Ícone do site Partido dos Trabalhadores

Crescimento sustentável depende da retomada do investimento público

"É preciso que os cidadãos se informem sobre economia para que possam influenciar nas decisões políticas", defende o economista Antonio Corrêa de Lacerda

Para sair de uma crise econômica, como a que o Brasil enfrenta há quase cinco anos, os ideólogos do mercado afirmam que é preciso ajustar as contas públicas, cortando gastos do governo. Como num passe de mágica, a suposta redução na relação entre a dívida pública e o PIB contribuiria para a retomada da confiança do empresariado, que voltaria a investir, desencadeando um ciclo virtuoso de crescimento econômico. Essa receita da austeridade vem sendo tentada desde 2015, quando o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, iniciou o chamado ajuste fiscal. Após o golpe do impeachment, o governo Temer foi além, com a aprovação da Emenda Constitucional 95, que congelou por 20 anos os gastos do governo em áreas como saúde e educação – deixando de fora do teto apenas os gastos com o pagamento da dívida pública.

O governo Bolsonaro dobrou a aposta, e agora quer a chamada PEC emergencial que vai impor “gatilhos” para o caso de crise financeira na União, estados e municípios, proibindo, por exemplo, endividamento público para pagar as despesas correntes como os salários do funcionalismo público, benefícios de aposentadoria, contas de energia e custeios similares. Entre as possíveis medidas a serem tomadas, está a possibilidade de redução de jornadas e salários de servidores públicos.

Já a média dos investimentos públicos da União caiu de R$ 66,7 bilhões, no período anterior à crise, entre 2012 a 2014, para R$ 59,0 bilhões, entre 2015 e 2016. Nos últimos dois anos, os investimentos foram de R$ 46,1 bilhões e R$ 52,5 bilhões. Após pequena recuperação, os recursos voltaram a despencar, em 2019, para apenas R$ 22,7 bilhões. E as previsões para para 2020 são ainda piores, com gastos totais de R$ 19,3 bilhões, segundo a Secretaria do Tesouro Nacional.

O resultado é que o país vem registrando crescimento pífio nos últimos anos, que não repõe as perdas econômicas causadas pelo período mais agudo da crise. No acumulado de 2015 e 2016, o PIB retraiu 7%. O crescimento registrado em 2017 foi de 1,1%, índice repetido no ano seguinte. Números divulgados pelo IBGE nesta semana apontam aumento de 0,6% do segundo para o terceiro trimestre de 2019. No acumulado para os quatro últimos trimestres, o crescimento registrado foi de 1%.

Para uma retomada do crescimento econômico, é preciso recompor os investimentos do setor público, dado o seu efeito multiplicador. Se aplicasse montantes elevados num programa amplo obras de infraestrutura, por exemplo, além da contratação direta, as empresas privadas responderiam positivamente, elevando também os seus investimentos. A contratação de trabalhadores aumentaria a demanda por produtos e serviços. O aumento do consumo e, consequentemente, da produção, resultaria na criação de novas vagas de trabalho, alavancando o crescimento econômico.

Essa é uma das ideias defendidas no livro O mito da Austeridade (Editora Contracorrente), organizado pelo economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor e diretor da Faculdade de Economia, Administração, Contábeis e Atuariais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (FEA-PUC-SP). Os artigos, escritos por ele e outros quatro economistas – Ladislau Dowbor, André Paiva Ramos, Mariana Ribeiro Jansen Ferreira e André Luis Campedelli – detalham os efeitos da atual crise econômica e o engodo representado pelo discurso neoliberal que aposta no corte de gastos, e os impactos de redução dos gastos públicos, não só nos investimentos, mas também nas políticas sociais, com consequências negativas para a maior parte da população.

Os únicos beneficiários são os bancos e investidores que investem em títulos da dívida pública, remunerados a altas taxas de juros e com recursos preservados de toda espécie de restrição ou congelamento, enquanto a milhões sofrem com desemprego e a informalidade. “A insistência em prática no Brasil em cortar gastos, especialmente em investimentos, cortar programas sociais, não leva ao pretendido ajuste, e, sim, agrava a crise, prejudicando evidentemente a população mais pobre”, afirma Lacerda. Ele destaca que, em períodos de deterioração econômica, só o estado tem capacidade para ampliar os investimentos, buscando reverter as expectativas dos agentes econômicos.

O pressuposto da austeridade diz que se o governo fizer um ajuste, cortando gastos públicos, aumenta a confiança dos investidores privados que, por sua, vez, levaria ao crescimento. Por que se trata de um mito?

Trata-se de uma discussão internacional. Europa e Estados Unidos passaram por um problema semelhante, a partir da crise de 2008. E está cada vez mais claro que essa pretensa retomada da confiança, que geraria o crescimento de uma forma automática, não se viabiliza. O prêmio Nobel de Economia Paul Krugmann diz que seria acreditar na ‘fada da confiança’. Na verdade, o que traz o crescimento econômico é o investimento, é a expectativa de demanda. Numa crise, esse investimento só pode ser realizado primordialmente pelo estado. A insistência em prática no Brasil em cortar gastos, especialmente em investimentos, cortar programas sociais, não leva ao pretendido ajuste, e, sim, agrava a crise, prejudicando evidentemente a população mais pobre.

O livro questiona esses aspectos. São cinco autores que contribuíram com artigos com os mais variados enfoques, desde a política monetária, política social à política fiscal, mostrando os equívocos desse processo, no Brasil, e quais as suas consequências. O livro tem a pretensão de os aspectos técnicos, mas numa linguagem que extrapole o campo dos economistas. Como dizia a economista Joan Robinson, uma das discípulas de John M. Keynes, a economia precisa ir além dos economistas. É preciso que os cidadãos se informem sobre economia para que possam influenciar nas decisões políticas.

Confira a íntegra da entrevista

 

Por Rede Brasil Atual

Sair da versão mobile