Ao celebrar os 30 anos da Fundação Perseu Abramo, o pré-candidato ao Governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), fez um alerta contundente sobre o momento político global e defendeu que a esquerda volte a disputar, com mais força, o imaginário da sociedade. Haddad e a filósofa Marilena Chaiui participaram de uma conferência na sexta-feira 8, em São Paulo, e debateram um projeto de país para o futuro.
Segundo o ex-ministro da Fazenda, a crise do capitalismo e da globalização aberta em 2008 criou um terreno fértil para mudanças profundas, mas esse espaço vem sendo ocupado principalmente pela extrema direita, que tem conseguido transformar o descontentamento social em apoio político. Já as forças progressistas, segundo ele, ainda buscam atualizar seu repertório teórico e sua capacidade de comunicação.
“A crise do capitalismo e da globalização em 2008 abriu um campo de possibilidades que está sendo muito mais aproveitado pela extrema direita do que pela esquerda”, afirmou Haddad.
Na avaliação de Haddad, a crise do neoliberalismo abriu brechas para que novas ideias e alternativas ao modelo econômico dominante ganhassem espaço, mas a direita tem sido mais ágil na exploração desse cenário.
Haddad afirmou que, para os setores conservadores, é mais simples trabalhar com respostas superficiais, o que gera aderência rápida se não houver um contraponto consistente e bem estruturado por parte da esquerda.
Ele lembrou que, apesar das vitórias eleitorais obtidas pelo Partido dos Trabalhadores desde 2002, o país atravessou momentos de forte ruptura democrática, como o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff em 2016 e a prisão injusta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, episódios que abriram caminho para o avanço da extrema direita e para o aprofundamento de retrocessos sociais e institucionais.
Mesmo diante desse cenário adverso, Haddad ressaltou a capacidade de liderança de Lula para manter vivo um projeto popular em condições extremamente desfavoráveis no Congresso Nacional. “Enfrentamos um Congresso onde 80% pensam muito diferente de nós e o presidente Lula faz mágica para se manter competitivo para 2026 com essa correlação de forças”, afirmou.
A declaração sintetiza, segundo Haddad, o tamanho do desafio enfrentado pelo governo. O presidente Lula tem conseguido aprovar políticas públicas, retomar programas sociais, reorganizar a economia e preservar a agenda democrática, mesmo sob intensa pressão de forças conservadoras.
Haddad argumentou que a extrema direita pretende se apresentar como resposta para uma crise que ela própria ajudou a produzir. Para o ministro, somente um projeto sólido de transformação social, ancorado em reflexão teórica, formação política e diálogo com as novas realidades do mundo do trabalho, da tecnologia e da geopolítica, será capaz de sensibilizar a população e construir maiorias duradouras.
“O materialismo, ou seja lá qual for a sua preferência, precisa mudar com certa constância à luz da evolução e da complexificação da sociedade, sob o risco de se petrificar em torno de alguns dogmas”, afirmou. Segundo ele, sem essa atualização, as ideias da esquerda deixam de mobilizar e de engajar as pessoas em um processo emancipatório.
A conferência integrou a programação comemorativa dos 30 anos da Fundação Perseu Abramo, instituição criada para apoiar o PT na elaboração de propostas, formação de quadros e produção de conhecimento comprometido com a democracia, a justiça social e a soberania nacional.
Marilena Chaui: democracia é criação permanente de direitos
Em sua intervenção, a filósofa Marilena Chaui destacou que a democracia não é um conceito abstrato nem uma mera estrutura institucional. Para ela, a democracia se concretiza no processo histórico de conquista e ampliação de direitos.
“A democracia é a criação, a conservação e a garantia de direitos”, afirmou.
Segundo a filósofa, os movimentos sociais são responsáveis por produzir novas demandas e abrir horizontes de transformação, cabendo aos partidos políticos incorporar essas lutas e convertê-las em ação institucional.
Chaui alertou para o risco de fragmentação dos movimentos sociais caso diferentes pautas se isolem umas das outras. Para ela, a força transformadora da esquerda está na capacidade de articular as lutas das mulheres, do movimento negro, do ambientalismo e de outros setores populares em um projeto comum.
“O PT deve ser a caixa de ressonância dessas lutas sociais”, disse.
Ela defendeu que a Fundação Perseu Abramo estimule a circulação de ideias entre esses movimentos, preservando a pluralidade e fortalecendo uma visão coletiva de emancipação.
Marilena Chaui relembrou um episódio marcante da criação do partido. Segundo ela, o crítico literário Antônio Cândido lhe entregou textos manuscritos produzidos por ele, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, com o objetivo de explicar socialismo e luta de classes aos trabalhadores.
Esse material, guardado por décadas, será entregue à Fundação como símbolo da continuidade de um projeto intelectual e político que ajudou a construir o PT e a trajetória do presidente Lula.
Ao completar três décadas, a Fundação Perseu Abramo reafirma sua missão de produzir pensamento crítico, formar novas lideranças e contribuir para a construção de um Brasil mais democrático, soberano e socialmente justo.

