Partido dos Trabalhadores

Ser mãe solo no Equador

Mulheres da América Latina enfrentam dilemas similares em plena pandemia. Conheça a rotina de Luna Figuero e seu filho Matías ,4, que moram em Quito, capital do Equador. 

O Equador já ultrapassou a marca de 30 mil pessoas contaminada pelo Coronavírus. Ainda em março, o país declarou estado de emergência e ocupou as manchetes internacionais por conta da crise do sistema de saúde e funerário. O governo não conseguia recolher corpos das vítimas que morriam dentro de casa, e os cadáveres se acumulavam pelas ruas de Guayaquil, no sudoeste equatoriano.

Em meio ao estado de calamidade do Covid-19, que gera impactos ainda mais cruéis em países subdesenvolvidos, estão as mulheres de famílias monoparentais que enfrentam não apenas os impactos diretos da quarentena, mas uma sensação ainda maior de isolamento e de vulnerabilidade sócioeconômica. “Tenho amigas que são mães, mas elas têm familiares que moram junto ou perto dela”, relata Luna Figuero, 36, mãe do Matías, de quatro anos. 

Luna é espanhola de nascimento e vive no Equador há mais de vinte anos. Bióloga de formação, ela está desempregada, perdeu a mãe há oito anos e vivia com o pai que agora mora na Espanha. O pai do filho Matías é equatoriano e vive nos Estados Unidos, de modo que a maior parte dos cuidados com a criança fica sob a responsabilidade dela. 

 

Luna Figuero, mãe sola com seu filho Matías, 4, que vivem em um apartamento na cidade de Quito, capital do Equador

 

A bióloga terminou um contrato em fevereiro e tinha planejado procurar emprego a partir de março, pois havia economizado o suficiente para um mês. No entanto, com a pandemia, tudo ficou suspenso e hoje ela não tem formas de sustento sozinha. “Estamos vivendo da ajuda do meu pai, que mora na Espanha, e do pai do meu filho que envia a pensão”, relata. 

A sobrecarga da jornada doméstica e dos cuidados com as crianças, somada à rotina de teletrabalho, também tem sido uma realidade das mulheres equatorianas. “As conversas são sempre pedindo conselhos sobre como organizar trabalho, comida, deveres das crianças, limpeza que estão tudo nas costas das mulheres”, afirma Luna. 

O governo equatoriano, assim como no Brasil, tem implementado políticas de auxílio emergencial para população de baixa renda. No entanto, diferente daqui, não há um olhar específico para as mães solos e famílias monoparentais. Anne Karolynne, secretária nacional de mulheres do PT, reforça a importância das mulheres parlamentares do PT na garantia desse direito para as brasileiras: “As mães solo tem direito a duas cotas do auxílio aqui no Brasil. Essa conquista e esse olhar específico só foi possível graças à atuação das parlamentares do PT e partidos progressistas no Congresso e no Senado”, explica Anne. 

Apesar dessa vantagem em relação ao plano de auxílio do Equador, ambos países enfrentam as mesmas desigualdades e limitações no acesso ao benefício. “Os auxílios são basicamente de alimentos e, para ter acesso, é preciso ter um documento de identidade — que nem todos têm, como os venezuelanos –, acesso à internet, telefone fixo e, ainda por cima, saber utilizar as plataformas digitais”, resume Luna. A bióloga também pontua que os critérios para determinar quem necessita ou não do benefício são poucos transparentes. 

 

ROTINA

Antes do isolamento, Matías ficava na creche das 8h30 às 17h e Luna ia buscá-los de ônibus. Ela trabalhava em um projeto na Universidad Católica de Quito e, a cada 15 dias, Matías visitava seus avós e, com frequência, ele ia aos Estados Unidos para visitar o pai. Dessa forma, ela conseguia um tempo para se distrair. 

 

 

O resumo do cotidiano de Luna é não ter uma constância . Mathías não possui aulas virtuais o dia todo como outras crianças, de modo que para a mãe é difícil estabelecer uma rotina. 

Nas primeiras semanas, a bióloga conseguiu manter o esquema: acordar 9h, se vestir, tomar café, fazer tarefa, brincar, alimentar, ver tevê, fazer exercício, brincar, botar pijama, jantar e dormir. Entretanto, com o passar dos dias, esse esquema foi se modificando. Atualmente, tem dias que eles levantam mais tarde, sobretudo quando a mãe enfrenta noites de insônia.

Ainda assim, ela tenta manter o mínimo de organização com três alimentações por dia, banhos de sol duas vezes por semana, aprender alguma atividade juntos e até cozinhar. 

 

Criança equatoriana, Mathías, 4, brincando de dozinhar.

 

“Hoje, meu filho foi pela primeira vez à casa dos avós desde o confinamento. Foi só por isso que consegui dar essa entrevista, se não não teria conseguido refletir tanto sobre essas respostas”, conta Luna rindo, porém exausta.

 

 

A pequena horta que Luna e Mathías cuidam juntos. Uma estratégia da mãe para entreter a criança em período de isolamento.

ALTOS E BAIXOS A SÓS NO ISOLAMENTO

 

As primeiras semanas foram relativamente tranquilas para a família Figuero, porque eles já estavam acostumados a contar apenas um com o outro. Contudo a passagem dos dias se tornou mais pesada para o pequeno Mathías “Ele pedia para ficar com outras crianças e conhecer ‘crianças novas’”. Essa angústia do filho se refletiu também na saúde mental de Luna que já enfrentava períodos de altos e baixos no humor, por medo de estar contagiada o tempo todo e passar para a criança. 

“No começo, achei que, como estávamos acostumados a ficar só nós dois, tudo ia correr bem. Mas o tempo tem sido muito longo e eu não estava preparada”, reflete a bióloga.

De fato, a pandemia provocou coisas que não estavam no plano de Luna Figuero enquanto mãe. Ela pontua ser uma defensora da ideia de criar filhos independentes e sempre fez questão de fazer o filho se relacionar com diversos tipos de pessoas para que aprendam a conviver com as diferenças e serem tolerantes. “Agora é impossível e temos pouca interação com as pessoas que não sejam eu e ele, ele e o celular”, afirma. 

Mesmo diante das dificuldades, Luna sintetiza os aprendizados que a pandemia tem trazido para a maternidade. “Tenho mais claro que nunca a importância da mudança das práticas de consumo e a valorização das relações sociais para mim e para o futuro do meu filho”, finaliza.