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‘A desinformação na disputa pelo resgate dos símbolos nacionais’

(*) Por Eliara Santana

“Com a chegada da Copa do Mundo de Futebol e para fugir da repercussão da queda constante nas pesquisas de intenção de voto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recolocou em cena uma disputa simbólica para estar sob os holofotes. Reiteradamente, ele tem criticado o presidente Lula e os petistas em geral pelo uso da camisa verde e amarela da seleção brasileira.

Às vésperas da estreia da seleção na Copa, no último dia 13 de junho, o senador divulgou um vídeo em que afirma que o presidente Lula e o PT  “usam o verde e amarelo apenas nos momentos de eleição e Copa do Mundo”, enquanto os bolsonaristas “vestem essa camisa a vida inteira”, tentando mostrar a apropriação simbólica de elementos que nos definem como Nação. Nada mais fake, obviamente, mas estamos diante de disputas simbólicas muito importantes que ensejam imaginários sociocoletivos e o importantíssimo sentimento de pertencimento.  

Nós somos seres simbólicos, produzimos significado a partir da linguagem, das representações, e esse conjunto constitui a existência do sujeito. Os símbolos são também elementos fundamentais de pertencimento. Quando simbolizamos, fazemos mais do que simplesmente nomear objetos ou vivências, nós construímos interpretações. 

Portanto, a construção simbólica integra totalmente os imaginários sociopolíticos, sobretudo num mundo que é midiático e cuja compreensão é midiatizada. Nesse contexto, a Copa do Mundo é aquele momento em que o apelo à simbologia nacional, com as cores, a bandeira, é fortalecido e ganha enorme adesão porque constrói e fortalece o sentimento de pertencimento a algo grande além do nosso entorno. 

No processo de simbolizar, os elementos, os signos, ganham uma multiplicidade de sentidos, e quem controla esse imaginário de algum modo – seja pela conquista dos corações desalinhados, seja pela adesão, seja pelo ódio contra o suposto inimigo – controla as percepções em relação a determinados aspectos.

Voltando ao tema da Copa,  o conjunto simbólico que representa nosso país – bandeira nacional, cores, músicas  – confere um lugar de pertença, vincula, exalta ânimos, empolga, anima. E exatamente por isso, durante muito tempo, a extrema direita bolsonarista tentou sequestrar essa simbologia e se apropriar dos símbolos nacionais, bem a exemplo do que fizeram o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini. E nesse movimento, o bolsonarismo conseguiu impor o ódio contra os supostos inimigos, mesmo em relação a um tema que nos unia como país. 

E agora, novamente no momento da Copa do Mundo em ano eleitoral, a estratégia de apropriação dos símbolos nacionais volta com força. Mas, ao que parece, dessa vez o campo progressista reage à altura do sequestro. 

 Nesse contexto de disputa simbólica, chamou minha atenção essa manchete no jornal Folha de S. Paulo: 

Segundo a reportagem, “se as dúvidas atormentam o técnico Carlo Ancelotti, o presidente Lula (PT) não titubeou e entrou em campo. Na nova campanha publicitária do PT, ele se apresenta como um jogador que defende a soberania nacional. Por extensão, tenta se apropriar das cores verde e amarelo, que se tornaram distintivas do bolsonarismo”. 

Prestem atenção às construções “Lula tenta tirar” e “tenta se apropriar” numa referência às cores verde e amarelo. Quero apontar o equívoco no texto, porque as cores não são e nunca foram do bolsonarismo – a corrente é que sequestrou esse imaginário simbólico e se apropriou dele para difundir a ideia (falsa) de patriotismo. O campo progressista, agora, quer resgatar esses símbolos, não apenas “se apropriar” de algo. Afinal, os símbolos são nacionais, e não do bolsonarismo. 

A construção de sentidos potencializa narrativas, e foi isso o que o bolsonarismo fez e que deu certo por determinado tempo. O que se impunha era o modo como eles apresentavam a ideia “somos patriotas”. No entanto, o discurso precisa, no decorrer do tempo, de lastro, e se eu uso cores e falo em ser patriota, mas “vendo” o país e entrego um patrimônio como o Pix em troca de apoio eleitoral, a ideia fake de patriotismo se desnuda exatamente como isso: uma ideia fake.

E é nessa situação em que se encontra Flávio Bolsonaro no momento. Por isso, mesmo com toda a verborragia bolsonarista, o que vai se impondo de fato é a ideia de que quem “joga pelo Brasil” é o presidente Lula.

Presidente Lula com a camisa da seleção brasileira.Foto: Ricardo Stuckert

A disputa simbólica enseja a disputa por valores num mundo que está caótico. Essa identificação nos vincula, nos faz construir pertencimento e, por isso, a simbologia é forte. Ela é uma ponte para construção dos sentidos, para pertencimento, para explicação da vida. E por isso a extrema direita no Brasil se agarra a símbolos para ocultar o entreguismo e a falta de interesse verdadeiramente público e patriótico.

Apropriam-se de cores e símbolos, mas agem verdadeiramente contra o país: o ex-deputado Eduardo Bolsonaro mora nos EUA e, de lá, articulou no ano passado o tarifaço imposto ao Brasil pelo presidente americano, Donald Trump, apenas para retaliar o governo Lula – e, no dia 16 de junho, foi condenado pelo STF  por tramar contra o próprio país. Flávio Bolsonaro viajou aos EUA e o que conseguiu foi o anúncio de um novo tarifaço contra o Brasil e com possíveis retaliações ao Pix.

A verborragia em verde amarelo, sem lastro, parece que não está adiantando mais, como têm sinalizado as pesquisas de opinião. 

E como sempre nos lembra Orwell, no livro 1984, “se os fatos atestam algo, então, é preciso alterar os fatos”. Portanto, trocando em miúdos, quando Flávio usa a Copa do Mundo e ostensivamente insulta Lula, petistas, progressistas por usarem a camisa verde e amarela, ele está chamando para a briga porque sabe que perdeu terreno simbólico e a verdade se impôs: o bolsonarismo é entreguista e nada tem de patriótico.

No momento em que Flávio tenta resgatar a narrativa de que eles são os patriotas, isso se desfaz porque ela não está respaldada pelos acontecimentos, que acabam revelando o contrário: a contranarrativa do governo federal e do presidente Lula, que entra em campo e defende o Brasil. Afinal, o governo conseguiu construir a percepção de que patriota de verdade é quem defende o Pix. E essa é, sem dúvida, uma narrativa imensamente mais forte porque tem respaldo na realidade. 

Por fim, esgotada a exploração dos símbolos tradicionalmente nacionais – a bandeira e as cores verde e amarelo –, Flávio Bolsonaro, que, aos poucos, vai voltando a ser Flávio sem sobrenome na imprensa, avança com apetite sobre um signo que se tornou símbolo nacional de inclusão: o programa Bolsa Família. Em entrevistas recentes, ele até ensaia defender o programa, diz que vai mantê-lo e “aprimorá-lo” e que a iniciativa não pode ser criticada. 

Mas, como já estamos comprovando, discurso vazio não fica em pé.”  

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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