O Sistema Único de Saúde (SUS) vive uma das maiores mobilizações de sua história recente para enfrentar a demora por atendimentos especializados gratuitos e de qualidade. Lançado pelo Governo Lula e coordenado pelo Ministério da Saúde, o programa Agora Tem Especialistas foi pensado para reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias na rede pública, reorganizando os atendimentos em todo o país.
A iniciativa reúne uma série de ações articuladas entre União, estados e municípios para ampliar a capacidade de atendimento especializado, especialmente em regiões historicamente desassistidas. A proposta combina a expansão da rede pública com a contratação complementar da rede privada, uso intensivo de telessaúde, mutirões, carretas de saúde e fortalecimento da atenção básica. Recentemente, o Governo Federal divulgou novidades da iniciativa, como investimentos para suprir a demanda por medicamentos para o tratamento do câncer na saúde pública.
Segundo o Ministério da Saúde, o programa nasceu como resposta ao crescimento das filas durante a pandemia, período em que consultas especializadas foram adiadas, exames deixaram de ser realizados e milhares de cirurgias eletivas foram suspensas. O resultado foi o agravamento dos doentes, diagnósticos tardios e o aumento do sofrimento da população que depende exclusivamente do SUS.
Uma estratégia nacional para destravar as filas
Instituído oficialmente em outubro de 2025, o Agora Tem Especialistas tem validade até 2030 e atua principalmente em seis especialidades que concentram grande parte das demandas com as maiores esperas no SUS: oftalmologia, ortopedia, cardiologia, otorrinolaringologia, ginecologia e oncologia. Na cartilha sobre o programa, publicada pelo Ministério da Saúde no início do ano, o lema “atendimento especializado não pode ser privilégio, tem que ser direito” sumariza os esforços da iniciativa.
A lógica do programa é reorganizar toda a jornada do paciente. Em vez de o usuário esperar meses entre consulta, exame, diagnóstico e cirurgia, o governo busca integrar essas etapas em “combos de cuidado”, acelerando o fluxo de atendimento e reduzindo burocracias. Na prática, isso significa ampliar horários de atendimento, aumentar o número de serviços credenciados, incorporar mais profissionais e utilizar tecnologias para reduzir gargalos históricos do sistema público.
Os primeiros resultados já aparecem. De acordo com a pasta, o SUS alcançou em 2025 o marco histórico de 14,9 milhões de cirurgias eletivas realizadas. Além disso, mais de 1.700 municípios já receberam atendimentos das Carretas da Saúde — uma das ações que compõe o Agora Tem Especialistas — , que atuaram em três frentes: Saúde da Mulher, Oftalmologia e Exames de Imagem.
Parceria entre SUS e rede privada
Um dos eixos centrais do programa é o uso complementar da rede privada para acelerar atendimentos especializados. Hospitais, clínicas e operadoras privadas podem ofertar consultas, exames e cirurgias ao SUS em troca de negociação de dívidas tributárias com a Receita Federal e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
O Ministério da Saúde enfatiza que os atendimentos seguem totalmente gratuitos e regulados pelo SUS.
A comparação feita pelo governo é com o ProUni. Assim como o programa do Ministério da Educação utilizou a estrutura privada para ampliar o acesso às universidades, o Agora Tem Especialistas busca usar a capacidade instalada de hospitais e clínicas particulares para ampliar o acesso da população ao cuidado especializado, diminuindo, assim, a fila de espera para atendimentos na rede pública.
Um dos hospitais parceiros do programa é a Santa Casa de Porto Alegre. Segundo a assessoria da rede filantrópica, a instituição realiza consultas, exames e diagnósticos pelo SUS em seis especialidades: urologia, mastologia, ginecologia, ortopedia, cardiologia e oftalmologia. Conveniada ao programa Agora Tem Especialistas desde julho de 2025, a Santa Casa já contabiliza 2.494 consultas e mais de 1,9 mil procedimentos realizados por meio da parceria.
Em nota, a assessoria de imprensa do hospital afirmou que o programa “se consolida como uma política pública estruturante para fortalecer o SUS, ampliar o acesso à atenção especializada e otimizar o uso da rede hospitalar existente”.
“A procura tem sido bastante expressiva, refletindo a demanda por atendimento especializado no SUS, e vem sendo absorvida por meio de uma resposta assistencial estruturada, com ampliação da capacidade de atendimento e organização dos fluxos”, ressaltou a direção do hospital.
Os 10 passos para reduzir o tempo de espera
O programa foi estruturado em dez frentes consideradas estratégicas pelo Ministério da Saúde para destravar consultas, exames e cirurgias no SUS.
- Atendimento complementar: A União atua de forma complementar aos estados e municípios na média e alta complexidade, ampliando vagas e horários sem retirar responsabilidades das gestões locais.
- Ampliação dos horários de atendimento: Hospitais e serviços passam a funcionar também à noite, nos horários de almoço e aos finais de semana, além da realização de mutirões regionais e nacionais.
- Integração entre SUS e rede privada: Hospitais privados passam a realizar atendimentos regulados pelo SUS, ampliando rapidamente a capacidade instalada disponível para consultas, exames e cirurgias.
- Avanço da telessaúde: Teleconsultas, telediagnósticos e emissão remota de laudos permitem que especialistas atendam pacientes à distância, inclusive em regiões remotas.
- Super Centro do Câncer: O programa criou uma rede nacional integrada para acelerar diagnósticos oncológicos. A meta é emitir laudos em até cinco dias, com capacidade para 360 mil exames por ano, em parceria com o Instituto Nacional de Câncer e o A.C. Camargo Cancer Center.
- Formação de especialistas: O governo ampliou vagas de residência médica e multiprofissional, além de criar estratégias emergenciais para fixar profissionais em regiões com escassez de especialistas. Segundo o Ministério da Saúde, o programa conta atualmente com 1.350 profissionais ativos distribuídos em 318 municípios brasileiros.
- SUS em Movimento: As Carretas da Saúde levam consultas, exames e cirurgias para áreas remotas, comunidades ribeirinhas, territórios indígenas e municípios sem estrutura especializada.
- Transporte sanitário: O programa fortaleceu o transporte sanitário para garantir que pacientes consigam chegar a consultas, exames e cirurgias mesmo quando o atendimento acontece em outro município.
- Fortalecimento da Atenção Primária: As Unidades Básicas de Saúde (UBS) passaram a receber kits de telessaúde, novos equipamentos diagnósticos e integração com o programa Mais Médicos. A meta é resolver mais casos perto da casa do paciente e reduzir encaminhamentos desnecessários para especialistas.
- Governança compartilhada: O programa envolve ministério, estados, municípios, conselhos de saúde, entidades médicas e instituições do SUS para monitorar metas, pactuar estratégias e acompanhar resultados.

