Nada de novo no front da desigualdade de gênero. Mas isso faz ressoar uma reflexão que há tempos me consome sobre os caminhos para colocar a maternidade na centralidade da agenda política brasileira.
Via de regra, a maternidade como centralidade é vista com receio pela maior parte do movimento feminista. No entanto a realidade atropela, afasta as mulheres dos debates e as faz olharem para a “vida no lar”, as tradwives, como uma saída até razoável para a exaustão. Sabemos que não é uma alternativa, nunca houve essa época de ouro, é uma idealização (e vou poupá-las de descrever as razões, porque seria outro texto) e esse fenômeno não é “culpa do feminismo”, embora não exista espaço vazio na política. Se ninguém fala, alguém ocupa.
O fato é que ao se furtar, em pleno século 21, pós pandemia global, de colocar a maternidade na centralidade, o campo da esquerda joga essas mulheres para o colo da direita — que dá a saída “fácil”, mas da qual ele não se propõe a dar nenhuma. E, pasmem, mãe não é nicho. Hoje, 75% das mulheres brasileiras são mães.
Isso acontece porque o campo da esquerda, historicamente, não se propõe a se debruçar sobre essas questões de forma integrada. As pautas são diluídas como demandas do mundo do trabalho (licença-maternidade, paternidade, tentar não ser demitida na volta); da violência (tenta sobreviver ao parto); da educação (bota na creche e vai ser feliz); da cultura. E fim. Não existe um esforço de elaboração política geral (quiçá de políticas públicas) centrada na maternidade em si.
A pauta da Política de Cuidados (recente no país, com uma política nacional aprovada neste ano) é um avanço, passa pela maternidade, mas não se centra nela. Essa política tem outros infinitos méritos, é necessária, importante, estratégica, sobretudo para mulheres, mas não é sobre isso que estou falando.
Porque esse receio de centrar na maternidade não é por acaso.
O feminismo ensina a desviar das armadilhas do patriarcado, olhando e honrando quem veio antes de nós. Por exemplo, uma das lutas feministas da Constituinte de 1988 relacionadas ao SUS era garantir o atendimento integral das mulheres, independentemente de sua função reprodutiva.
Antes, só havia o conceito de hospital e atendimento “materno-infantil”, como se ser mãe fosse condição indissociável de ser mulher. Garantir que a mulher fosse vista e reconhecida como sujeito político de direito, independente de sua capacidade reprodutiva era estratégico para garantia de direitos. E as feministas estavam absolutamente corretas. Tivemos avanços indiscutíveis e só estamos aqui, neste ponto da história, porque elas assim o fizeram, na busca de romper com esse instrumento de dominação patriarcal.
A função reprodutiva da mulher, historicamente, foi e tem sido utilizada como mecanismo de controle, imposição e subjugação das próprias mulheres. É sobre o solo dessa perspectiva patriarcal que a direita conservadora centraliza o conceito de maternidade — dando ares de romance e idealização, enquanto cerceia toda possibilidade de autonomia e garantia de direitos.
E mesmo hoje, parece que esta é a única forma possível de conceituar maternidade: a mãezinha, pura, casta, devota, predestinada, instintiva. Portanto fazia todo sentido haver um esforço racional em dissociar esses papéis — mulher e mãe — para ampliar a pluralidade dos papéis que as mulheres podem e querem desempenhar na sociedade, independente de suas escolhas sobre ter ou não ter filhos.
Porém o plot-twist carpado é que as mulheres continuam sendo mães, escolhendo ser mães (e não escolhendo também); e são elas quem garantem a reprodução social e da vida enquanto o ultraliberalismo corrói nossas bases sociais e humanas mais profundas.
As respostas progressistas minimamente mais elaboradas dão conta de organizar a vida da mulher para que ela volte a ser explorada no mercado de trabalho e coloque o filho na creche. Tudo isso diluído em caixinhas do mundo do trabalho, da educação, e de pautar na opinião pública o hercúleo esforço de divisão de tarefas e de legislação para que o genitor cumpra obrigações mínimas. E isso já uma enorme luta, batalha permanente, incansável.
Ainda assim, avalio que passou da hora do campo progressista e de esquerda dar conta de elaborar e pautar a centralidade da maternidade, desviando das armadilhas do patriarcado, mesmo sem grandes certezas ou construções prontas. Porque no la tenemos, yo tampoco.
Para isso, proponho começar com algumas perguntas:
- É possível construir nesta sociedade uma maternidade emancipadora?
- Como fazer da maternidade uma ferramenta de emancipação das mulheres?
- Que mundo queremos construir ao lado das mães?
Reconheço que avançar nessas respostas exige de nós não só o conhecimento das políticas públicas existentes, ou de mecanismos orçamentários para fazer o giro executivo, mas aquilo que há muito tem faltado em nosso campo: sonhar com a condição de crer em nosso sonho.
(*) Jornalista e especialista em política pública para igualdade de gênero. Pós-graduada em Gestão Pública, foi relatora do GT de Transição (2022) da pasta de Mulheres; Coordenadora-Geral de Autonomia Econômica e Combate à Fome e à Pobreza, no Ministério das Mulheres. Trabalhou na Prefeitura de São Paulo de 2013 a 2020, nas Secretarias de Comunicação, Relações Internacionais, Saúde e Inovação e Tecnologia, coordenando projetos de comunicação e inovação em todas as áreas. É autora do livro “Querido Diário da República”, lançado em 2019. E atualmente é coordenadora de formação política para mulheres da Fundação Perseu Abramo.

