As bets (ou apostas online, esportivas ou não) tomaram conta do Brasil, vendendo a ilusão de enriquecimento e mudança de vida. No capitalismo predatório, a vida não é fácil mesmo, e a gente mata um leão por dia pra sobreviver. Portanto, qualquer falsa promessa de enriquecimento rápido vai convencer.
Na era da desinformação, as bets capturaram o anseio de mudança de vida e se consolidaram espalhando ilusão, que é disseminada por influenciadoras e influenciadores pagos a preço de ouro. E nenhum deles aposta no tigrinho, podem ter certeza.
Mas o problema não se instalou aqui da noite para o dia. Recuperando brevemente a história das bets no Brasil: elas foram liberadas em 2018, no governo Michel Temer; segundo a Lei 13.756/2018. Era necessário criar diretrizes para o funcionamento e a fiscalização do mercado de bets em até dois anos a partir da sanção, ou seja, isso deveria ter sido feito até o ano de 2020, governo Jair Bolsonaro. Mas nada foi feito e as bets seguiram sem qualquer regulamentação.
O mercado de apostas online tomou conta do Brasil. Repetindo, para não haver dúvidas: a falta de regulação durante o governo Jair Bolsonaro fez o mercado de bets explodir no Brasil – não havia regras claras de funcionamento, cumprimento de exigências e tributação, o que provocou uma renúncia fiscal de cerca de R$ 40 bilhões.
O problema explodiu no colo do governo Lula, que, desde que assumiu em 2023, tem atuado para buscar uma regulação rigorosa das bets, fiscalizar o funcionamento e os impactos para os apostadores e impor uma tributação rigorosa. Mas essas ações têm enfrentado muita resistência e contra-ataques do setor.
As bets são feitas para viciar
Segundo o psicólogo Altay de Souza, doutor em psicologia experimental pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador, em entrevista à repórter Laura Scofield, da Agência Pública, em julho de 2025, tudo nesses jogos é projetado com esse fim, e qualquer pessoa está sujeita ao desenvolvimento do vício.
De acordo com o pesquisador, alguns elementos explicam essa dinâmica: existe a ilusão de um ganho fácil a partir de um suposto entretenimento, o que cria a percepção de que essas apostas são formas de lucro fácil e até de investimento; do ponto de vista de um mecanismo psicológico, existe uma “memória da vitória”, uma vez que a dinâmica das bets reforça essa lembrança de vitórias e enseja a perspectiva de vencer, mesmo que o apostador perca e perca; além disso, há a ilusão de controle no caso das apostas esportivas, com o apostador achando que pode prever o resultado. Para quem quiser assistir à entrevista na íntegra:
Um império poderoso
Para as bets se manterem dominantes e com controle do mercado, mesmo com a explosão do vício, é necessário organizarem bem as bases de funcionamento. Eu destaco três pontos principais nessa estrutura, abaixo:
Primeiro ponto: encenação e propaganda
É preciso criar toda uma encenação para vender a ideia de que as apostas são somente entretenimento, apostas inofensivas que representam a possibilidade de mudança de vida. Para venderem essa ideia, nada melhor do que rechearem muito o bolso de influenciadores que têm milhões de seguidores e ficam milionários vendendo ilusão – sem qualquer pudor ou consciência pesada. E para essa encenação ser ainda mais real, vale até envolver a família e mostrar uma vidinha feliz e despreocupada que todos podem conquistar se “investirem” nos jogos. Muitos desses influenciadores ganham altos percentuais em cima da desgraça alheia, ou seja, quanto mais as pessoas perdem e seguem apostando, mais eles ganham.
Compondo essa estratégia, as propagandas das casas de apostas também vendem uma vida feliz e animada, associando o jogo à diversão, ao lazer com amigos, ao ato de “aproveitar a vida”, nada remete ao vício, pelo contrário, a propaganda normaliza o vício.
Segundo ponto: cultivar os “amigos” e mantê-los com o bolso cheio
Além do rol de influenciadores que lucram e citam versículos da Bíblia para compensar a sujeira que promovem, há aqueles que recebem “agrados” pela influência que têm em instâncias de decisão. Para isso, vale desde viagens a ilhas do Caribe – com direito a malas recheadas que não são averiguadas – a convescotes e festinhas.
Terceiro ponto: campanhas de desinformação e ataques orquestrados
O Governo Lula intensificou a ofensiva do mercado das bets e sancionou a chamada Lei das Bets numa tentativa de regulamentar o mercado sem controle. Mas isso tem um custo, e bem alto. Investigar esse império não é tarefa fácil, porque as empresas contra-atacam de várias formas e têm poder financeiro para isso.
Recentemente, o jornalista Leandro Demori, do ICL, denunciou que bets estão pagando (muito bem) a certos influenciadores e páginas de fofoca para falarem mal do presidente Lula e do seu governo. Não se trata de fazer fofoca sobre o governo, estamos falando de campanhas orquestradas de desinformação com base na difamação e na mentira, ou seja, campanhas que vão desconstruir os atores políticos e suas ações.
As bets se tornaram um problema de saúde pública
O vício em jogos – que recebe o nome de ludopatia – se tornou uma triste realidade no Brasil com as bets. Segundo dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), que constam do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (lançado pelo Ministério da Justiça em 2025), esse transtorno já é considerado um grave problema de saúde pública.
E o impacto econômico está associado aos transtornos mentais: um Relatório divulgado pelo Banco Central em setembro de 2024 mostrou que beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em sites de apostas esportivas em um único mês! E para além dos números, há vidas. Pessoas que mergulham em depressão, angústia, tentativa de suicídio porque perdem tudo. Reproduzo a seguir transcrição de trechos de um vídeo que a auditora do Tribunal de Contas da Bahia, Juliana Prates, divulgou o vício que vitimou seu irmão – o vídeo foi mote de uma polêmica recente entre duas celebridades sobre as bets.
“A minha geração cresceu ouvindo que jogo era ilegal, que apostar dinheiro em jogo do bicho ou cassino era proibido, mas, de repente, tudo mudou. Hoje, as apostas estão no intervalo do futebol, nos podcasts, nos celulares, no bolso de qualquer pessoa, inclusive de crianças. O que antes era proibido virou negócio, profissão, “conteúdo”, o vício virou mercado e o Estado aplaudiu. O que mudou? Uma autorização legislativa silenciosa, aquela que não investe em prevenção, mas libera geral e arrecada. É assustador perceber como as bets, que muita gente encara como simples diversão, carregam um impacto tão profundo e silencioso na vida das pessoas e na saúde do país.”
E ela continua:
“No dossiê “A Saúde dos brasileiros em jogo: análise político-econômica da regulamentação de apostas online e seus impactos para a saúde da população brasileira”, mostra que estamos falando de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano em danos à saúde associados às apostas, e R$ 38,8 bilhões quando se incluem perdas sociais como desemprego, moradia e aprisionamento. (…) Meu irmão era meu colega de profissão, auditor do TCE. Um homem inteligente, sensível, correto que vinha enfrentando um sofrimento psíquico profundo. Teve diagnóstico, passou por internação, ficou quatro meses em licença médica e, há pouco tempo, tentou retomar sua rotina de trabalho. Nesse período, se envolveu com apostas online, o endividamento veio junto e isso começou há cerca de um ano e meio. Ele lutou como pôde, mas não conseguiu sair desse ciclo, e eu perdi o meu único irmão, de pai e mãe.”

