Por Rose Rodrigues (*)
Antes de chegar ao prato, o alimento passou pela mão de alguém. O café que abre a manhã, o feijão que atravessa o almoço de norte a sul, a mandioca que aparece em cem formas diferentes na mesa brasileira: boa parte disso nasceu na roça de uma família. Não numa lavoura imensa voltada para o porto e para a exportação, mas num pedaço de terra onde o trabalho, a comida e a vida acontecem no mesmo lugar.
É para essa gente que o 25 de julho, Dia Internacional da Agricultura Familiar, existe e precisa ser reconhecido. Gente que sustentou por décadas a segurança alimentar do país longe dos holofotes, quase sempre sem crédito, sem estrada e sem o reconhecimento que merecia.
Celebrar a agricultura familiar não é fazer elogio ao campo. É afirmar um projeto de país que se decide pela comida na mesa, pela inclusão de quem sempre foi deixado de fora e pelo cuidado com a terra que herdamos.
O paradoxo que sustenta o país
Os números contam uma história que parece impossível. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, a agricultura familiar responde por 77% de todos os estabelecimentos rurais do Brasil. Quase quatro milhões de propriedades. E, no entanto, ocupa apenas 23% da terra agrícola do país. Três em cada quatro produtores dividem entre si menos de um quarto do território produtivo, enquanto uma minoria de grandes proprietários controla o resto.
Com tão pouca terra, seria de esperar que produzisse pouco. Acontece o contrário. A agricultura familiar emprega 67% de todas as pessoas que trabalham no campo brasileiro, mais de dez milhões de trabalhadores e trabalhadoras. E lidera a produção dos alimentos que efetivamente compõem a dieta do país: 80% da mandioca, quase metade do café e da banana, uma fatia enorme do leite, do feijão, das frutas e das hortaliças que abastecem feiras, mercados e escolas.
Aqui é preciso honestidade, porque ela fortalece o argumento em vez de enfraquecê-lo. A agricultura familiar não responde pela maior parte do valor da produção agropecuária. Esse valor é puxado pela soja, pelo milho e pela carne que seguem para fora.
O que a agricultura familiar domina não é a planilha da exportação, é a mesa do brasileiro. Produzir, afinal, não é só gerar divisa. Produzir também é garantir comida no prato, renda no interior e dignidade para milhões de famílias que, sem esse chão, migrariam para a periferia das grandes cidades.
Resta então a pergunta: como um setor com tão pouca terra consegue sustentar tanto?
Um modo de produzir, não apenas um setor
A resposta começa no jeito como essa agricultura funciona. Onde a monocultura aposta tudo numa só cultura, a agricultura familiar diversifica: planta muitas coisas no mesmo espaço, aproveita o que a propriedade oferece, encurta a distância entre quem produz e quem come. Esse desenho, que a Embrapa reconhece como presente em todos os biomas brasileiros, aproxima naturalmente a agricultura familiar dos princípios da agroecologia.
E isso deixou de ser detalhe romântico para virar questão estratégica. Num tempo de emergência climática, sistemas diversificados são mais resistentes à seca, à cheia e à quebra de safra do que grandes áreas de cultura única. A agricultura familiar presta serviços que nenhum balanço contabiliza: cuida da água, mantém os polinizadores, protege o solo, guarda a biodiversidade.
Não por acaso a ONU declarou 2019 a 2028 a Década da Agricultura Familiar, reconhecendo que fortalecer esse modelo é parte da resposta global à crise do clima e da fome. O Brasil não está seguindo uma moda. Está redescobrindo uma vocação.
Isso tem rosto, tem nome e tem história
Por trás dos números há pessoas concretas. A agricultura familiar é feita de assentados da reforma agrária, de comunidades quilombolas e indígenas, de ribeirinhos e extrativistas, das mulheres que hoje são maioria no acesso ao microcrédito rural e da juventude que decide ficar no campo em vez de abandoná-lo. Democratizar o acesso à terra e ao crédito é o que transforma essa gente de estatística em protagonista.
E é aqui que a história fica clara, porque nada disso aconteceu por acaso. São essas famílias que acessam o Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, que completou trinta anos em 2025. São elas que fornecem para a merenda das escolas pelo PNAE e que vendem para o poder público pelo PAA, o Programa de Aquisição de Alimentos. Quando essas políticas funcionam, o país come. Quando são desmontadas, o país passa fome. Não é retórica, é experiência vivida.
O Brasil já saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014, depois de mais de uma década de investimento em agricultura familiar e proteção social. A partir de 2016, com o desmonte desses programas, o país retrocedeu e voltou ao Mapa da Fome, com mais de dez milhões de brasileiros sem ter o que comer. Foi preciso reconstruir. O PAA, que chegou a ter apenas dois milhões de reais em 2022, foi retomado com quinhentos milhões. O PNAE teve a compra obrigatória da agricultura familiar ampliada de 30% para 45%. O Plano Safra da Agricultura Familiar alcançou o recorde de 89 bilhões de reais em 2025 e 2026. E o resultado veio: em 2025 o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, e o relatório da FAO divulgado neste mês de julho de 2026 confirmou o país fora dele, com a dieta saudável mais barata da América Latina.
O experimento foi feito duas vezes, com o mesmo resultado. Onde há política de apoio a quem planta comida, a fome recua. Onde ela é abandonada, a fome volta. Vale reconhecer, sem idealização, que o setor é desigual por dentro: convivem nele produtores já estruturados e famílias que ainda produzem quase só para o próprio sustento. Justamente por isso as políticas precisam ser diferentes para cada realidade, e não desaparecer para todas.
O futuro que se planta agora
Volto à mesa onde este texto começou. O mesmo café, o mesmo feijão, a mesma mandioca de sempre carregam agora um significado que talvez passasse despercebido. Cada um deles é resultado de uma escolha coletiva sobre que país queremos ser. Um país que só sabe exportar commodity, ou um país que também garante que ninguém fique sem comer.
A agricultura familiar responde a essa pergunta todos os dias. Ela alimenta o presente e, ao cuidar da terra e da água, cultiva o futuro. Fortalecê-la deixou de ser uma pauta apenas do campo. É a forma mais concreta de enfrentar a desigualdade, de manter viva a vida no interior e de garantir que a soberania do Brasil comece onde ela mais importa, que é na capacidade de alimentar o próprio povo. Celebrar o 25 de julho é reconhecer quem faz isso com as próprias mãos, e decidir que não vamos deixar essa gente sozinha de novo.
(*) Secretária Agrária Nacional do Partido dos Trabalhadores
Fontes dos dados citados
Estrutura, área, emprego e produção por alimento: IBGE, Censo Agropecuário 2017. • Saída e retorno do Brasil ao Mapa da Fome: FAO/ONU, relatórios SOFI 2025 e 2026. • Pronaf, PAA, PNAE (ampliação de 30% para 45%) e Plano Safra da Agricultura Familiar: Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Agência Gov e Agência Brasil. • Multifuncionalidade, biomas e agroecologia: Embrapa, portal temático Agricultura Familiar. • Década da Agricultura Familiar 2019–2028: ONU/FAO.
Nota: o valor do Plano Safra 2025/2026 foi arredondado para R$ 89 bilhões; recomenda-se conferir a cifra exata no anúncio oficial do MDA antes da publicação.

