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Modo de agir violento da extrema direita tem mulheres e jornalismo como alvos

Por Eliara Santana (*)

Com um modus operandi violento, os artífices da desinformação da extrema direita fazem uma defesa hipócrita e enviesada da liberdade de expressão, mas mobilizam e insuflam seus exércitos digitais para atacar opositores e destruir reputações sempre que algo contradiz suas crenças e certezas e ameaça revelar suas mentiras. A honra das mulheres e o jornalismo, sobretudo, são alvos centrais dessas agressões violentas, gratuitas, que buscam atingir a credibilidade profissional. 

Um exemplo recente é o ataque à jornalista Daniela Lima, do UOL. Ela foi chamada de “vagabunda criminosa” por um homem, que criticava a cobertura jornalística feita por ela sobre o escândalo das ligações perigosas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, o filme Dark Horse e a viagem do filho 01 aos EUA. Não é a primeira vez, e Daniela não é a única, infelizmente. 

Os ataques podem evoluir, rapidamente, para linchamentos virtuais como uma clara tentativa de silenciamento. E não é, repito, apenas uma reação espontânea de um indivíduo que ficou enraivecido porque a cobertura não estava favorável. A reação desse tipo de figura é diuturnamente alimentada pelas redes de ódio que proliferaram como ratos no Brasil com a extrema direita bolsonarista. 

Essa arquitetura para perseguir e destruir reputações de jornalistas envolve muitos recursos: recortes equivocados de falas, declarações fora de contexto para serem problematizadas nas redes, agressões diretas, intimidações, xingamentos. Em relação a esse último quesito, vale ressaltar que um dos adjetivos preferidos para na referência agressiva às mulheres é “vagabunda”.

Pela cartilha do ódio e da desinformação, qualquer mulher que ouse mostrar conhecimento em relação a fatos e questões, e, por meio desse conhecimento, consiga expor e desmascarar as artimanhas perniciosas da extrema direita será prontamente taxada de “vagabunda” pelo exército raivoso digital.

E o mau exemplo nos xingamentos vem sempre de cima. Em junho de 2021, quando ainda estava na CNN, Daniela Lima foi alvo de ataques bolsonaristas e do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, depois de anunciar uma matéria dizendo o seguinte: “Não saia daí porque agora, infelizmente, a gente vai falar de notícia boa, mas com valores não tão expressivos”.

Ela ia comentar sobre o saldo positivo de abertura de vagas de emprego em abril no país, mas que tinha sido o menor do ano. Os bolsonaristas manipularam a fala da jornalista e reproduziram nas redes apenas uma parte, que ficou assim: “Infelizmente, a gente vai falar de notícia boa”. Foi o que bastou para deflagrar os ataques. Na sequência, o próprio Jair Bolsonaro disse aos apoiadores, que o aguardavam na chegada ao Planalto, imitando a fala da jornalista: “Infelizmente, somos obrigados a dar uma boa notícia, mas não é tão boa assim não’. É uma quadrúpede. Afinal de contas, acho que não preciso dizer de quem ela foi eleitora no passado, né? De outra do mesmo gênero”. Ou seja, outra mulher “quadrúpede”, nos dizeres do então presidente da República. 

Mais recentemente, outro exemplo ajuda a ilustrar o modo como essas falas e manifestações de autoridades, políticos e influenciadores operam para insuflar o ódio e as perseguições aos jornalistas.

Em março deste ano, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhou em suas redes o vídeo de uma influenciadora bolsonarista que dizia denunciar a “torcida” de jornalistas na porta do hospital onde Jair Bolsonaro estava internado.

A acusação era totalmente falsa – ela afirmava no vídeo, sem nenhuma prova, que os jornalistas que cobriam a internação estavam comemorando a situação e torcendo pela morte do ex-presidente. De novo, foi o que bastou para atiçar a turba raivosa contra os jornalistas, e os ataques vieram de todas as formas. 

Ataques têm padrões 

Lançado na reunião paralela ao G20 sobre integridade da informação, em maio de 2024, o estudo Ataques relacionados a gênero e desinformação, da organização #ShePersisted e da empresa de análise de dados The Nerve, ressalta que os ataques a mulheres jornalistas por grupos e lideranças de extrema direita se consolidam como uma estratégia política baseada na misoginia e na violência de gênero.

A pesquisa analisou os tipos de ataques online contra políticas e jornalistas no Brasil e as estratégias de disseminação do conteúdo. O relatório divulgado afirmou também que os ataques têm como objetivo principal ferir a credibilidade profissional das jornalistas, ou seja, silenciar essas vozes.

Como já discutimos em outros artigos, a desinformação tem padrões, e os ataques às jornalistas seguem esse modelo, que envolve algumas estratégias específicas, como demonstrou o estudo: ações e falas para ferir a credibilidade das profissionais, com insinuações de “militância” política e mesmo disseminação de fake news; ações e falas para menosprezar a capacidade intelectual das profissionais; táticas de exposição e difamação, com invasão às redes e mensagens agressivas; uso de IA para produzir videos e imagens fake (e o estudo cita a criação de conteúdo pornográfico falso); produção de dossiês contra as profissionais e familiares; campanhas coordenadas de desinformação com ataques em massa disseminados em várias plataformas.

O estudo da #SherPersisted e The Nerve envolveu a análise de publicações com menções a jornalistas e políticas que sofreram ataques constantes e de cunho misógino, no período de 2019 a 2024, no Brasil. O estudo demonstrou que a grande maioria das postagens com conteúdo tóxico eram reações a críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a seus filhos e a aliados.

Nesse cenário tão aviltante e violento, sempre é fundamental lembrar que a prática jornalística deve ser um antídoto à desinformação que se enfronhou na vida cotidiana, na vida dos países.

No relatório Tendências Mundiais em Matéria de Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Comunicação Social, publicado em 2022 pela Unesco, o jornalismo é considerado como um bem público que precisa ser preservado e defendido.

Na introdução ao documento, uma fala do então secretário-geral da ONU, Antônio Guterres (originalmente publicada em seu relatório “Nossa agenda comum”, de 2021), enfatiza:  “A capacidade de criar desinformação em larga escala e minar fatos cientificamente estabelecidos é um risco existencial para a humanidade. Enquanto defendemos vigorosamente o direito à liberdade de expressão em toda parte, devemos igualmente encorajar as sociedades a desenvolver um consenso comum e empiricamente apoiado sobre o bem público dos fatos, da ciência e do conhecimento”. Em resumo, tudo o que é atacado e colocado em risco sob a arquitetura da desinformação.

O relatório da Unesco ressalta a necessidade de viabilizar a prática jornalística para combater de fato os enormes desafios impostos pelo ecossistema de desinformação. Segundo o documento,“sem viabilidade, a liberdade de imprensa é oca, a independência pode ser facilmente comprometida e o pluralismo torna-se uma sombra do que deveria ser. Sem transparência por parte dos guardiões da Internet, o papel destes na comunicação não pode ser avaliado e alinhado com os padrões internacionais de liberdade de expressão. E sem cidadãos com letramento informativo e midiático, que sabem discernir, valorizar e exigir jornalismo de qualidade, o risco de a comunicação social ser ultrapassada por outro tipo de conteúdo é alto”. 

Não são apenas as jornalistas mulheres que ousam criticar os políticos influentes da extrema direita que correm riscos. Toda a sociedade está sujeita às ameaças e aos ataques do ambiente digital tóxico da desinformação. E exatamente por isso, a defesa da boa prática jornalística e a educação midiática são fundamentais.

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

 

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