(*) Por Eliara Santana
Estamos habitando, por ora, um mundo que se tornou midiático. Nesse universo, números e resultados precisam ser costurados pelo fio do entendimento. Um fio claro, consistente e que estabeleça a ligação entre dois pontos: o número, o resultado, a afirmação e o que ele representa.
A percepção de uma realidade não é dada, não é natural, não é automática – ela é resultado de uma CONSTRUÇÃO discursiva, em que várias estratégias estão envolvidas.
Tomando uma definição bem básica da Wikipédia, percepção é “o processo cognitivo de organizar, interpretar e dar sentido às informações sensoriais captadas do ambiente”. Trocando em miúdos: o que eu vejo, escuto e sinto (da realidade) eu vou organizar, processar e interpretar, formando um entendimento. Num mundo midiático e hiperconectado, eu faço isso a partir das informações que eu recebo e das interações que estabeleço.
Num mundo midiático, como isso é conduzido?
Observem o recorte de um sumário executivo apresentado a um grupo de 100 CEOs, repercutindo os resultados de uma pesquisa Quaest. Ele mostra que há um paradoxo, uma vez que os números da economia melhoram, mas a percepção da população vai em sentido contrário. E então, conclui: “O que orienta o voto é a percepção, não o indicador”.
Se a percepção não é naturalmente dada, estabelecida assim que surge um novo indicador, como ela é construída nesse caso? Melhor dizendo: que tipo de construção está em jogo num mundo midiático e hiperconectado?
Um primeiro ponto nesse processo é que, nesse mundo conectado, a opinião é apresentada como sendo o factual, o “conhecimento”, e para isso, a figura de um “especialista” – aquele que sabe determinado assunto é essencial (geralmente, essa figura é um economista, pois ninguém sabe nada mesmo de economia).
Especialista que muitas vezes aparece sem filiação institucional, apenas com o título – vários, por exemplo, sugeriram que o presidente argentino, Javier Milei, era um exemplo a ser soerguido pelo Brasil; agora, ninguém menciona que os argentinos comem carne de burro para driblar a crise. Essas construções alimentam a extrema direita, incapaz que é de estabelecer tais conexões de sentido.
Sobre o conceito de opinião, o professor Patrick Charaudeau esclarece que se trata de um ponto de vista sobre o mundo, ou seja, a opinião não enuncia uma verdade sobre o mundo.
A questão é que, no mundo midiático, a opinião é transformada num saber inquestionável capaz de conduzir a determinadas percepções sobre a realidade que se consolidam como “a” verdade. A mídia constrói uma homogeneização das diversas opiniões e produz “uma” opinião pública forjada que conduz a certas percepções da realidade política, econômica e social.
E nesse sentido, o movimento do “pesquisismo” é um braço fortíssimo. Como pesquisismo eu denomino essa produção insana de pesquisas que deveriam ser tomadas como termômetros de momentos específicos, mas se tornam fontes inquestionáveis a produzir “verdades” sobre o país e a direcionar os eleitores a determinados caminhos de produção de sentido, conduzindo suas escolhas.
Vamos a alguns exemplos recentes para compreendermos melhor esse fio do entendimento e a dissonância entre os dados econômicos positivos e o mau humor crescente dos brasileiros.
A “sorte” de Lula e a “inflação de alimentos”
A partir do segundo semestre de 2023, diversas ações de política econômica do governo foram conduzindo o país a um cenário de recuperação e melhoria da economia. Mas, para a imprensa, o que havia era um momento de “sorte” do presidente Lula, nunca ação efetiva governamental.
Além disso, aspectos econômicos muito positivos, como a queda recorde no desemprego e o aumento da renda, eram traduzidos como “problemas”.
Vejam dois exemplos:
Há, pela produção da notícia, uma reconstrução da realidade, com foco em aspectos negativos, omissão de ações positivas e o reforço à ideia de crise econômica.
Endividamento das famílias, taxa de juros e governo
Há alguns meses, a mídia tem se debruçado sobre o tema do endividamento das famílias brasileiras. Os números, de fato, revelam uma situação bem preocupante que decorre de vários fatores, mas o problema é colocado totalmente no colo do governo federal. Ontem (4/05), por exemplo, abordando o lançamento da segunda edição do programa Novo Desenrola, cuja proposta é ajudar os brasileiros a se livrarem das dívidas, o Jornal Nacional fez uma matéria que se desenrolou bem até certo ponto.
Seis minutos de reportagem mostrando um balanço geral dos pontos principais do programa – as condições, quem será beneficiado, como aderir, taxas de juros; certo destaque para a ação do governo, com foco na diminuição do endividamento das famílias; espaço de fala para o presidente Lula e para o ministro da Fazenda explicando sobre o programa.
A matéria também informou que microempresários poderão ser beneficiados, ressaltou que é a segunda tentativa do governo de diminuir o endividamento das famílias e afirmou que especialistas veem o programa como uma iniciativa muito positiva.
No entanto, apesar do começo alto astral, a reportagem deu um nó para colocar o endividamento na conta do governo ao reforçar a ideia de que parte da origem desse endividamento, como proclamaram os tais especialistas, é o descontrole das contas públicas. Esse descontrole, porque o governo “gasta demais”, é que leva o Banco Central a manter a altíssima taxa de juros, uma das explicações para o endividamento das famílias. No mínimo, uma concepção desonesta.
Ou seja, o presidente não é responsável pela melhoria na economia, ele tem apenas sorte; mas é o culpado pelo endividamento da população provocada em parte pela abusiva taxa de juros, que é prerrogativa do Banco Central.
Não cabe negar que haja problemas econômicos, frustração e desconforto da população, que nutriu a esperança de dias muito melhores. Cientistas políticos (sérios) estão mostrando esses dados, essa insatisfação, o fato de que o filho da faxineira alcançou o diploma, mas a melhoria de vida não foi automática.
Há frustração sim, real, sobretudo porque, após os miseráveis anos do governo Bolsonaro, havia uma genuína esperança de mudança profunda. Mas isso, por si somente, não justifica e não explica o imenso mau humor de parte dos eleitores com o presidente Lula, migrando o voto para o clã Bolsonaro, que destruiu o país.
As covas abertas na pandemia
Agora, um exemplo saindo do campo da economia. Em 2020/2021, as pessoas passaram a ter, coletivamente, a percepção da gravidade da pandemia, entendendo que aquilo não se tratava de uma “gripezinha”, quando o Consórcio de Veículos de Imprensa passou a REPRESENTAR a gravidade da situação mostrando as imagens de centenas de covas abertas à espera dos caixões, mesmo com a negativa do então governo Jair Bolsonaro. A cova aberta foi a imagem que teceu a compreensão da população e direcionou para a percepção de que o vírus era mortal e o governo lavava as mãos.
O fio do entendimento precisa estabelecer a ligação entre os dois pontos – dados e compreensão daquela realidade – para conduzir a uma percepção sobre a realidade. E nesse processo, muitos são os caminhos, e muitas, as percepções construídas.

