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‘Lula negocia; Bolsonaro tensionava’: o Brasil no cenário global

Especialistas analisam protagonismo do país no Governo Lula e destacam a capacidade diplomática e de diálogo do presidente brasileiro neste mundo fragmentado

Ricardo Stuckert/PR

Lula participou, em Barcelona, do primeiro encontro da Mobilização Progressista Global, que reuniu democratas de todo o mundo.

A participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em missão oficial na Europa, realizada entre os dias 17 e 21 de abril, é mais um sinal claro do reposicionamento do Brasil no cenário global. Após um período conturbado na condução da política externa durante o governo de Jair Bolsonaro, especialistas avaliam que o país busca, sob o comando de Lula, retomar protagonismo em fóruns multilaterais e ampliar sua capacidade de articulação diplomática.

Durante a viagem mais recente à Europa, que incluiu compromissos na Alemanha, Portugal e Espanha, Lula participou de fóruns multilaterais e encontros com lideranças políticas e empresariais europeias. Entre os temas das reuniões estiveram a preservação da democracia, a redução das desigualdades no cenário global e o fortalecimento das relações internacionais e bilaterais.

Em entrevista à Rede PT de Comunicação, os professores de Direito Internacional Maristela Basso (USP) e Lucas Lima (UFMG) avaliam os resultados da missão do Brasil e traçam comparativos entre a diplomacia do governo atual e a pregada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Reconstrução de pontes e recuperação da imagem”

Ao serem questionados sobre as diferenças entre as políticas externas exercidas entre Lula e Bolsonaro, os especialistas concordam que o atual presidente atua com a “reconstrução de pontes” na política internacional. Para Basso, o período anterior foi marcado por tensões diplomáticas e alinhamentos mais restritos. “A diferença é simples: Lula negocia; Bolsonaro tensionava”, resume.

Lima traz, por sua vez, que o atual governo se preocupa em trazer de volta o valor do Brasil na diplomacia internacional após momentos de  maior atrito com parceiros e desgaste reputacional ocasionados por Bolsonaro, citando o afastamento e postura crítica em relação a compromissos ambientais mundiais e o alinhamento político com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para além dessa comparação, o especialista destacou que o momento atual impõe novos desafios à política externa brasileira.

“Naturalmente, não se trata de um simples retorno ao passado, porque o mundo de 2026 é distinto daquele dos primeiros mandatos de Lula. Ainda assim, o vetor é nítido: retomada da diplomacia presidencial, revalorização do Itamaraty, busca de protagonismo em temas globais e recuperação da imagem do Brasil como parceiro confiável em temas como clima, comércio, direitos humanos e desenvolvimento”, ressaltou o professor.

“O Brasil voltou a existir diplomaticamente”

Para Maristela Basso, a missão internacional vai além de resultados imediatos. Segundo ela, a viagem sinaliza uma mudança mais ampla na posição do Brasil no mundo. “A viagem de Lula à Europa sinaliza algo essencial. O Brasil voltou a existir diplomaticamente. Não se trata apenas de encontros ou acordos pontuais, mas de reposicionamento político”, afirmou.

De acordo com a especialista, o principal ganho está na reconstrução da confiança internacional. “Mais do que resultados imediatos, o que se constrói é um ativo estratégico: confiança. E confiança, em política internacional, é poder”, completa.

Para Basso, as articulações de Lula desde o início de seu mandato trazem credibilidade para o presidente no cenário global. “Lula é percebido como um líder com capacidade de diálogo, algo raro em um cenário global fragmentado. Ele não representa apenas um governo, mas a volta de um Brasil previsível, institucional e disposto a negociar.”

“Diplomacia de densidade multilateral reativada”

Mais do que retomar agendas, a política externa brasileira atual busca redefinir sua forma de atuação no cenário global. Para Lucas Lima, “há um conjunto de iniciativas que apontam para a reativação de uma diplomacia de densidade multilateral”.

Na prática, segundo o especialista, essa estratégia se expressa na combinação entre diferentes frentes de atuação. “Há uma revalorização do compromisso brasileiro com acordos internacionais e uma tentativa de reposicionar o país como ator central nas negociações ambientais”, afirma.

Esse movimento também inclui a reaproximação com a União Europeia e o empenho na implementação do acordo com o Mercosul, ampliando não apenas as relações comerciais, mas também a cooperação regulatória e institucional.

No plano político, Lima destaca a atuação em fóruns multilaterais e a posição do Brasil como ator relevante na governança global. “Há uma tentativa de associar democracia, multilateralismo e desenvolvimento como eixos da atuação externa brasileira”, diz. Para o professor, a própria missão internacional realizada em abril de 2026 sintetiza essa orientação, ao articular agendas de cooperação econômica, defesa da democracia e fortalecimento das relações internacionais.

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Pietra Hara, Rede PT de Comunicação.