(*) Por Eliara Santana
Arlete (*) trabalha num supermercado da região Centro-Sul de Belo Horizonte como caixa. Na véspera de feriado importante, o 1º de Maio, perguntei: “Aqui não funciona amanhã, né?”. Ela respondeu, meio resignada: “Isso aqui funciona todo dia, não para não. A gente para o dia que eles querem, uma vez na semana. Por isso ficam aí, com cartaz chamando pra trabalhar. E ninguém quer”. Arlete tem três filhos, já crescidos; a mãe mora com eles e ajudou a olhar os meninos para ela trabalhar.
Sebastião (*) trabalha como motorista de aplicativo e faz outros “bicos”. É motorista profissional e já trabalhou no transporte público por muito tempo. É ele quem conta: “Dona, a senhora não sabe o que é ser motorista de ônibus, não. Eu já fui e não quero mais. Pagam uma miséria, cortaram os cobradores, a gente trabalha sem folga, e não tem ônibus rodando, anda tudo lotado”.
Esses dois exemplos são reais, apesar dos nomes fictícios. É importante ouvir e conversar com as pessoas que fazem as cidades funcionar para ver o termômetro político e saber das coisas, saber dos perrengues, o que enfrentam de verdade. Dessa vez, a conversa era para saber sobre as condições reais de trabalho em alguns setores da economia que estão sempre com os cartazes “Venha trabalhar com a gente”. Mas ninguém quer. E por que será?
Exatamente porque esses dois setores – supermercados e transporte coletivo – ilustram bem essa escravidão da modernidade que é a escala 6 x 1. Regime em que mães não veem seus filhos crescendo – porque saem de casa de madrugada, eles estão dormindo; chegam tarde em casa, eles estão dormindo. Foi assim com os filhos de Arlete. É também o regime em que a pessoa só tem um dia de folga, trabalhando 40 horas ou mais por semana, e esse dia é determinado pelo patrão. Ou seja, não há possibilidade de marcar aquele fim de semana com a família. Essa foi a realidade do Sebastião.
A escala 6 x 1 é cruel, absurdamente cruel. Ela impacta a saúde física e mental dos trabalhadores, gerando cansaço extremo, distúrbios depressivos, burnout. Ela também afeta, e muito, a vida pessoal: não há espaço decente para o lazer, o descanso, o cuidado com a casa, com os filhos, com os pais idosos, a convivência familiar, o encontro com amigos – tudo isso que faz a vida realmente valer a pena
Ao ouvir Arlete e Sebastião, a gente entende porque a pauta do fim da escala 6 x 1 extrapolou as bolhas e se mantém com muita evidência positiva nas redes, mesmo com as campanhas contrárias e o medo disseminado por empresários, deputados e senadores e pela mídia. Esse tema interpela os cidadãos mostrando que falta qualidade de vida e que deve haver vida além do trabalho. E então, quando a realidade vai ficando evidente, a reação dos empresários que são contra a medida vem forte, apelativa, e eles recorrem ao combo desinformação e pânico.
No âmbito do espaço público/político, apelar aos sentimentos, despertar empatia por uma causa, é do jogo, faz parte da disputa nesse espaço. Mas quando a desinformação entra em cena, nada é razoável, e o que se vê é um discurso construído para gerar pânico e provocar caos.
Boa parte dos empresários, da mídia e de deputados e senadores quer fazer crer que o fim da escala 6 x 1 vai ser o fim do mundo, vai gerar desemprego, inflação, encarecimento de produtos.
Já discutimos aqui neste espaço sobre a manipulação das emoções pelas estratégias de desinformação. Disseminar o pânico é uma delas, e bem eficaz. A confusão em relação a temas sensíveis, de mais difícil compreensão, apela ao medo – legítimo – das pessoas e gera pânico. Esse pânico, quando alimentado de modo recorrente, por campanhas permanentes, é capaz de manipular a opinião pública e até levar a reações coletivas que são prejudiciais à sociedade.
Como enfatiza o professor Patrick Charaudeau, “a força dos argumentos empregados depende mais de sua carga emocional do que de seu rigor lógico”. Com o ambiente digital e a desinformação sistematizada, essa ação ganha contornos muito potentes e produz confusão, gerando a perspectiva de uma desordem social.
Voltando à escala 6 x 1, como o pânico pela desinformação funciona? Todo mundo tem medo de perder o emprego, a fonte de renda, e isso é totalmente legítimo. A desinformação sobre o tema apela fortemente a esse medo com mentiras reforçando que a medida vai gerar desemprego, que os empresários vão “quebrar”, que a renda vai cair. E isso é constantemente alimentado por discursos que circulam pelos vários meios.
No entanto, apesar do poder dessa estratégia de desinformação e das campanhas recorrentes, a força dos argumentos pelo fim da escala 6 x 1 – que podem ser sintetizados na ideia de qualidade de vida – tem se mantido. E essa é uma ótima notícia.

