A síntese entre a fé e a realidade. Ao constatar que a onda de mentiras e desinformação propagada pelo governo anterior e pelo bolsonarismo não se concretizou, e que políticas públicas do Governo Lula têm assegurado direitos à população mais vulnerável, em conexão com princípios cristãos, a percepção de segmentos evangélicos em relação à atual gestão apresenta uma melhora consistente.
De acordo com a última pesquisa Genial/Quaest, a aprovação do Governo Lula subiu de 30% para 35% entre maio e junho no segmento, enquanto a desaprovação recuou de 65% para 60%. A Rede PT de Comunicação ouviu especialistas sobre esse o cenário.
Segundo Magali Cunha, pesquisadora em Comunicação, Religiões e Política, não se deve falar em um “voto evangélico” homogêneo, mas em um eleitorado diverso, composto por trabalhadores, jovens, mulheres de periferia e de classe média, que compartilham uma identidade religiosa, mas que são afetados pelas propostas políticas e pelas condições da vida cotidiana.
Para a pesquisadora, após um período em 2018 marcado por desinformação e mentiras direcionadas pela campanha de Jair Bolsonaro, o cenário começou a mudar, ainda na gestão anterior, devido ao retrocesso, à perda de direitos e à pandemia, que fizeram muitos evangélicos retirarem o apoio ao ex-presidente. Atualmente, uma comunicação mais eficiente e a constatação prática de que as mentiras propagadas no passado não se confirmaram aproximaram esses cristãos do Governo Lula.
“Igrejas não foram fechadas, não tem perseguição religiosa, as pessoas podem professar sua fé de forma muito ampla e aquilo que diz respeito à vida cotidiana está sendo contemplado com as políticas governamentais. Então, de fato, as pessoas conseguem fazer essa síntese”, afirma.
Esse avanço, reflete Magali Cunha, também é fruto do trabalho de aproximação realizado por personagens do governo, pelo setorial inter-religioso do PT e pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. O PT realizou, por exemplo, o Encontro Nacional de Evangélicas e Evangélicos, convidando outros partidos a participar da iniciativa.
Essas iniciativas ajudaram a melhorar o diálogo com comunidades evangélicas menos politizadas ou de perfil mais conservador, demonstrando que as políticas governamentais contemplam as aspirações dessa população, que vão muito além da religião. As pessoas evangélicas, explica a estudiosa, se sentem contempladas em suas aspirações cotidianas, com políticas públicas, que vão além da religião.
Benedita: diálogo, liberdade religiosa, emprego
Para a deputada federal Benedita da Silva (PT), essa percepção que está sendo construída entre segmentos evangélicos é fruto direto da percepção real das ações do Governo Lula na vida das pessoas: “Para parte dos evangélicos, inclusive jovens, a melhora na avaliação do Governo Lula reflete uma percepção mais concreta sobre os resultados das políticas públicas. O fortalecimento do diálogo, o respeito à liberdade religiosa e pautas como combate à fome, geração de emprego e proteção social têm contribuído para aproximar os que estavam mais resistentes e auxiliar na compreensão sobre os objetivos do governo e das pautas defendidas pelo PT no Congresso Nacional”, ressalta.
A maior parte da população evangélica no Brasil é composta por pessoas pretas, pobres e moradoras de periferias, que sentem diretamente na pele os impactos de políticas voltadas ao combate à fome, à justiça social, aos direitos humanos e à redução das desigualdades, endossa Magali Cunha.
A comunicação política atual, que chega diretamente aos celulares, exerce um papel decisivo. Desde as eleições de 2018, a extrema direita desenvolveu uma capacidade de dialogar com esse segmento, frequentemente recorrendo ao pânico moral e à desinformação.
Magali Cunha destaca que o peso das crenças e das emoções muitas vezes se sobrepõe à racionalidade dos dados: “Muitas vezes aquilo que afeta na emoção, aquilo que afeta nos valores e nas crenças têm um peso maior do que aquilo que é racionalizado. Os dados, os temas que mostram realizações do governo, isso tudo está aí. Mas ao mesmo tempo, a forma de comunicar com essas pessoas conta muito.”
Aprendizados do campo progressista
Enquanto a extrema direita e a direita trabalham com essa manipulação de valores e emoções, apelando para a desinformação, o campo progressista e da esquerda ainda enfrenta dificuldades para traduzir suas realizações políticas na vida cotidiana.
“Esta é uma vantagem que a direita e extrema direita têm sobre as esquerdas, que conseguem comunicar sim, mas sempre com relação a dados, a feitos, a legislações, a elementos que tem relação com a vida, mas que muitas vezes não são expostos de uma forma que afete aquilo que emociona as pessoas”, pondera Magali Cunha.
Ela cita, como exemplo, a comunicação com a juventude. Segundo sua avaliação, o desencanto dos mais jovens com a política está diretamente ligado à ausência de debates que alcancem suas reais aspirações e especificidades, uma vez que “a gente não pode falar de juventude no singular, são juventudes”, aponta. “Os jovens vivem numa era de muita incerteza e os políticos da direita, especialmente os extremistas, jogam muito com isso. Com essa incerteza, com essa insegurança para desencantar a política”, aponta a pesquisadora, salientando a questão da insegurança econômica.
A “conservadorização da juventude”, acrescenta ela, está personificada por figuras públicas jovens no Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras de vereadores, como o deputado Nikolas Ferreira. “Boa parte desses personagens vem do mundo religioso, evangélico, que mexe com esse desencanto e que sabe afetar essa juventude para dizer que pela política se pode mudar, mas mudar pelo viés da direita e do conservadorismo”.
O momento atual é “muito delicado em relação à juventude” e impõe uma tarefa complexa para o campo progressista, diz ela. O desafio é compreender a juventude em sua diversidade e complexidade, especialmente em relação às suas aspirações e as incertezas sobre o futuro, finaliza.
Mostrar o que os governos do PT fizeram e fazem
O professor, escritor, teólogo e batista desigrejado [sem vínculo com instituições religiosas tradicionais] Isac Machado de Moura destaca a importância de ações de comunicação e a articulação política que têm aproximado o governo das comunidades evangélicas.
“Penso que tem sido muito significativo mostrar a esse público tudo o que os governos Lula e Dilma implementaram, como a Marcha para Jesus, o Dia do Evangélico, o decreto que torna a cultura gospel patrimônio cultural e por aí vai. A articulação da jornalista Nilza Valéria, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, junto a Janja e ao presidente tem contribuído bastante para essa visão melhorada de muitos grupos evangélicos”, relembra.
O teólogo também avalia que há avanços concretos nessa aproximação a partir do trabalho de pessoas e grupos com livre acesso à Presidência, a primeira-dama Janja, e com boa aceitação nas comunidades evangélicas.
“Como a religião evangélica não tem um Vaticano, um comando único, há uma diversidade muito grande e nem todos os evangélicos são ouvidos por todos os evangélicos. Então é um trabalho de formiguinhas mesmo, que exige uma paciência, mas que é de fundamental importância e que tem sido determinante nessa melhora na visão do governo Lula”, assinala.
Ele observa, ainda, que existe uma visão muito complexa no meio evangélico sobre caridade e justiça social. Segundo ele, é preciso dialogar com as comunidades religiosas, “mostrando que as políticas públicas do PT estão alinhadas com o evangelho de Jesus, focadas sempre nos mais vulneráveis”.
Segundo Isac Machado, “é admirável quando o presidente Lula mantém, desde sempre, muito respeito por todas as religiões, mas se recusa a usar a fé uma como palanque eleitoral”. Isac concorda que não faria sentido a presença do presidente na Marcha para Jesus, por exemplo. “Seria uma forçação de barra danada. Então ele prefere gravar um áudio para informar sua escolha ética. Ele apoia, ele respeita, mas ele não tem que estar na convenção de nenhum grupo ou em qualquer outro evento”.
Ele destaca que os desafios são imensos para intensificar o diálogo entre evangélicos progressistas e conservadores. “Eu acho louvável iniciativas como o programa “Papo de Crente”, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que, com muito cuidado, vai penetrando nas comunidades mais resistentes e rompendo bolhas. Aos poucos, a percepção evangélica sobre Lula vai melhorando. E isso é legal de se ver”, finaliza.
Desgaste e decepção com condutas dos Bolsonaro
O professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Romero Venâncio, especialista em estudos sobre religião, destaca que há um nítido processo de desgaste na base de apoio da extrema direita. Segundo ele, as denúncias e a conduta política da família Bolsonaro têm decepcionado uma parcela significativa e séria dos evangélicos que cobra coerência ética de seus representantes.
“A candidatura de Flávio Bolsonaro está ancorada em pés de barro. As denúncias e, consequentemente, as revelações do que é a família Bolsonaro fazem com que uma parte dos evangélicos, que não é petista, que não é esquerdista, mas que é séria e cobra dos seus candidatos seriedade, fique decepcionada. Há uma parte desses evangélicos, principalmente o setor mais jovem, que está decepcionada com a prática política deles”, afirma.
Venâncio ressalta que essa mudança de postura da juventude evangélica não significa necessariamente uma conversão ideológica à esquerda, mas sim um reposicionamento crítico: “Eles não vão para o PT, eles não vão para nenhum partido de esquerda. Eles mudaram o voto porque perceberam quem é a família Bolsonaro. Houve uma diminuição do interesse dessa juventude pela família Bolsonaro. Eu acho um bom sinal para o Estado Democrático de Direito.”
O professor aponta que as políticas sociais de transferência de renda e combate às desigualdades são os principais pontos de conexão com a população evangélica mais vulnerável. “O setor evangélico compreendeu o Bolsa Família. É onde Lula vai ter mais voto no setor evangélico: naquele setor que usa e precisa do Bolsa Família. O Bolsa Família é real na vida das pessoas diante do desemprego e do empobrecimento”, reforça.
Venâncio também cita as pautas de combate à fome, geração de emprego e o enfrentamento à violência contra a mulher como temas de forte identificação popular. “A relação das esquerdas com os evangélicos mudou. Você tem uma presença maior de evangélicos que defendem a democracia, o Estado Democrático de Direito, que são contra a cultura do ódio. É uma cultura evangélica que combate a homofobia, a transfobia, a misoginia e o racismo. Esse momento de teoria da conspiração já não é mais real como foi no final dos anos 80 e início dos anos 90”, contextualiza.
Temas morais são delicados
Venâncio alerta que temas de cunho moral, como o aborto, continuam sendo extremamente delicados e exigem cautela no diálogo com as bases cristãs (católicas e evangélicas). Ele aponta que o cenário religioso brasileiro atual, tanto no protestantismo quanto no catolicismo, é marcado por uma profunda divisão interna que se reflete nas redes digitais e no comportamento político.
Para o pesquisador, a iniciativa de dialogar e compreender a complexidade desse eleitorado é fundamental para o fortalecimento democrático do país: “Eu acho tão importante um partido de esquerda estar preocupado com o mundo religioso atual, não só pelo voto, mas pela melhoria do tecido social. Acho importante essa preocupação em um partido do tamanho do PT estar olhando para os meios cristãos brasileiros para compreendê-los e, se possível, ter alguma forma de intervenção entre eles”, ressalta.
Postura respeitosa de Lula é importante
Já de acordo com a análise de Victor Coelho, doutorando da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), está ocorrendo uma reestabilização da imagem do presidente Lula entre o segmento evangélico. Ele classifica como um acerto do governo adotar uma postura mais reservada e respeitosa. “O governo precisa aprender a jogar parado, que é basicamente não entrar em mais confusões, evitar falas e situações em que possa ofender a consciência desse eleitorado evangélico”, avalia.
Como exemplos positivos dessa postura, ele cita a decisão de Lula de não comparecer à Marcha para Jesus e ao encontro de evangélicos do PT no dia de Corpus Christi, enviando justificativas que se opunham à instrumentalização da religião. “O eleitor evangélico percebe muito claramente quando o cara não é um nativo. Uma pessoa que não é evangélica tentar forçar ali um linguajar evangélico vai soar falso”, avalia.
Segundo Victor, historicamente, o eleitorado evangélico brasileiro, majoritariamente feminino, periférico e não branco, é o que mais se beneficia de políticas redistributivas e sociais associadas aos governos do PT. No entanto, nos últimos ciclos eleitorais, a pauta moral e de costumes acabou pesando mais na balança na hora do voto.
“O Lula, que eles disseram que era o grande defensor dessas pautas progressistas e que ia acabar com a família, não está acabando. E a economia está caminhando. O governo não tem que virar conservador nos costumes, só precisa mostrar o que tem feito que impacta a vida e o bolso dessas pessoas e, por outro lado, mostrar que o que elas têm de mais importante não está sendo atacado”, afirma.
Para Victor, a comunicação do governo nas redes sociais tem sido bem-sucedida justamente por não ser microsegmentada para o público religioso, mas sim focada em demandas que atendem a toda a população, incluindo os evangélicos. O pesquisador sugere focar em pontos de contato práticos e de interesse mútuo, como a regulação das apostas esportivas (bets) e a segurança digital de crianças. “O evangélico gosta muito quando se sente ouvido, respeitado e sente que importa”, conclui.

