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A armadilha de uma vida cada vez mais instagramável

Por Eliara Santana (*)

Trinta estados norte-americanos moveram ação contra a Meta – big tech dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp – afirmando que ela prejudica a saúde mental de crianças e adolescentes. A empresa é acusada de ter desenvolvido deliberadamente plataformas viciantes para o público jovem e de ter violado leis de proteção à infância. Na terça-feira, 18/08, o julgamento teve início, no tribunal federal em Oakland, na Califórnia, sob a responsabilidade da juíza Yvonne Gonzalez Rogers, que já presidiu outros processos envolvendo grandes empresas de tecnologia. Os estados norte-americanos que movem o processo afirmam que a Meta projetou o Facebook e o Instagram para provocarem vício a partir de recursos como reprodução automática de vídeos e os stories. E eles não reclamam apenas de indenização financeira: querem mudanças efetivas no funcionamento dessas plataformas.

De acordo com reportagem da BBC sobre o assunto, a acusação aponta que “diversos recursos das plataformas foram desenvolvidos para manter crianças e adolescentes conectados com a maior frequência e pelo maior tempo possível”. Ainda segundo a reportagem, entre as mudanças que foram exigidas pelos estados proponentes da ação, então: implementação da verificação dos pais ou responsáveis para usuários adolescentes; alteração dos algoritmos de recomendação, “capazes de estimular a liberação de dopamina”; retirada de diversos filtros de imagem que modificam a aparência das pessoas nas fotos; e fim da reprodução automática de vídeos.

Ainda bem antes desse julgamento, graves problemas envolvendo a empresa foram apontados. Em outubro de 2021, a cientista de dados e ex-funcionária do Facebook, Frances Haugen, denunciou a Meta e liberou para a imprensa documentos internos da empresa, no episódio que ficou conhecido como Facebook Papers. Entre outras acusações, Haugen disse que a big tech escolheu deliberadamente não tornar as redes mais seguras, apesar de saber como fazê-lo, para não atrapalhar a lucratividade (com a possível redução do engajamento). Ela também afirmou que Instagram e Facebook prejudicam a saúde mental de crianças e adolescentes e que os sistemas de moderação têm grande deficiência no reconhecimento de idiomas como português, o que deixa países como o Brasil vulneráveis à desinformação. Além disso, os documentos vazados para o Wall Street Journal revelaram uma pesquisa interna do próprio Facebook que mostrou que o Instagram estava impactando a saúde mental dos adolescentes – mas isso não foi levado em conta pela empresa.

A vida ‘instagramável’

Voltando ao julgamento que está acontecendo neste ano de 2026, caso a Meta seja condenada, além das multas bilionárias, está em jogo, por exemplo, o fim da contagem de likes em publicações e da rolagem infinita, aqueles recursos que passam despercebidos e que nos prendem aos aparelhos. Aparentemente inofensivos, banais e controláveis, esses recursos e todo o aparato arquitetônico das plataformas, bem como sua proposta de “interação” e uso, podem provocar vício, ansiedade, culto à personalidade, depressão – o que já foi denunciado por Haugen e vem sendo apontado por muitos pesquisadores.

Portanto, a discussão que esse julgamento coloca está muito longe de ser apenas “técnica” ou de mera abordagem sobre ferramentas que precisam ser controladas. E menos ainda de “censura”, como a extrema direita gosta de disseminar. O problema é muito maior e mais desafiador porque está colocando em sério risco a saúde mental de crianças e adolescentes – e das pessoas de modo geral. Para entender um pouco mais esse alcance pernicioso, vamos olhar para um tópico muito comum nessa arquitetura e que faz parte da vida social: a “avaliação”. Todos os grupos sociais, desde os primórdios, têm suas normas, seus critérios, suas condutas para avaliarem os pares ou aqueles com os quais interagimos, e isso estabelece parâmetros para os indivíduos e categorias dos sujeitos nos mais variados ambientes – escolas, universidades, igreja, família etc. Nesses cenários, o jogo de aprovação/desaprovação já estava socialmente colocado, desde sempre, assim como a exaltação ou o culto à performance. No entanto, tudo isso – que já podia adquirir uma conotação bem negativa para alguns indivíduos – ganha uma outra dimensão quando cria novas demandas e exigências no mundo digital. Vamos, então, pensar essa dinâmica de aprovação/desaprovação amplificada desmesuradamente pelas redes sociais, com os famosos likes, o bullying virtual, a intimidação e a demanda opressiva por performances e padrões de beleza cada vez mais irreais. O potencial destrutivo é imensurável.

No livro “Quase um tique” (2021), a professora e pesquisadora Anna Bentes salienta, sobre essas dinâmicas: “No Instagram e em outras redes sociais, a avaliação é um elemento constitutivo do próprio funcionamento de suas interfaces. Por meio de mecanismos de contabilização de curtidas, seguidores, visualizações e comentários, as redes sociais permitem um sistema comparativo ininterrupto através dos números. Constituindo um sistema fino de avaliação, os parâmetros quantitativos das interações sociais do Instagram estão atrelados aos graus de visibilidade de cada um: quanto mais elevados os números de seguidores, curtidas e comentários, mais visível é aquele usuário”. 

Ela também ressalta: “Embora esse suporte técnico possa rapidamente tornar-se obsoleto, há algo sobre o Instagram que não cessará de se complexificar no decorrer do século XXI: nossa relação entre as práticas de ver e sermos vistos e as tecnologias digitais, que produzem e fazem circular uma quantidade incomensurável de imagens e informações”. Por fim, completa Bentes: “Diante de tudo isso, o Instagram não é somente um espaço privilegiado para atender as demandas por visibilidade das subjetividades alterdirigidas, para as condições híbridas entre vigilância e espetáculo e para as operações da economia da atenção, mas, ao se integrar nos hábitos cotidianos dos indivíduos, reforça ainda mais esses processos em curso, bem como bifurca suas trajetórias, multiplica seus atores e varia suas ferramentas”. 

Não há mais dúvidas de que a vida se tornou “instagramável”, e irreal, porque o ávido desejo de ver e ser visto não está vinculado à realidade tangível: o mundo digital nos leva, sobretudo os adolescentes, a querer mostrar uma representação individual desejosa e manipulada, falsa. E essa dinâmica fere mortalmente a saúde mental dos indivíduos reais. 

Saúde mental em risco

De acordo com o relatório #Status of Mind: social media and young people’s mental health and wellbeing, da Royal Society for Public Health, que foi publicado em 2018, o Instagram foi indicado como o primeiro colocado entre as redes sociais que mais negativamente afetariam a saúde e o bem-estar dos usuários jovens. De acordo com o relatório, 91% dos jovens de 16 a 24 anos usaram a internet para redes sociais, que são descritas no próprio relatório e em vários outros estudos que contemplam os impactos cognitivos dessas redes como sendo mais viciantes do que cigarros e álcool em função do estímulo constante de dopamina que é gerado pelos likes e pela rolagem contínua.

O relatório #Status of Mind também apresentou, como efeitos negativos das redes sociais para a saúde mental dos jovens:

Ansiedade e depressão

Os jovens que utilizam intensamente as redes sociais têm maior probabilidade de relatar problemas de saúde mental, incluindo sofrimento psicológico (sintomas de ansiedade e depressão).

Sono ruim

Numerosos estudos demonstraram que o aumento do uso das redes sociais tem uma associação significativa com a má qualidade do sono nos jovens, o que pode ter um efeito prejudicial na saúde mental e vice-versa.

Cyberbullying

A interação online apresenta oportunidades para os agressores continuarem a cometer abusos, mesmo quando não estão fisicamente perto de um indivíduo. O aumento da popularidade de aplicativos de mensagens instantâneas, como Snapchat e WhatsApp, também pode funcionar como veículo rápido para a circulação de mensagens de bullying e divulgação de imagens.

Problemas com a imagem do corpo

Há uma demanda virtual para que os jovens adequem a imagem do seu corpo àquela que é exibida nas redes. De acordo com o relatório, nas últimas décadas, houve um aumento na conscientização sobre o impacto das imagens na mídia tradicional sobre mulheres e meninas, mas muito pouca pesquisa e atenção foram direcionadas ao impacto que as mídias sociais estão tendo sobre nossos jovens em relação à imagem corporal.

Medo de perder algo (Fear of Missing Out – FOMO)

Os jovens vivenciam um fluxo praticamente interminável de experiências de outras pessoas que podem potencialmente alimentar sentimentos de que estão perdendo algo na vida – enquanto outros desfrutam das suas.

* O FOMO causa angústia na forma de ansiedade e sentimentos de inadequação, e os adolescentes sentem a urgência de estarem sempre conectados, para verem o que outros estão fazendo, e têm pavor de perder algo e ficar de fora das atividades propagandeadas. 

Para além da questão do julgamento da Meta em si, a discussão colocada neste momento é uma oportunidade ímpar para que possamos fazer frente a essa vida “instagramável”, que está solapando a saúde mental dos indivíduos, provocando angústia, depressão e estresse e levando ao fortalecimento pernicioso de uma vida paralela cada vez mais irreal.   

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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