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Lula reúne apoio de todo campo progressista na largada, pela 1ª vez, desde 1989

Lula e Alckmin, que fizeram a chapa inédita em 2022, vão repetir a história em defesa da democracia.

A candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será oficializada no dia 2 de agosto, tem o apoio de todos os partidos do campo progressista. É a primeira vez que 7 siglas de esquerda e centro-esquerda – PT, PV, PCdoB, PSB, PSOL, Rede e PDT – se unem em torno de uma única chapa para a disputa presidencial. Desde a primeira eleição direta para a Presidência, em 1989, após o longo período da ditadura militar, os partidos progressistas seguiram mais pulverizados.

Lideranças políticas da esquerda consideram que o avanço da extrema direita no mundo e as claras ameaças à democracia e à soberania do Brasil apontaram a necessidade urgente de união.

Lula na campanha das Diretas Já, em 1984, entre Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, Miguel Arraes, Marcos Freire e Lucy Montoro. Foto: Antonio Carlos Piccino/O Globo/Estúdio/AgênciaFoto: Antonio Carlos Piccino - O Globo - Estúdio/Agência

O primeiro adversário de Lula no campo da esquerda foi Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro e fundador do PDT. Eles disputaram as eleições de 1989 e 1994, mas depois, em 1998, Brizola acabou sendo candidato a vice-presidente na chapa de Lula.

Sem Brizola no pleito, também concorreram pela centro-esquerda em 1998 Ciro Gomes, à época no PPS (atual Cidadania), e Alfredo Sirkis (PV). Ciro também disputou com Lula na eleição seguinte, de 2002, a primeira vencida pelo presidente, mas o principal nome que concorreu pela esquerda com Lula foi o ex-governador fluminense Anthony Garotinho, pelo PSB à época, após um rompimento com o PDT de Brizola.

A fragmentação da esquerda se repetiu em todas as eleições seguintes, com exceção de 2022:

Brizola e Garotinho também tiveram outra peculiaridade: foram os únicos candidatos a presidente na Nova República que deixaram de ir ao segundo turno por muito pouco. Em 1989, Lula avançou à segunda etapa com 17,19% dos votos na primeira, contra 16,51% de Brizola (menos de 500 mil votos de diferença). Quem acabou eleito foi Fernando Collor (PRN). 

Já em 2002, Garotinho deixou de levar a disputa com Lula ao segundo turno por 4,5 milhões de votos, ficando estacionado no primeiro turno com 17,87%, contra 23,20% de José Serra (PSDB), que avançou e perdeu para Lula na segunda etapa.

A eleição de 2014 foi a mais emblemática da Nova República, sobretudo para o campo progressista. Além da pulverização e do início da contaminação da política pela Operação Lava-Jato, a disputa sofreu um abalo com a morte de Eduardo Campos (PSB) em um acidente de avião em plena campanha presidencial, aos 49 anos, em 13 de agosto

Aquela eleição também opôs pela segunda vez não só petistas e ex-petistas, como também pessoas que haviam dividido assentos na Esplanada do presidente Lula em seus primeiros governos:

Em 1989, a primeira eleição direta da democracia brasileira, houve 4 candidatos de esquerda entre os 22 que concorreram à Presidência. Em 1994, de 8 candidatos, só 2 eram de esquerda.

A proporção começou a crescer com o surgimento de partidos menores, alinhados com alas mais radicais da esquerda, que lançavam chapas puro-sangue, como PCB, PSTU, PCO e UP. Em 2002, por exemplo, disputaram 5 candidatos de esquerda, de um total de 6.

As candidaturas de esquerda continuaram representando metade ou mais do que o total de candidatos nas eleições de 2006, 2010 e 2014. Em 2018, foram 6 de 13, e em 2022, 5 de 11. Neste ano, há 4 pré-candidatos da esquerda mais radical.

Da divergência à agenda comum

Juliano Medeiros, que presidiu o PSOL de 2017 a 2023, afirma que “a disputa de liderança dentro do campo da esquerda sempre existiu”. Ele cita a rivalidade nos anos 1980 entre o PT e os partidos comunistas. Para ele, “partido de esquerda que não quer ser hegemônico no seu campo não tem nem que existir”.

Medeiros fez parte do primeiro grupo que saiu do PT para o PSOL, em 2005, quando ainda militava no movimento estudantil. Ele considera que a fragmentação naquela década foi uma consequência natural da chegada da esquerda ao poder: “A experiência de ter, pela primeira vez, um partido de origem socialista liderando um governo de coalizão trouxe à tona uma série de contradições, dúvidas e questionamentos que são naturais de um campo que tinha muita força nos movimentos sociais, mas não tinha tido a experiência de governar”.

O ex-presidente do PSB Carlos Siqueira concorda. Segundo ele, a fragmentação política no início da redemocratização era “perfeitamente justificada” dada a normalidade democrática do período.

Contudo, o processo de deterioração democrática iniciado em 2013 e que culminou com a eleição de Jair Bolsonaro deixou claro que deveria haver um movimento contrário: “Por sorte, tivemos a liderança do presidente Lula, que se juntando ao nosso partido e a outros de esquerda, teve a vitória para salvar a democracia”.

Para Juliano Medeiros, essa reunião é consequência de um Brasil que mudou muito e demandou dos setores progressistas uma releitura de cenário. Segundo ele, a crise do neoliberalismo e o lawfare instituído pela Lava-Jato criaram a necessidade de uma frente de esquerda para enfrentar primeiro os retrocessos do governo de Michel Temer e depois o bolsonarismo, e que acabou dando as bases para a aliança em torno do presidente Lula.

Apesar de a origem dessa aproximação entre os partidos progressistas ter sido uma reação ao avanço da extrema direita, Medeiros considera que houve um amadurecimento de uma agenda comum. “Hoje há pontos de convergência importantes que a gente não conseguia construir antes porque estávamos disputando uns contra os outros”, afirma. Ele destaca as lutas pela redução da jornada de trabalho, pela taxação dos super-ricos e pelo combate às mudanças climáticas.

Carlos Siqueira assumiu a presidência do PSB não só em um dos momentos mais delicados para o partido, como também no momento de maior afastamento em relação ao PT, logo após a morte de Eduardo Campos. Durante seus 11 anos de comando, as duas siglas se reaproximaram, culminando na chapa presidencial PT-PSB em 2022 e novamente agora, em 2026.

“Sempre pensamos que unir as forças democráticas ajuda a unir a população”, defende Siqueira.

Para ele, a repetição da chapa Lula-Alckmin vai totalmente ao encontro do que as lideranças de ambos os partidos defendem, de reunir as forças progressistas e avançar na reestruturação do país e na renovação da democracia, à luz de um projeto de desenvolvimento nacional.

João Vitor Castro, Rede PT de Comunicação.

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