(*) Por Eliara Santana
O bolsonarismo consolidou, no Brasil, um poderoso ecossistema de desinformação que constrói e alimenta realidades paralelas. A desinformação se tornou uma arma de guerra potente da extrema direita, e para isso, a manipulação da fé legítima das pessoas é um ponto essencial.
Portanto, construir a manipulação com base em valores religiosos é muito importante para os falsos profetas. O Brasil é um país genuinamente religioso – as pessoas professam sua fé com alegria, respeito, emoção, rezam, oram, há uma forte religiosidade, em várias formas de manifestação.
Para além de qualquer crítica a certas práticas e condutas, é necessário pensar que as Igrejas, os templos, os lugares sagrados são sim locais de acolhida, pertencimento, fé, consolo para as dores – do corpo e da alma. Compreender esse aspecto nos ajuda a entender a efetividade dessa variável do discurso de desinformação que usa valores religiosos para se erguer.
Os valores morais e as crenças, em grande parte, são alimentados pela fé religiosa, e além disso, a religião sempre esteve presente na política no Brasil, isso não é novidade – a religiosidade pauta a vida nacional, o que impacta de alguma forma a discussão político-eleitoral.
A novidade ruim está no modus operandi do bolsonarismo, que abusa da religiosidade legítima dos brasileiros e incorpora elementos religiosos à produção de desinformação e mentiras.
É dessa forma, por exemplo, que se torna possível vincular discursivamente a figura de um “demônio” a práticas políticas da esquerda, como feito feito amplamente durante a eleição de 2022. Essa construção simbólica tem o poder de provocar confusão, pânico, medo, pavor – a figura simbólica do “demônio”, num país religioso, encarna várias possibilidades. Nesse contexto, pensando a efetividade do discurso de desinformação num viés religioso, vamos imaginar: se a igreja, que é meu lugar de refúgio, de acolhida, se o representante maior dessa igreja me diz que determinado candidato encarna o capeta, quem sou eu para dizer o contrário?
Muitos desses espaços de fé e acolhida estão suscetíveis à ação dos falsos profetas que movimentam o ecossistema de desinformação de modo muito apropriado e se ligam à falta de escrúpulos da extrema direita. Exemplos não faltam. Trazendo à memória um dos mais recentes, temos o envolvimento da Igreja Batista da Lagoinha, de Belo Horizonte-MG, com o escândalo de corrupção do Banco Master. Nessa reflexão, é muito importante lembrar que a fé, em si, não é um problema, longe disso: o problema é a manipulação dessa fé e o uso político que é feito por parte de alguns. Se lêssemos a Bíblia sem preconceito e com cuidado, veríamos no livro sagrado para os cristãos várias dicas de como identificar esses personagens. Há muitas passagens bíblicas para alertar sobre os falsos profetas. Gosto muito do clássico versículo do apóstolo Mateus (Mateus 7:15-20), que reproduzo:
“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!”.
Alguns desses falsos profetas, nos dias de hoje, se apresentam até sem sobrenome, como se pudessem abandonar a herança ruim de um falso messias, mas o fato é que a árvore ruim não pode dar frutos bons. Na construção manipulada desses discursos, o despertar do pânico é um elemento fortíssimo – esses falsos profetas, desde 2018, espalham pelas redes e pelas igrejas mentiras ligando a esquerda a práticas de perseguição aos cristãos. Alguns pontos centrais nessas produções estruturadas são: a representação de crenças compartilhadas, a nossa visão de mundo, que não é puramente racional e envolve crenças e valores, e o controle das emoções. A manipulação da fé pela desinformação envolve tudo isso.
Em 2021, o relatório “Caminhos da Desinformação – Evangélicos, Fake News e WhatsApp no Brasil”, produzido a partir de um estudo realizado por pesquisadores da UFRJ e fruto de uma coleta com mais de 800 pessoas (públicos evangélicos), apontou várias nuances relevantes em relação a essa discussão sobre a fé a desinformação.
A proposta geral do estudo foi entender como ocorrem os processos de troca de informações mediados pelo WhatsApp em coletividades organizadas, e nesse escopo, foi escolhido o segmento religioso, especificamente, os públicos evangélicos. Muitos aspectos apontados pelo estudo nos ajudam a compreender essa instrumentalização da fé. Um deles é a confiança: as pessoas reproduzem notícias e acreditam em informações das outras pessoas em quem confiam, e o fazem sem qualquer preocupação com a checagem das fontes. Pastores e líderes religiosos em geral são sujeitos dotados de credibilidade e que despertam a confiança – os falsos profetas usam e abusam dessa prerrogativa.
Pastor influencer e padre red pill
Como demonstrado pelo estudo, há um uso massivo de WhatsApp pelas igrejas para transmitir o conteúdo bíblico e até mesmo os cultos – a comunicação é facilitada nesse sentido. No entanto, os pastores-influenciadores usam todo o arsenal desinformativo e catastrófico no púlpito das igrejas e nas redes, fazendo circular também a desinformação, que se mistura a pautas morais. Nessa circulação facilitada, o elemento “confiança naquele que dispara o conteúdo” é fundamental, pois é nessa brecha que os disseminadores de desinformação encontram espaço de ação.
Ainda no campo da manipulação religiosa, há proliferação de discursos machistas, intolerantes, excludentes que são ocultos pelo véu da defesa de pautas conservadoras. Um exemplo recente é o do padre carmelita Frei Gilson, que está sendo chamado de “padre red pill” pelos discursos claramente contra as mulheres num momento em que explode o feminicídio no país. Padre carmelita, Frei Gilson é muito engajado nas redes, faz transmissões que alcançam milhares de fiéis e está bastante próximo do bolsonarismo. Em suas pregações, dispara pérolas como:
“É claro ver que Deus deu ao homem a liderança. Isso está na Bíblia. A guerra dos sexos é ideologia pura. Para curar a solidão do homem, Deus fez você [mulher]. Deus faz uma promessa para Adão: eu vou fazer alguém para ser sua auxiliar. Aqui você já começa a entender a missão de uma mulher. Ela nasceu para auxiliar o homem”.
Já nos dizia o escritor Guy Debord, em 1967, que tudo o que era vivido diretamente se torna representação. E essa é uma máxima para os falsos profetas que usam a fé legítima das pessoas para manipular, achincalhar, debochar. O espetáculo grotesco, as falas preconceituosas, tudo serve para atrair a atenção, conquistar as pessoas e vestir com pele de cordeiro os lobos prestes a atacar.
O Papa alvo de discurso de ódio e deboche
O presidente Donald Trump tem atacado insistentemente o Papa Leão XIV em função do posicionamento do pontífice contra a guerra. Não contente com os ataques verbais, o presidente norte-americano fez circular um video de IA que simulava a si mesmo como um “salvador”, como Jesus Cristo, e isso em plena celebração da Páscoa, um tempo importantíssimo para os cristãos.
O Papa Leão não se intimidou com os ataques de Trump, disse que não tem medo dele e prosseguiu marcando seu posicionamento contra os tiranos que fazem as guerras.
O presidente Lula manifestou solidariedade ao Papa e publicou uma postagem em rede social em defesa contra os ataques sofridos pelo pontífice. Na postagem, o presidente afirmou: ”Eu quero manifestar minha mais profunda solidariedade ao papa Leão XIV. Ao longo da história da humanidade, defensores da paz e dos oprimidos têm sido atacado por poderosos que se julgam divindades ao ser adorada pelos simples mortais”. Lula também lembrou de um bom pastor, esse, verdadeiro, o Papa Francisco, falecido há um ano.

