Por Eliara Santana (*)
Maria Eduarda tinha 21 anos. Morreu silenciosa e brutalmente ao fazer rope jumping (uma modalidade esportiva em que a pessoa é jogada de grandes alturas, segurada por cordas), quando quem deveria zelar por sua segurança simplesmente se esqueceu de amarrar a corda a ela. Os vídeos que circularam pela internet são dramáticos, mostrando o momento do lançamento de Maria Eduarda e o desespero das pessoas quando viram que ela estava sem a corda.
A partir daquele trágico instante, o que deveria ser somente motivo de perplexidade, indignação e tristeza se transformou, nas redes sociais, num espetáculo grotesco de lacração. Homens fizeram “piadas” com o corpo da jovem, celebraram “festa no IML”, outras pessoas fizeram circular memes com imagens do presidente Lula, na mesma posição da moça, sem corda, sendo arremessado ao abismo, outros fizeram comentários jocosos, rindo da “burrice” do ocorrido.
O caso de Maria Eduarda nos colocou diante do abismo sem fim da estupidez e da falta de limites de um ambiente digital que se torna cada vez mais tóxico e que nos obriga a refletir.
E é com esse objetivo que recorro à filósofa alemã Hannah Arendt. Nas várias discussões sobre o pensar e a banalidade do mal, ela chama atenção para o perigo de uma “técnica hipertrofiada”, ou seja, uma técnica excessiva e super desenvolvida. Segundo Arendt, nesse processo, ao supervalorizar o fazer mecânico, a sociedade passa a priorizar o “como fazer” em detrimento de um pensar crítico sobre o significado do que está sendo feito.
Essa ausência de reflexão sobre o que fazemos, sobre os nossos atos e as consequências deles, que está na base do conceito de banalidade do mal. Naquele momento, quando o mundo estava em choque pelas atrocidades cometidas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, Hannah Arendt foi convidada para assistir ao julgamento do nazista Adolf Eichmann, quando então escreveu sobre o mal banal que toma os indivíduos comuns que não refletem sobre suas ações – os atos tenebrosos de Eichmann não eram um conjunto demoníaco, mas eram um mal que integrava a rotina comum de oficiais nazistas.
Um conceito fundamental de Arendt nos ajuda a tentar compreender essa toxicidade dos dias atuais alimentada pelo ambiente digital sem controle. À luz desse conceito e à sombra do caso da jovem Maria Eduarda, podíamos pensar no “homem lacrador” do mundo contemporâneo. Esse que posta sem pensar e sobre todos os assuntos, até os mais pungentes, que desconsidera o outro como sujeito de direitos e de emoções, que não reflete sobre seus atos encobertos pelo mundo digital. Seria essa, talvez, uma atualização contemporânea da banalidade do mal? Com o movimento crescente de uma normalização de ações e reações que deveriam ser inaceitáveis? Possivelmente estejamos diante desse cenário.
Hoje, a indiferença é amplamente facultada por esse mundo técnico e tecnológico sem precedentes e hipertrofiado, onde uma linda moça de 21 anos que morre vítima de uma tragédia brutal é somente mais um motivo de lacração, piadas infames e memes.
Há uma banalização do absurdo, e não há mais tempo para pensar sobre o que se faz e, fundamentalmente, sobre as consequências daquilo que se faz. Num nanossegundo, eu preciso lacrar e dar a minha opinião sobre qualquer coisa. Senão, “perco” seguidores. Há, portanto, um vazio do sentir, uma ausência completa do pensamento crítico. Para Arendt, a maior ameaça à humanidade não é a maldade extrema, mas a incapacidade de pensar, a incapacidade do pensamento crítico.
E o caso de Maria Eduarda é um doloroso exemplo desses tempos em que vemos se consolidar, pelas redes sociais, um exercício do não pensar. Quando alguém, após essa tragédia, posta “a terra vai comer primeiro, que desperdício” ou “será que vai ter festa no IML” e recebe inúmeros “kkkkkk” como resposta, o sentido do outro como um sujeito também pleno já se perdeu.
Como ponderou Arendt, Adolf Eichmann não era somente um monstro sádico, mas também alguém que abdicou de pensar e questionar, limitando-se a cumprir imperativos, ordens no nazismo de Hitler. Hoje, se cumpremdeterminações dos algoritmos e das plataformas que aplaudem os conteúdos que viralizam, quaisquer que sejam.
Maria Eduarda era uma moça jovem, linda, cheia de sonhos e deixou uma família dilacerada. Qualquer outro tipo de abordagem que não tenha esse aspecto é uma perversidade.
Como ressalta Eugênio Bucci em “A razão desumana” (2025), “o espírito verdadeiramente pensante não se presta à mesquinharia ou à perversidade, mas ao seu contrário. Afinal, o espírito é a potência que pensa, e onde há pensamento a se distanciar do instituto, a perversidade não tem lugar”. E onde não há mais pensamento crítico, a perversidade se instala.
As redes sociais podem conduzir a um processo de desumanização na medida em que transformam sujeitos em produtos, métricas, memes, avatares e com isso facilitam a proliferação do discurso de ódio, a perda de empatia com a dor do outro, o desrespeito, a misoginia. Tudo se resume a curtidas, seguidores, visualizações, ou seja, lacração.
Nesse sentido, é urgente e necessário que as plataformas sejam também responsabilizadas, pois há impulsionamento de conteúdos que desumanizam e esgarçam o tecido social.
Além disso, como observam pesquisadores que investigam a economia desse ambiente digital, ela recompensa exatamente tudo aquilo que provoca choque, raiva, ódio, indignação – ou seja, a lacração, não importa em torno de qual assunto, rende dinheiro.
Portanto, é necessário que empunhemos a bandeira da regulação das redes sociais, tal qual foi feito com o debate em relação ao fim da escala 6 x 1, explicando às pessoas que regulação não é censura, como quer fazer crer a extrema direita.
As plataformas lucram com a desgraça humana, lucram com o ódio disseminado, lucram com o desejo humano, lucram com memes sobre uma menina tragicamente morta. A legislação deve responsabilizar essas empresas, e isso, repito, não é censura.
No ambiente digital sem controle e sem empatia, as pessoas querem lacrar – a ordem, aqui, é imposta pelos algoritmos e pela necessidade de ter visibilidade. A velocidade e a desumanização das redes sociais, dessa tecnologia do instante, da lacração, do anonimato, estão impulsionando a humanidade a abdicar do pensamento crítico. E isso, como alertava Hannah Arendt no século passado, é muito perigoso.

