Partido dos Trabalhadores

À CPMI, Tonia Galleti confirma que faz denúncias sobre fraudes desde 2019

Em depoimento nesta 2a feira (20), coordenadora jurídica do Sindnapi alerta que entidades surgiam “na calada da noite” sem sócios reais

Waldemir Barreto/Agência Senado

“Tem jabuti na árvore”, afirmou Galetti (à direita) à CPMI

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS ouviu nesta segunda-feira (20) Tonia Andrea Inocentini Galleti, ex-integrante do Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) e coordenadora jurídica do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi). Ela confirmou que, desde o governo Bolsonaro, avisava às autoridades sobre fraudes em descontos associativos de aposentados e pensionistas, mas que nada foi feito.

“Eu já estava alertando desde 2019 essas ocorrências. Em todas as oportunidades, podia ser em qualquer lugar: em reunião com o diretor de benefícios, presidente do INSS, com Ministério do Trabalho, da Previdência, onde eu tinha oportunidade eu dizia: ‘olha, como dizia Tancredo Neves, tem jabuti na árvore’”, afirmou durante seu depoimento.

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Como surgiram as denúncias

Segundo Tonia, as irregularidades vieram à tona a partir de reclamações de associados do sindicato. Alguns aposentados descobriram que haviam sido filiados a outras entidades sem consentimento, mesmo utilizando serviços do Sindnapi, como descontos em farmácias. “Teve até diretor que deixou de ser sócio e foi para uma associação desconhecida e ele não assinou nada”, relatou.

Ela também explicou que solicitou a inclusão da discussão sobre os descontos associativos em reunião do Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS), mas o tema nunca chegou a ser debatido. Desde 2019, os descontos automáticos em folha cresceram 77 vezes, passando de 18.690 para 1,4 milhão de beneficiários.

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Crescimento do Sindnapi

Galleti destacou que o crescimento do Sindnapi foi transparente, fruto de trabalho e planejamento estratégico. “O sindicato vive de mensalidade associativa, nunca fraudou fichas ou documentos de aposentados ou de pensionistas para ter esses sócios”.

Ela também destacou a diferença entre o Sindnapi e outras entidades que surgiam rapidamente e registravam milhares de associados em poucos meses, muitas vezes sem estrutura ou serviço consistente. “Apareciam do nada, registravam 80 mil sócios em um mês e depois paravam. No Sindnapi, associar alguém exige trabalho: você precisa conversar, mostrar serviço, convencer a pessoa”, explicou.

Alertas ignorados pelo governo anterior

Tonia Galleti afirmou que relatou as fraudes ao então diretor de benefícios do INSS de Bolsonaro, José Carlos Oliveira, que depois virou ministro do mesmo governo. Também fez alertas ao Ministério da Previdência, ao Ministério do Trabalho e ao próprio Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS). 

A coordenadora jurídica do Sindnapi detalhou a expansão irregular de associações: “Eu lembro a época que eu falei com o diretor de benefícios, Oliveira […] essas entidades, outras que surgiram assim na calada da noite, elas tinham, por exemplo, zero sócios agora em outubro, quando chegava novembro ela tinha 80 mil sócios”.

Quando questionada pelo deputado Alencar Santana (SP) se o governo Bolsonaro havia feito algo para dificultar ou investigar os desvios, Tonia foi direta: “Que eu me recorde, não”.

Em entrevista, o deputado Paulo Pimenta (RS) destacou que o escândalo está intimamente relacionado ao governo anterior. “Hoje nós chegamos no núcleo bolsonarista do esquema do INSS. Outras entidades participaram diretamente desse roubo, com a proteção do bolsonarismo”, declarou.

Segundo a CPMI, um dos operadores do esquema, Felipe Macedo Gomes, presidente da entidade Amar Brasil, movimentou R$ 1,1 bilhão entre 2022 e 2024. A associação, segundo a investigação, cobrava até 2,5% dos benefícios sem autorização expressa dos segurados.

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Ao falar à imprensa, o senador Randolfe Rodrigues (AP) ressaltou a atitude do governo Lula. “Essa investigação só ocorreu porque a CGU desse governo e a Polícia Federal desse governo conduziram as investigações e desbarataram o esquema.”

Bolsonaro foi conivente, Lula investigou

O alerta constante de Tonia Galleti, ignorado por anos, indica mais do que omissão, revela conivência do governo Bolsonaro no esquema de desvios que lesaram milhões de aposentados e pensionistas. 

A intervenção do governo Lula e das instituições de fiscalização interrompeu essas práticas e protegeu os beneficiários vulneráveis. É isso que a CPMI vem mostrando, de forma clara, a cada depoimento.

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Da Redação