Por Eliara Santana (*)
Um tema conhecido e polêmico que fez sucesso no passado para mobilizar seguidores e adeptos. Uma “mistura” de fatos com mentiras. Uma audiência qualificada e de fora do país para garantir repercussão. Um assunto que chama atenção e leva a imprensa a “checar”, de novo, a veracidade das informações. Uma voz de autoridade, num momento contextual turbulento, para dar “credibilidade” ao que se diz.
Esses são elementos de uma “receitinha” já conhecida de como colocar um assunto que não procede e é falso em evidência novamente. E ela foi testada recentemente – com sucesso – pelo senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência da República.
Num evento com diplomatas, ele disse, sobre as urnas eletrônicas: “Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa”.
A empresa em questão é a Smartmatic, e o senador afirmou que um relatório da CIA mostra que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012, “apontando a possibilidade de vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação”.
Todas as afirmações já foram desmentidas há muito tempo: em 2020, o TSE desmentiu que utilizava urnas eletrônicas da empresa; em 2022, teve de desmentir novamente; e agora, em 2026, novo desmentido sobre o mesmo assunto.
A poucos meses da eleição, o que parece repetição sem sentido é, na verdade, método, cálculo no quadro da desinformação eleitoral. A avalanche de desinformação que envolve o processo eleitoral no país, de modo geral, e as urnas eletrônicas brasileiras, de modo mais específico, pode ser observada com mais força e frequência desde 2018, com um aperfeiçoamento consistente a cada ano eleitoral.
Para refrescar a memória, vamos a algumas lembranças:
16 de setembro de 2018:
Era um dia de domingo, e Jair Bolsonaro, então candidato à presidência da República, estava no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, se recuperando da facada sofrida durante um evento em Juiz de Fora-MG. Do seu leito, ele fez uma transmissão ao vivo pelo Facebook e insinuou, como quem não quer nada, que as urnas brasileiras poderiam ser fraudadas. Faltavam poucos dias para o primeiro turno.
Ele disse, na transmissão: “A grande preocupação não é perder no voto, é perder na fraude. Então, essa possibilidade de fraude no segundo turno, talvez no primeiro, é concreta”. Dois dias depois dessa declaração, começou a circular massivamente a narrativa mentirosa de que o TSE havia entregado o código-fonte (de segurança) das urnas eletrônicas brasileiras para uma empresa venezuelana – isso viralizou, tendo repercussão em vários meios e a reprodução mantida pelos portais alinhados, como mostra a ilustração. A empresa era britânica, e a licitação mencionada foi cancelada.
29 de setembro de 2018:
Jair Bolsonaro, diretamente do avião que o levava de volta ao Rio de Janeiro depois de sair do hospital, falou em entrevista exclusiva ao Jornal Nacional, ao vivo e para milhares de telespectadores, que se ele não ganhasse as eleições seria por causa de fraude nas urnas eletrônicas.
7 de outubro de 2018:
Dia da votação em primeiro turno. Um vídeo mostrando uma urna eletrônica que “completava” votos para Fernando Haddad tomou conta das redes sociais. E a postagem foi compartilhada por Flávio Bolsonaro, que era então candidato ao Senado pelo PSL do Rio de Janeiro. O vídeo foi desmentido pela Justiça Eleitoral antes do encerramento da votação, mas o estrago já estava feito.
18 de julho de 2022:
O então presidente Jair Bolsonaro reúne embaixadores de vários países, no Palácio da Alvorada, para, mais uma vez, repetir mentiras e divulgar dados falsos sobre as urnas eletrônicas e o processo eleitoral brasileiro. Na ocasião, ele também falou que o voto “auditável” era mais confiável.
Como já discutimos neste espaço, as estratégias da desinformação eleitoral criam confusão na percepção do eleitor sobre o processo em si, alteram a percepção do público em relação à transparência dos funcionários eleitorais, lançam dúvidas sobre a imparcialidade do processo eleitoral e a exatidão dos resultados eleitorais e geram desconfiança dos eleitores, levando à não aceitação dos resultados das eleições.
Passado, presente, futuro
No caso recente da crítica às urnas pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nesta eleição de 2026 no Brasil, os vínculos com declarações passadas de membros da família são evidentes, e há elementos que se repetem e são relevantes, como: uma chamada permanente à mobilização dos apoiadores quando tudo está turvo, um tema que permanece forte há muitas eleições, insinuações que plantam, fortemente, a dúvida –portanto, é o que podemos chamar de uma receita de sucesso que, infelizmente, captura a atenção de todos e induz as pessoas a questionamentos.
Em 2024, no âmbito das eleições municipais, pesquisa realizada pelo Instituto DataSenado e divulgada pela Agência Senado mostrou que 81% dos brasileiros achavam que as notícias falsas podiam afetar significativamente o resultado eleitoral.
Segundo o levantamento, 72% dos entrevistados disseram que haviam tido contato com notícias falsas nas redes sociais. A maioria das pessoas, quando questionada, diz realmente que já teve contato com notícias falsas, com mentiras, e mostra preocupação com a interferência nas eleições. Mas, nesse sentido, o problema é que, em relação a determinados temas – como a questão das urnas eletrônicas –, nós não temos uma compreensão total sobre o funcionamento, e fica muito difícil identificar quando se trata de uma mentira, ou distorção, ou falseamento.
Ou seja, mesmo que aquele eleitor desconfie que há mentiras circulando e que as famosas fake news estão por ali, rondando, em relação a determinados temas mais complexos, as dúvidas podem ser, e são, incutidas. Porque, observem bem o teor das declarações, trata-se de um modus operandi: a afirmação é dita não como afirmação categórica – “as urnas são fraudadas” –, mas como insinuação – “as urnas ‘podem’ ser fraudadas, vamos prestar atenção”.
A partir dessas discussões, trago aqui um breve esquema tomando o tema trazido à cena novamente, agora pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro, para pensarmos a efetividade dessa estratégia e compreendermos esse fluxo de desinformação, mesmo com um assunto requentado.
Tema geral: a fraude nas urnas eletrônicas.
Quem anuncia: uma voz de autoridade, um senador, candidato à presidência da República (não é a tia do zap, portanto, é um assunto que merece atenção)
Cenário de divulgação: um encontro oficial com diplomatas em Brasília-DF (não é ume conto no bar da esquina)
A dúvida incutida: “pode ser que haja fraude, é um sistema novo, então, seria bom termos observadores nas eleições”
Alinhamento contextual: a fala de Flávio Bolsonaro se vincula a uma fala já bastante repercutida de seu pai, Jair Bolsonaro, em outros contextos e, mais recentemente, está em consonância com falas reiteradas do presidente dos EUA, Donald Trump
Fluxo da desinformação: o tema é rapidamente espalhado pelos canais alinhados, nas redes sociais, é disseminado por todas as plataformas e ganha audiência também por meio da mídia tradicional, que é levada a repercutir aquela fake news, e pelas instituições, como o TSE, que têm de desmentir, de novo, a mentira.
Dessa forma, o assunto “polêmico” envolve atores relevantes no debate e se impõe – a imprensa está há quase uma semana discutindo a fala do pré-candidato, sua vinculação às falas do pai, o que isso significa, etc.
Ou seja, a partir de uma inverdade cria-se uma notícia que não sai do circuito midiático e que mobiliza, inclusive, checadores para checar, novamente, algo que já foi checado e desmentido no passado.
O que prevalece é o foco na dúvida, e mesmo nas reportagens da grande imprensa, o tom é esse, o destaque é a dúvida, mesmo para rebater o que foi dito – não há reportagens positivas para apenas informar sobre o processo das urnas eletrônicas, como ele vigora com sucesso no Brasil há tantos anos.
O ator divulgador consegue criar então, uma cortina de fumaça para esconder temas reais que estão na ordem do dia deste processo eleitoral, como escândalos e denúncias que rondam o candidato, e desviar o foco de discussões que são importantes.
E o Brasil, que deveria discutir temas essenciais para um projeto de Nação às vésperas de uma eleição, como combate à fome, e festejar o fato de que conseguiu reduzir a insegurança alimentar, segue mobilizado para discutir uma mentira que já foi desmentida várias vezes.

