mais velhas e idosos também não estão imunes, né? Todas as pessoas recebem, em alguma dose cotidiana, críticas às mulheres, críticas ao feminismo, críticas ao movimento LGBT e muito mais. Então, a gente vê no cotidiano microdoses de discriminações que no fim do dia são naturalizadas e se tornam, portanto, potenciais indivíduos a serem capturados, não só pelo movimento RedPill, mas por toda a machosfera.”
Empobrecimento da vida afetiva
As consequências de entrada nesses fóruns são profundas, tanto no plano individual quanto social. “Existe um empobrecimento na vida afetiva. As relações passam a ser vistas como jogo de poder e de dominação. Não existe mais a questão da vida afetiva, das relações sendo construídas com as suas profundidades, sabe? Isso gera uma frustração pessoal”, aponta Bruna Camilo.
A socióloga descreve que essa frustração é um dos catalisadores do início dos discursos de ódio às mulheres. “Ela [a frustração] não é elaborada, nem pensada, mas sempre justificada como um problema originado das mulheres. Algo sempre projetado. A partir daí, começa a desumanização delas, normalizando a misoginia.”.
Segundo Julie Ricard, o problema é ainda maior, uma vez que a normalização de discursos violentos nessas comunidades chega a outros grupos sociais. “O que está ocorrendo nesses grupos é normalização da apologia à violência a tudo. São discursos muito explícitos, muito extremos. Tem algumas mensagens que às vezes eu paro, leio e, tenho que parar para levantar, dar uma volta, porque me dá vontade de chorar. Daí que percebemos o nível de ódio que está sendo descaradamente escrito nesses grupos públicos.”
Os fóruns de em que os discursos de ódio são compartilhados e incentivados deixam de ser apenas espaços de troca virtual e passam a funcionar como ambientes de validação e escalada da violência simbólica, criando um terreno fértil para que essas ideias ultrapassem a tela.
A violência que sai das telas e vai para as ruas
Nesse contexto, o avanço e a naturalização da misoginia digital não podem ser dissociados da escalada concreta da violência de gênero no país. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Casos recentes que ganharam repercussão nacional e aparentam ter similaridades ou raízes a estes ambientes virtuais. Alguns exemplos são a prisão do influenciador conhecido como “calvo do Campari” – coach que propagava ideologias do movimento na internet e que agrediu fisicamente a sua namorada – e o estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro – em que um dos acusados se entregou à polícia usando uma camiseta com a frase “Regret Nothing” (não se arrependa de nada), disseminada por Andrew Tate, um coach estadounidense que se autointitula “ultra-masculino”
Conexões com a extrema direita e conservadorismo
Para os especialistas, o Red Pill não pode ser analisado isoladamente do cenário político. Segundo Bruna Camilo, há uma ligação estrutural que une os pensamentos propagados nessas comunidades com discursos extremistas, da extrema direita e até mesmo o neonazismo.
“O RedPill compartilha com ideologias extremistas. Alguns elementos centrais, como uma visão hierárquica e biologizante da sociedade, também estão presentes no neonazismo. Uma construção de inimigos, mulheres, feministas, minorias, pessoas negras, enfim, isso também tem no nazismo”, afirma a pesquisadora
Para Ergon Cugler, o uso político dessas comunidades também se destaca, classificando-as como “portas de entrada” para outros grupos discriminatórios que se alinham a tais pensamentos políticos.
“Existem pessoas que caem num grupo de ataque contra as mulheres ou num grupo de crítica à agenda woke [defesa de pautas progressistas] e, de repente, entre um conteúdo e outro, pode receber um convite para entrar numa comunidade nazista. Às vezes, essa pessoa pode entrar desavisada, vendo, por exemplo, um ambiente de estudos, e quando você ia ver, só tinha literatura nível Mein Kampf (livro de Adolf Hitler), livros explicitamente escritos por militares e autoridades da Alemanha nazista. Então, sim, é possível afirmar que existe algum grau de conexão”, ressalta o pesquisador.
Trazendo o recorte para comunidades brasileiras, Cugler comenta que a presença de discursos de políticos, principalmente de extrema direita, são presentes nesses fóruns, evidenciando a relação de alinhamento entre esses grupos. “É importante citar que esses atores políticos também legitimam esses discursos [misóginos] na medida em que reproduzem falas e fazem menções explícitas, por exemplo, ao questionamento da própria Lei Maria da Penha e tantas outras coisas”.
O papel das redes sociais
A questão dos algoritmos e da maneira de consumo de conteúdo online, pode muitas vezes favorecer a proliferação de tais ideais. “A estrutura dos algoritmos das plataformas hoje em dia é construída em cima de uma visão bastante heteronormativa patriarcal da sociedade. O que o algoritmo premia muitas vezes revela não só um padrão, mas também reforça certas ideias do que é ser homem e do que é ser mulher”, explica Julie Ricard.
“Acho que a gente precisa encarar o problema das redes como sendo central. Não dizendo que as redes criaram a misoginia, porque elas não criaram, a gente sabe que não. Essa estrutura existe desde os primórdios da sociedade. Porém, elas ganham dinheiro com isso. E elas estão reforçando uma visão de mundo cada vez mais tradicionalista porque isso também dá dinheiro”, complementa a pesquisadora.
Um desafio contemporâneo
Para os especialistas, compreender o movimento RedPill é fundamental para enfrentá-lo. Mais do que combater indivíduos, trata-se de entender as estruturas que permitem o crescimento dessas comunidades – como os algoritmos, as crises sociais e as lacunas na educação emocional.
O avanço do masculinismo tem sido retratado na cultura audiovisual para trazer ao grande público as raízes e o que essa forma de pensar pode gerar. Produções da Netflix, como o documentário Por Dentro da Machosfera e a minissérie Adolescência, exploram justamente o processo de amadurecimento de pensamentos redpill nos homens e as suas consequências. Essas obras ajudam a traduzir este fenômeno complexo e atual.
No Brasil, já existem legislações direcionadas a repressão de discriminação no meio digital, e ainda mais projetos de lei são pensados e protocolados por parlamentares. Ergon Cugler afirma que grandes empresas de tecnologia – as big techs – também precisam ser responsabilizadas,. “Não basta ter regras e, quando chega a hora de punir a má atuação das big techs para combater esses crimes, a gente simplesmente não faz nada. Boa parte da demanda que a sociedade civil e a academia têm feito agora é que cumpra-se a lei.”
Como resume o pesquisador, o fenômeno RedPill é algo que atravessa todas as camadas do meio digital, sendo um alerta iminente de uma sociedade que segue com padrões patriarcais de vida. “Não é só sobre internet. É sobre como os homens lidam com frustração, com masculinidade e com desigualdade. Se a gente não enfrentar isso, esses movimentos continuarão crescendo.”
Rede PT de Comunicação.