Quando 543 delegados de 25 estados se reuniram entre os dias 16 e 18 de junho de 1989, no Colégio Caetano de Campos, em São Paulo, o Partido dos Trabalhadores viveu um dos momentos mais importantes de sua história. Durante o 6º Encontro Nacional, o PT oficializou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, formalizando a participação do partido na primeira eleição direta para presidente desde 1960, após mais de duas décadas de ditadura militar.
A convenção foi muito mais do que a homologação de um candidato. Além de confirmar Lula como representante do partido na disputa presidencial, o encontro aprovou as resoluções “As eleições presidenciais e a candidatura Lula”, as Diretrizes para a elaboração do Programa de Governo e as bases do Plano de Ação de Governo (PAG), documento que reunia as principais propostas da futura campanha da Frente Brasil Popular.
O encontro também aprovou uma ampla análise da conjuntura nacional. Para o PT, as eleições presidenciais poderiam representar o encerramento definitivo da transição conservadora iniciada após a ditadura e abrir caminho para profundas transformações econômicas, sociais e políticas conduzidas pelos trabalhadores.
“As eleições presidenciais de 1989 podem representar o fim da transição conservadora, que se arrasta no Brasil desde meados dos anos 70”, registrava a resolução aprovada pelos delegados. O documento defendia que a conquista do governo federal poderia iniciar um novo ciclo de mudanças no país.
Uma candidatura construída ao longo de dois anos
Embora a oficialização tenha acontecido em junho de 1989, a candidatura de Lula começou a ser construída muito antes.
O ponto de partida ocorreu no 5º Encontro Nacional do PT, realizado em Brasília, em dezembro de 1987. Naquele momento, de acordo com documentos da Fundação Perseu Abramo, o partido lançou o nome de Lula para disputar a Presidência da República, definiu sua estratégia política para as eleições de 1989, aprovou o Programa Democrático-Popular e estabeleceu as bases da política de alianças que orientaria a campanha.
Na carta aprovada naquele encontro, o PT apresentava Lula ao país como o primeiro trabalhador com chances reais de disputar a Presidência da República pelo voto popular. “Pela primeira vez um trabalhador disputará a Presidência da República. Um trabalhador que representa a luta de milhões de oprimidos na cidade e no campo”, destacava o documento.
Em seu discurso no fim do 5º Encontro Nacional, Lula deixou claro que não encarava a candidatura como um gesto simbólico. “Não aceitei essa candidatura na perspectiva de disputar por disputar. (…) O PT vai ter de sair nessa campanha na perspectiva concreta de que podemos ganhar a Presidência da República”, disse, como registrou a edição número 33 do Boletim Nacional do Partido dos Trabalhadores, publicado em janeiro de 1988.
Durante os dois anos seguintes, o partido promoveu debates em todo o país, organizou grupos de trabalho, discutiu propostas de governo e estruturou uma campanha nacional que chegaria pronta à convenção de 1989.
A primeira eleição direta após a ditadura
A formalização da candidatura acontecia em um momento histórico para a democracia brasileira.
As eleições de 1989 foram as primeiras em que brasileiros e brasileiras voltaram às urnas para escolher diretamente o presidente da República desde 1960, conquista resultado da redemocratização e da mobilização popular pelas Diretas Já. Após o fim do regime militar, em 1985, o país vivia um período de reorganização política, enquanto buscava consolidar suas instituições democráticas.
Na avaliação aprovada pelo 6º Encontro Nacional, o PT afirmava que o cenário havia mudado profundamente depois das eleições municipais de 1988, quando o partido conquistou importantes prefeituras e se consolidou como principal força de oposição ao governo José Sarney.
Segundo o documento, pela primeira vez existiam condições para uma disputa nacional polarizada entre projetos de esquerda e de direita, abrindo uma oportunidade inédita para que um representante da classe trabalhadora chegasse ao Palácio do Planalto.
Programa de governo e Frente Brasil Popular
A convenção também marcou a consolidação do programa que seria apresentado aos brasileiros durante a campanha.
Aprovado juntamente com a formalização da candidatura, o Plano de Ação de Governo da Frente Brasil Popular — formada por PT, PCdoB, PSB e PV — sintetizava propostas para democratizar o Estado, distribuir renda, fortalecer os serviços públicos, promover a reforma agrária, defender a soberania nacional, ampliar direitos trabalhistas, democratizar os meios de comunicação e proteger a Amazônia.
Ao apresentar Lula como candidato, a Frente afirmava assumir “o compromisso histórico de lutar pela construção de uma nova sociedade”, baseada na democracia, na justiça social, na soberania nacional e na participação popular.
O início de uma trajetória presidencial
Depois da convenção, a campanha ganhou as ruas sob o slogan “Sem Medo de Ser Feliz”. Com milhares de quilômetros percorridos pelo país e uma ampla mobilização da militância, Lula chegou ao segundo turno contra Fernando Collor de Mello, tornando-se o primeiro candidato de origem operária a disputar a Presidência da República em uma eleição direta após a redemocratização. Entretanto, não foi suficiente. Collor venceu a disputa com 53% dos votos válidos contra 47% de Lula.
Embora a vitória eleitoral só viesse anos depois, a convenção de junho de 1989 marcou o início de uma trajetória que transformaria a política brasileira.

