Por Pedro Uczai (*)
“Neste ano, o 1º de Maio — Dia Internacional dos Trabalhadores e das Trabalhadoras — adquiriu um significado mais profundo para a classe trabalhadora brasileira. Pela primeira vez em muitos anos, a pauta do Congresso Nacional inclui uma proposta que pode transformar radicalmente a vida de milhões de brasileiros: o fim da escala 6×1, com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, mantendo-se a integralidade dos salários. Mais do que uma medida econômica, trata-se de uma decisão ética e civilizatória.
O mundo já percebeu, há décadas, que longas jornadas de trabalho são contraproducentes. Não funcionam para o trabalhador, que adoece; não funcionam para a economia, que se torna menos produtiva; não funcionam para a sociedade, que vê o tecido familiar e comunitário se desgastar. É preciso repetir: tempo para viver não é luxo — é necessidade humana fundamental. O equilíbrio entre trabalho e vida não é pauta de países ricos apenas; é direito de toda pessoa que sustenta nosso país com o seu suor.
A origem do 1º de maio está no levante operário de Chicago, em 1886, quando trabalhadores enfrentaram repressão brutal para exigir a redução da jornada de 14 horas para 8 horas diárias. Passados 140 anos, com todo o avanço tecnológico, robôs, inteligência artificial e automação, os assalariados ainda lutam pela mesma bandeira: tempo para descanso, lazer, qualidade de vida e convivência familiar, sem redução salarial. A permanência do problema não é acidental — revela a resistência estrutural do capital em compartilhar os ganhos de produtividade com quem efetivamente produz.
A proposta de fim da escala 6×1, encaminhada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é prioridade da Bancada do PT e da base aliada. Além do projeto do governo, tramita no Congresso uma Proposta de Emenda Constitucional principal, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Ambas as iniciativas objetivam garantir vida além do trabalho para milhões de brasileiras e brasileiros — sobretudo aqueles com menor qualificação formal, justamente os mais submetidos à exaustão da escala 6×1.
A escala 6×1 é um regime que sacrifica a saúde e o bem-estar da classe trabalhadora. As evidências são contundentes: longas jornadas aumentam o adoecimento físico e mental, elevam os custos com acidentes de trabalho e agravam o sofrimento causado por longos deslocamentos entre casa e trabalho. A quantidade de horas dedicadas ao trabalho é causa direta do quadro geral de saúde individual e coletiva.
O Brasil é o segundo país com mais casos diagnosticados de estresse no mundo, segundo a ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil): 72% dos brasileiros estão estressados no trabalho. Em 2022, mais de 209 mil trabalhadores foram afastados por problemas de saúde mental (CESIT, 2024). Isso sem contar os efeitos físicos: segundo a OMS e a OIT, jornadas longas aumentam o risco de doença cardíaca isquêmica e acidentes fatais. Reduzir a jornada significa, portanto, reduzir demanda e custos em saúde pública. É economia, sim — mas, antes de tudo, é vida.
O cenário da segurança ocupacional no Brasil atingiu um patamar crítico em 2025, registrando o recorde histórico de 806.011 acidentes e 3.644 óbitos, conforme dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT). No acumulado da última década foram 6,4 milhões de acidentes com 27.486 mortes. Tais índices não são meras fatalidades isoladas; eles podem refletir algumas estruturas organizacionais precarizadas, onde jornadas de trabalho exaustivas e o estresse laboral crônico comprometem o estado cognitivo e físico do trabalhador.
A fadiga acumulada reduz drasticamente os reflexos e a percepção de risco, transformando ambientes laborais em cenários propícios a negligências involuntárias e falhas de segurança que, como demonstram as estatísticas do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), têm cobrado um preço humano e econômico insustentável para o país.
Com a mecanização, a automação e a incorporação de novas tecnologias e inteligência digital, a capacidade produtiva em diversos setores econômicos disparou. A lucratividade aumentou. No entanto, a participação humana — imprescindível e muitas vezes especializada — foi excluída da compensação justa pelos ganhos extraordinários de produtividade. É exatamente nessa lacuna de redistribuição que se insere o debate sobre a redução da jornada.
Os opositores à mudança recorrem ao velho argumento do “custo do emprego no Brasil”. Dizem que reduzir a jornada sem cortar salários inviabilizaria a folha de pagamentos. Mas esse argumento não resiste aos dados. O custo do trabalho brasileiro não é excessivo quando comparado ao de países com melhores condições de dignidade laboral.
A Organização das Nações Unidas (ONU) documenta experiências bem-sucedidas com jornadas reduzidas — em alguns casos, cerca de 32 horas semanais. Países como Holanda, Bélgica, Dinamarca e Alemanha já testam ou consolidaram modelos de trabalho com menos horas e mais qualidade de vida. O Chile, em 2023, aprovou lei que reduz a jornada semanal de 45 horas para 40 horas, de forma gradual. O México também aprovou redução da jornada de 48 horas para 40 horas semanais.
Além disso, levantamento do DIEESE mostra que a redução para 40 horas semanais, sem corte salarial, tem potencial de gerar cerca de 3,6 milhões de novos postos de trabalho — número compatível com a atual subutilização da força de trabalho no país. E mais: diversos estudos nacionais e internacionais apontam aumento de produtividade e lucratividade em categorias que adotam jornadas mais curtas, com trabalhadores mais motivados, concentrados e atentos.
O Brasil ocupa a 7ª posição entre as maiores jornadas de trabalho do G20. Treze países do grupo apresentam jornada média menor que a brasileira. A organização global “4 Day Week” revelou, em novembro de 2024, que 73% das empresas que testaram o modelo de redução da jornada decidiram mantê-lo, diante da estabilidade total da receita e dos lucros.
A evolução tecnológica trouxe aumento extraordinário da produtividade — sem o justo compartilhamento dos ganhos dela decorrentes com quem efetivamente trabalha. Chegou a hora de o Brasil se modernizar e fazer avançar sua legislação. Não se pode tratar esse assunto como tabu. Defender o fim da escala 6×1 é defender que a vida não se esgota no trabalho. É defender que trabalhar não é sinônimo de sobreviver. É defender o 1º de Maio em sua essência mais original: a luta por tempo para viver.”
(*) Deputado federal (PT-SC) e líder da Bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados

