Antes de se tornarem parte da memória política do Brasil, as imagens de milhares de trabalhadores ocupando o gramado e as arquibancadas da Vila Euclides para desafiar o sistema político foram captadas pelas lentes de quem estava ali registrando a história. Em meio às assembleias, greves e à repressão da ditadura militar, fotojornalistas documentavam a força de um movimento que colocou os trabalhadores no centro da cena política brasileira e projetou nacionalmente a liderança do então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Luiz Inácio Lula da Silva.
Mais de quatro décadas depois, aquelas fotografias seguem vivas, conectando o passado ao futuro. Continuam contando a história. Essas imagens preservaram não apenas os grandes acontecimentos, mas os rostos, gestos e detalhes de quem participou deles.
Para a historiadora e pesquisadora da História Visual dos movimentos sociais Sônia Fardin, o legado das fotografias daquele período passa tanto pela luta de massas quanto pela disputa da comunicação.
“A produção fotográfica e audiovisual realizada pelos trabalhadores da imagem, comprometidos com as pautas da classe trabalhadora, resultaram de esforços militantes e coletivos para criar condições materiais para travar a batalha política da comunicação visual contra-hegemônica”, afirma Fardin.
Na época, agências independentes de fotojornalismo e cinema documental, jornais, sindicatos, movimentos sociais e organizações de bairro formaram um circuito próprio de produção e circulação de imagens. Segundo Sônia, havia também a busca por uma “gramática visual própria à luta política da classe trabalhadora”, na qual a multidão deixava de ser coadjuvante para se tornar protagonista.
“O sujeito coletivo era o grande rosto a ser mostrado, sob a forma de imagens panorâmicas de passeatas, fotos aéreas de atos e comícios, registros de consignas escritas em faixas gigantes que se misturavam aos rostos de lideranças e gente anônima não como coadjuvantes, mas protagonistas”, ressalta a pesquisadora. “Algumas imagens buscaram a fusão, quase absoluta, da face da liderança pública com a massa que a sustenta, para retratar a força coletiva tomando ruas, sindicatos e estádios e, principalmente, se organizando para tomar o poder”.
Muitos profissionais da imagem acompanharam de perto as mobilizações dos trabalhadores e ajudaram a construir esse acervo visual. Entre eles estão Nair Benedicto, Juca Martins, Ricardo Malta, Vera Jursys, Ennio Brauns, Jesus Carlos, João Bittar, Eduardo Simões, Ricardo Giraldez, Ricardo Alves e Renato Tapajós, além de tantos outros que registraram assembleias, greves, manifestações e a organização dos trabalhadores no ABC.
Hélio Campos Mello, Mônica Zarattini e Rosa Gauditano também registraram seus olhares a partir de seus próprios olhares. Vindos de experiências diferentes, seus registros ajudaram a preservar um capítulo fundamental da reorganização da classe trabalhadora e da luta pela redemocratização.

Quando os trabalhadores ocuparam o estádio
No final de janeiro de 1979, os metalúrgicos da região do ABC paulista definiram as reivindicações da campanha salarial daquele ano. Entre elas estavam aumento real de 34,1%, redução da jornada para 40 horas semanais e reconhecimento e estabilidade para os delegados sindicais.
Lula, então presidente do Sindicato, queria uma demonstração que traduzisse a capacidade de mobilização alcançada pela categoria: uma assembleia capaz de lotar um estádio de futebol.
Com a decisão de entrar em greve, a ideia se concretizou. Às vésperas da posse do general João Figueiredo, o último dos ditadores militares que assumiu a Presidência, cerca de 80 mil trabalhadores chegaram a ocupar o gramado e as arquibancadas da Vila Euclides. Sem palanque e sistema de som, Lula discursou sobre uma mesa, enquanto os próprios trabalhadores repetiam suas palavras para que elas chegassem aos pontos mais distantes do estádio.
Era esse o cenário encontrado pelos fotojornalistas da época.
“Além de fazer fotojornalismo, a gente lutava para derrubar a ditadura”
Hélio Campos Mello trabalhava na revista IstoÉ quando o novo sindicalismo começou a ganhar força no ABC. Ele lembra que a publicação percebeu naquele movimento um “sangue novo” e passou a acompanhar intensamente o que acontecia em São Bernardo do Campo.
A cobertura se tornou tão frequente que Hélio se define como uma espécie de “setorista” daquele movimento. As assembleias, o Sindicato dos Metalúrgicos e Lula passaram a fazer parte de sua rotina profissional. “Eu vestia uma camisa de São Bernardo e da busca à democracia”, recorda.
Para ele, havia pouca separação entre o exercício do fotojornalismo e o enfrentamento ao regime autoritário. “Era um jornalismo bastante engajado, bem engajado”, afirma.
“Eu gostava muito do que eu fazia, de fotojornalismo, e além disso, além de fazer o fotojornalismo, a gente lutava para derrubar uma ditadura.”
Estar atrás da câmera também significava se expor à violência que atingia os trabalhadores. Em uma das coberturas, Hélio estava sozinho fotografando dois integrantes da tropa de choque agredindo um metalúrgico quando se tornou alvo da repressão.
“Acabou sobrando para mim também. Pegaram meus filmes, trincaram o meu nariz… Coisas da profissão que mostravam bastante o clima que era na época”, relembra.
Aos 16 anos, uma câmera e a Vila Euclides
Se Hélio chegou ao ABC como profissional de uma revista semanal, Mônica Zarattini viveu uma experiência diferente. Tinha apenas 16 anos e ainda aprendia fotografia quando começou a registrar aquele ambiente.
Naquele momento, seu pai, o ex-deputado federal e militante de esquerda Ricardo Zarattini Filho, ainda era preso político, e a fotografia começava a levá-la justamente aos acontecimentos dos quais queria participar.
O equipamento era simples. Havia pouco dinheiro e poucas lentes. Mas a câmera colocou a jovem fotógrafa dentro da Vila Euclides e próxima às mobilizações lideradas por Lula.
“Só de eu estar ali naquele momento, a fotografia estava me levando pra onde eu queria estar. Era na Vila Euclides, ali perto do Lula”, recorda.
Mônica também passou noites dentro do Sindicato dos Metalúrgicos. Já fazendo trabalhos como freelancer, permanecia no local diante da possibilidade de prisão de Lula e de uma intervenção na entidade. Muitas vezes passava a madrugada inteira esperando uma imagem que nunca acontecia. Era o início de uma trajetória que uniria fotografia, jornalismo e participação política.
“Estar ali, presente nesses momentos históricos, sempre para mim é muito importante, porque é o meu lado militante, né? E ao mesmo tempo que é o meu lado jornalista”, afirma.
Rosa Gauditano: a história com outros ângulos
Entre as fotógrafas que documentaram as mobilizações estava também Rosa Gauditano, que faleceu em 2025. Parte de sua história naquele período hoje é reconstruída pela filha, Camila Gauditano, a partir das lembranças da mãe e do mergulho que fez no acervo deixado por ela.
Rosa atuou no jornal alternativo Versus, integrando uma equipe que acompanhava movimentos e conflitos sociais durante a ditadura. Sua trajetória também passou pelo registro dos movimentos antirracista, de mulheres e de demais minorias da sociedade brasileira.
Depois da morte da mãe, Camila mergulhou profundamente no arquivo construído por Rosa ao longo da vida. Encontrou um acervo organizado por temas e, entre eles, um conjunto dedicado às greves sindicais do ABC.
No arquivo, encontrou inclusive fotografias que não conhecia. Uma delas mostra Lula carregado pelos trabalhadores. Outras já faziam parte de suas lembranças desde a infância, como a imagem do então líder sindical agachado no palanque, tentando se aproximar da multidão que ocupava o espaço.
Camila lembra que a mãe tinha consciência de estar registrando o surgimento de uma liderança e um período decisivo da história brasileira. Mas havia ainda outro desafio: ser uma das poucas mulheres em um ambiente majoritariamente masculino. “Era sempre essa disputa da melhor imagem, onde você captar”, conta.
Quando vários fotógrafos se concentravam no mesmo ponto para disputar uma imagem, Rosa buscava outra solução.
“Geralmente, homens fortes fechavam aquele cerco para poder conseguir fazer a foto. E ela, como mulher, olhava e falava ‘não vou entrar aí, eu vou encontrar um outro ângulo, um outro lugar para poder tirar essa foto’. E daí, essas alternativas de caminhos e de olhar que posicionavam ela a fazer as fotos que ela fez”, recorda Camila.
Encontrar outro ângulo acabou se tornando mais do que uma solução prática. Também ajuda a compreender o olhar que Rosa levou para o fotojornalismo.
“São esses outros caminhos. A gente não precisa ir todo mundo para o mesmo lugar e fazer a mesma coisa. A gente tem outras direções, outros caminhos, outras formas de enxergar o mundo. Acho que fala sobre perspectiva mesmo”, resume Camila.
De volta à Vila Euclides
Mais de quatro décadas depois, a Vila Euclides voltará a reunir Lula, trabalhadores e militantes. Neste domingo, 16, às 9h, o Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, será palco do primeiro ato da campanha à reeleição do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Para Mônica, que fotografou aquela multidão ainda adolescente, voltar ao lugar onde tudo aconteceu carrega um significado especial.
“Eu espero realmente que a gente consiga encher o estádio, que seja um momento de início mesmo. Eu acho que, simbolicamente falando, é muito importante estar lá. Foi lá onde ele [Lula] começou”, afirma.
Camila também enxerga no retorno uma oportunidade de transmitir aquela memória às gerações que não viveram as greves.
“Fazer essa retomada da Vila Euclides nesse momento acirrado político que a gente está vivendo é recontar essa história também para as novas gerações, dizer onde tudo começou”, afirma.
Nas décadas de 1970 e 1980, as câmeras apontadas para a Vila Euclides registraram trabalhadores que reivindicavam salários, direitos e liberdade em plena ditadura. Registraram também um jovem líder sindical que, cercado pela multidão, começava a ocupar um lugar central na história política brasileira.
Neste domingo, algumas dessas lentes estarão novamente voltadas para o mesmo gramado. Hélio pretende fazer uma fotografia que converse com aquela que produziu em 1980. Mônica espera reencontrar a Vila Euclides lotada como nas imagens que guarda daquela época. Outros olhares, como o de Rosa, permanecem por meio dos arquivos que deixaram. Nair Benedicto se prepara para “reviver atos potentes” da história política do Brasil.
