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Bolsonaristas e antivacinas retomam a ‘pandemia de desinformação’

(*) Por Eliara Santana

Uma nova onda de desinfodemia – a pandemia de desinformação – envolvendo a pandemia de Covid voltou a tomar conta do debate público no Brasil. O motivo deflagrado, aparentemente, foi a recusa do imunologista Anthony Fauci em responder aos questionamentos de congressistas republicanos que o convocaram para uma audiência no Senado norte-americano.

Recentemente, Fauci lançou um livro com as suas memórias daqueles dias da pandemia e contou dos embates com o presidente Donald Trump à época. A recusa do médico foi a deixa que o mercado de fake news encontrou para explodir e, ainda na audiência, a desinformação começou a circular de maneira acentuada, com a volta de assuntos já debelados, como os questionamentos em relação à origem do vírus, à eficácia das vacinas e ao uso de medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina.

Durante o evento, um senador republicano (Rand Paul), que acusa Fauci de mentir sobre as origens do coronavírus, divulgou mais de mil páginas de um diário que o imunologista mantinha na pandemia e afirmou, de modo distorcido, que havia contradições entre suas ações e os registros que o próprio fez diariamente. Sites de checagem dos EUA afirmaram não haver contradições, mas isso já não interessava aos arquitetos do caos, vorazes por defender a tese – não comprovada – de que o vírus foi um vazamento de laboratório. 

Infelizmente, a onda de desinfodemia atingiu novamente em cheio o Brasil e foi deflagrada por um vídeo eivado de mentiras sobre a pandemia. Na peça bastante espetaculosa, o deputado Nikolas Ferreira, sempre ele, fala dos medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina, do uso de fetos abortados para o desenvolvimento das vacinas, da ineficácia das medidas de distanciamento social e do uso de máscaras e defende as (in)ações de Jair Bolsonaro na gestão daquele episódio drástico para o Brasil.

Todo esse conjunto absurdo de questões já foi exaustivamente refutado e desmentido por autoridades sanitárias e por institutos de checagem – mas de nada adianta, e figuras públicas  que deveriam zelar pela saúde da população e se preocupar com a verdade e não com a lacração ocupam espaço nobre para disseminar mentiras e criar narrativas de apoio ao então governo Jair Bolsonaro. 

O tema, é claro, explodiu nas redes por aqui também. Segundo levantamento da Agência Lupa, bolsonaristas e grupos ligados a movimentos antivacina usaram o tema para retomar narrativas sobre vacinas, tratamento precoce e a origem do coronavírus. A sondagem também mostrou que  o vídeo recheado de inverdades do deputado é um dos conteúdos de maior alcance, com mais de 36 milhões de visualizações.

A publicação tem muitas inverdades, como um suposto problema pulmonar de Anthony Fauci após receber a vacina contra a Covid-19 – tema sobre o qual não há qualquer evidência.

Flávio Bolsonaro endossa a mentira

O senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, repostou o vídeo de Nikolas e mais outros dois com questionamentos sobre o número de mortos e sobre a vacinação em massa. 

Outros políticos alinhados seguiram pelo mesmo caminho, como o senador Magno Malta (PL-ES) e o deputado federal Osmar Terra (PL-RS). Como mostrou a Agência Lupa, todas essas manifestações buscaram coro numa narrativa de “redenção” de Jair Bolsonaro à frente da pandemia. Segundo o levantamento, “uma criadora de conteúdo no TikTok, por exemplo, afirmou, em um vídeo com 680 mil visualizações, que no final das contas, Bolsonaro sempre teve razão e não foi ele que matou 700 mil pessoas pela Covid-19. Em grupos do Telegram, o termo fraudemia voltou a circular para sugerir que a pandemia teria sido uma estratégia de controle da população. Em uma das mensagens, um usuário afirmou que a família Bolsonaro teria ‘arriscado a própria pele’ ao defender o chamado tratamento precoce”.

Para além da recuperação de uma narrativa e da suposta “redenção” ao negacionismo de Bolsonaro durante a pandemia, qual o propósito de um deputado requentar, de modo tão espetaculoso, a questão da Covid, seis anos depois? E ainda com insinuações tão rasas e aparentemente estúpidas quanto o uso de partes de fetos para desenvolvimento da vacina.

Nada disso é só arroubo ou problematização de um tema que chega dos EUA. Tudo isso é método de desinformação com o propósito específico de provocar caos e reacender chagas antigas e já dissipadas para manter um agrupamento mobilizado e raivoso. E nada melhor que o caos, as coisas estapafúrdias, o medo e a raiva para mobilizar. 

Manter a tensão em eleição é estratégia da desinformação

Já falamos bastante sobre campanhas permanentes de desinformação e ataques coordenados em momentos específicos, como agora – com as eleições se aproximando, nada melhor do que manter um estado de tensão e alerta entre a população, não é mesmo? Além do mais, o Brasil vai enfrentar, mais cedo ou mais tarde, um problema de saúde pública com a volta do sarampo e, infelizmente, de outras doenças. E então, como será possível às autoridades sanitárias mobilizarem para a necessidade da vacinação nesse contexto de extrema desconfiança? 

Por outro lado, a desestruturação social, a desconfiança, o caos, um tecido social esgarçado, tudo isso pode ser  benéfico para quem está em desvantagem na corrida eleitoral. Um vídeo como o do deputado – requentando um assunto já debatido e cuja narrativa já é comprovadamente falsa – distrai daquilo que deveria estar sendo discutido em termos de projetos para o país, tensiona as pessoas e afasta os agentes de informação (como a imprensa) das discussões envolvendo o pleito. 

A verdade: Covid matou mais do que o oficialmente divulgado

Em reportagem do ICL, em 20 de julho, a médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo afirmou que o Brasil pode ter registrado mais de 2 milhões de mortes relacionadas à Covid-19, número que é três vezes superior ao registro oficialmente divulgado de 720 mil  mortos durante a pandemia. Ela também afirmou que  a Covid-19 se tornou uma doença endêmica e que a vacinação é a única estratégia para evitar a doença. 

Em artigo para o The Conversation Brasil (https://theconversation.com/atualizacao-da-oms-mostra-que-mortes-por-covid-19-no-brasil-deve-superar-em-muito-os-700-mil-dos-dados-oficiais-284529), em junho, ponderei  que a pandemia de desinformação – ou desinfodemia – tão preocupante e devastadora quanto a outra, impactou, a partir de uma sistemática disseminação de desinformação, o curso do controle da doença no Brasil em relação à prevenção, às formas de combate, ao comportamento da população e que todo esse conjunto contou fortemente com a anuência de uma voz púbica de autoridade – no caso, a do então presidente da República.

Diante de todos esses dados, de todas as constatações as autoridades médicas e sanitárias, como explicar que autoridades públicas usem redes sociais para disseminar medo e fazer insinuações fictícias sobre vacina?  

A pandemia que o Brasil não esquece

A instrumentalização do caos

Como o vídeo espalhando inverdades e insinuações sobre o Pix, essa nova peça desinformativa do deputado Nikolas Ferreira sobre Covid e vacina também não é aleatória nem somente para bombar nas redes. É um instrumento de disseminação de desconfiança que pode provocar um caos informacional diante de um cenário que é desafiador. O Brasil já não é mais a referência em cobertura vacinal que foi no passado.

O que isso significa? As pessoas não estão, deliberadamente, se vacinando e vacinando suas crianças. Vamos resgatar o exemplo do sarampo, uma doença grave, altamente contagiosa, que pode matar. A partir de 2017, com intensificação do quadro no cenário da pandemia de desinformação em 2020, a cobertura vacinal no Brasil despencou, e atualmente, apesar das campanhas de vacinação do governo federal – há uma baixa cobertura de diversas vacinas, como a da tríplice viral, que previne contra sarampo, caxumba e rubéola; o esquema vacinal padrão é de  duas doses para crianças de 12 meses e adultos de 29 a 59 anos.

Em 2016, governo Dilma Rousseff, o país recebeu da  Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) o certificado de zona livre de sarampo. Em 2019, governo Jair Bolsonaro, o Brasil perdeu o certificado após vários casos da doença – no período de fevereiro de 2018 a fevereiro de 2019, foram registrados mais de 10 mil casos de sarampo.

Em novembro de  2024, governo Lula da Silva, a OPAS entregou novamente ao Ministério da Saude o novo certificado de eliminação do sarampo, rubéola e Síndrome da Rubéola Congênita (SRC). A vacina é gratuita pelo SUS e está disponível em todos os postos de saúde. Em 2026, o país voltou a registrar casos da doença pelo estado de São Paulo, já são 15 casos oficiais até o momento do fechamento deste artigo.

Nos EUA, há uma onda que já causou alarme nas autoridades sanitárias com os casos de sarampo: são mais de 2.300 neste ano, atingindo 44 dos 50 estados do país. É o pior registro em 35 anos e se vincula diretamente ao negacionismo do governo Trump e de autoridades e ao medo que a pessoas passaram a ter da vacina. 

Campanhas de desinformação e ataques orquestrados

O cenário de saúde é um campo fértil para disseminar medo, insegurança e desconfiança. Porque as pessoas, de modo geral, não sabem efetivamente como funciona uma vacina ou se um tratamento será eficaz – e até 2018, isso de fato não interessava à população, vacina existia pra prevenir doenças, e todos iam ao postinho com orgulho vacinar suas crianças e se vacinar.

Com o ecossistema de desinformação, esse cenário se altera drasticamente. Nesse sentido, a vacina se tornou um campo de disputa de poder ideológico para a extrema direita, talvez porque seja um tema que possibilite conduzir tanto o pânico quanto a negação – não é como um tratamento de câncer, em que a doença já está instalada e a pessoa sabe o que significa não tomar o remédio.

A vacina atua antes; ela previne, não deixa a doença chegar. Portanto, construir um imaginário de que a vacina pode provocar doenças e efeitos colaterais graves nesse cenário é mais fácil e mais efetivo.  

E é exatamente no contexto da geração de dúvida e caos que se insere então o vídeo de Nikolas Ferreira, que faz inúmeras insinuações sobre a vacina de Covid e sobre as medidas de segurança que foram determinadas pela OMS à época.

A estratégia é tão calculada que a peça do deputado foi divulgada no domingo, dia 2 de agosto, véspera da Campanha Nacional de Multivacinação.

Como já dissemos bastante por aqui, nada há de aleatório ou mera coincidência nas formulações de desinformação. E a ação orquestrada não se resume a um produto de questionamento da vacina em si. É um eixo narrativo que coloca em xeque o conhecimento instituído das autoridades sanitárias brasileiras e coloca em xeque a própria verdade dos fatos comprovados. E a descrença que se torna generalizada é um brinde para os projetos autoritários.

Como ressalta Bucci no artigo Ciências da Comunicação contra a desinformação”: “Pois é exatamente isso que os autocratas fazem hoje, com a ajuda das redes sociais. Para os autoritários, existe um objetivo ainda mais valioso do que fazer com que as pessoas acreditem neles: é fazer com que as pessoas não acreditem em mais nada, em mais ninguém. Transformar em terra arrasada a malha epistêmica das sociedades democráticas é tarefa prioritária para os novos ditadores e para os que pretendem se tornar ditadores. Para melhor manipular as multidões, eles precisam estraçalhar com todas as referências racionais, factuais ou morais. Sua principal estratégia é atentar contra o saber, contra as instituições do saber e contra a confiança pública nessas instituições. A moral, eles trocam pelo moralismo. A razão, pela fúria. A política, pelo fanatismo”. 

E quando tudo é questionado, não há espaço para acreditar naqueles pilares básicos de uma sociedade democrática, o que vai restar? A desordem, onde nada prospera.

Ao pesquisar e analisar a arquitetura da desinfodemia no Brasil durante o governo Bolsonaro, observei as dinâmicas de desinformação em ação e compreendi a potência desse quadro. Nada é aleatório, nada é coincidência, nada é por acaso. E nada está desconectado de um projeto macro de disputa de poder no contexto do Brasil como importante bastião do Sul Global a ter derrotado a extrema direita representada pelo bolsonarismo, em 2022.  

A desinformação promove um retrocesso civilizatório, o caso da cobertura vacinal em nosso país revela isso muito bem. E ela é uma estratégia vital do projeto de disputa de poder da extrema direita. Nesse sentido, levar as pessoas a desacreditarem de tudo, a desconfiarem de todas as instituições é uma avenida de oportunidade para o caos. 

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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