Ícone do site Partido dos Trabalhadores

Lula pede a cientistas plano para Brasil competir com China e EUA em tecnologia

Em encontro com cientistas e pesquisadores da SBPC, presidente Lula pede elaboração de um plano para a próxima década.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu na noite de terça-feira, 28, que o Brasil estabeleça metas de longo prazo e encontre novas formas de financiar a ciência para não ficar à margem da disputa tecnológica protagonizada por Estados Unidos e China. Durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói (RJ), Lula pediu que a comunidade científica apresente um plano capaz de preparar o país para competir em áreas estratégicas, como inteligência artificial, minerais críticos e tecnologias digitais.

A proposta, segundo o presidente, deve estabelecer objetivos concretos para os próximos dez anos e indicar quanto o Brasil precisará investir para alcançá-los. Lula afirmou que o financiamento não pode ficar limitado à disputa anual por espaço no Orçamento e defendeu a construção de fontes adicionais de recursos, sem desrespeitar o arcabouço fiscal.

“É preciso construir uma alternativa para criar um programa: nós vamos ter um investimento em pesquisa e, em dez anos, a gente vai atingir tais metas”, disse. Em seguida, Lula questionou qual papel o Brasil pretende desempenhar diante da competição tecnológica entre as duas maiores potências mundiais.

“A gente vai deixar que a briga fique entre Estados Unidos e China ou a gente vai entrar no meio e dizer: ‘Nós existimos e o nosso povo não é mais burro do que o povo de vocês’”, provocou.

Lula ressaltou que o objetivo não é alimentar conflitos com chineses ou norte-americanos, mas garantir que o Brasil tenha capacidade científica e tecnológica para defender os próprios interesses. Para isso, afirmou, o país precisa transformar conhecimento em soberania.

“Em vez de ficar brigando com eles, eu quero derrotá-los estudando mais do que eles, investindo mais do que eles, pesquisando mais do que eles e me transformando. É este o desafio”, declarou.

Ciência para tornar o Brasil competitivo

Ao convocar pesquisadores e dirigentes da SBPC a construírem o plano, Lula afirmou que o Brasil não poderá ocupar uma posição decisiva no mundo sem tratar ciência e pesquisa como prioridades nacionais.

“Eu tenho consciência de que, se a gente não investir em ciência, se a gente não investir em pesquisa, este país nunca será um país decisivo, um país competitivo”, afirmou.

O presidente lembrou que investimentos científicos precisam ter continuidade, planejamento e metas que ultrapassem os limites de um único governo. Por isso, pediu que a proposta aprovada pela comunidade científica seja entregue rapidamente para que possa ser incorporada ao programa de governo.

Educação contra a “supremacia da ignorância”

Antes de abordar os novos desafios tecnológicos, Lula fez uma defesa enfática da educação pública, das universidades e das políticas de inclusão, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e as cotas sociais e raciais.

O presidente lembrou que, durante muito tempo, parte das elites política, econômica e intelectual não concebia a universidade como um espaço destinado a trabalhadores, negros, indígenas e estudantes das periferias.

Essa visão, disse, produziu uma contradição histórica: jovens pobres frequentavam escolas públicas precarizadas e precisavam pagar para cursar uma faculdade, enquanto estudantes ricos, preparados nas melhores instituições privadas, ocupavam grande parte das vagas das universidades públicas.

Lula criticou projetos que apresentam as escolas cívico-militares ou a educação exclusivamente dentro de casa como soluções para os problemas do ensino brasileiro. Para o presidente, essas propostas reduzem a convivência com a diversidade e tentam impedir que crianças e adolescentes compartilhem experiências com pessoas de diferentes origens.

“Quando aparece neste país alguém dizendo que não quer que o filho vá para a escola, que o filho vai aprender dentro de casa, na verdade é a supremacia da ignorância tentando vencer o pensamento da maioria da sociedade”, afirmou.

Segundo Lula, a resistência à escola plural e inclusiva representa “a cabeça da supremacia de uma pequena parcela sobre a grande maioria”.

Do pré-sal aos biocombustíveis

Para mostrar como a pesquisa científica pode transformar a economia e ampliar a soberania nacional, Lula citou a descoberta do pré-sal e o desenvolvimento dos biocombustíveis.

“Se não fosse pesquisa, a gente não tinha o pré-sal, não tinha o biocombustível”, ressaltou.

O presidente afirmou que a Petrobras responde por uma parcela expressiva dos investimentos brasileiros em inovação. Diante disso, voltou a defender que o Estado assuma a responsabilidade de induzir projetos estratégicos e criar condições para o desenvolvimento tecnológico.

Lula também relacionou ciência e defesa nacional. Para ele, o Brasil precisa formar profissionais, dominar tecnologias e possuir equipamentos capazes de proteger riquezas como o petróleo do pré-sal, a Amazônia, as reservas de água e os recursos minerais.

Formação voltada aos desafios do futuro

Lula defendeu ainda que o país identifique quais áreas de formação serão mais importantes nas próximas décadas e ajude a orientar os jovens para cursos capazes de atender às novas necessidades nacionais.

“Precisamos direcionar para a nossa juventude quais os cursos que, neste momento, são mais importantes para que a gente possa competir”, afirmou.

A medida, segundo o presidente, não significa limitar as escolhas dos estudantes, mas planejar a formação de pesquisadores e profissionais para setores nos quais o Brasil pretende ganhar autonomia. Entre os exemplos mencionados estão inteligência artificial, mineração de terras raras, tecnologia digital, defesa e produção energética.

Lula pediu que universidades, cientistas e instituições de pesquisa indiquem ao governo quais projetos devem ser priorizados. Caso a proposta seja consistente, declarou que pretende levá-la ao Congresso Nacional e dialogar com os presidentes da Câmara e do Senado para garantir sua execução.

Crescimento com distribuição de renda

Na parte final do discurso, Lula afirmou que o governo terminará o mandato de maneira exitosa e associou os resultados econômicos à retomada das políticas de inclusão social.

“A última vez que a economia brasileira tinha crescido acima de 3% foi em 2010, quando eu era presidente. E só voltou a crescer quando eu voltei”.

Para Lula, o crescimento depende da circulação de dinheiro entre os trabalhadores e da participação da população pobre na economia. Quando a renda fica concentrada, argumentou, o consumo diminui, a produção perde força e as desigualdades aumentam.

O presidente resumiu o modelo econômico que defende em uma comparação direta: “Muito dinheiro na mão de poucos significa miséria. Pouco dinheiro na mão de muitos significa desenvolvimento e distribuição de renda”.

Troca de elogios com governador em exercício

A participação do governador em exercício do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto, também foi destacada por Lula. Mesmo sem trajetória político-partidária, Couto fez uma defesa da atuação conjunta entre União, estado, universidades e instituições científicas.

“Nós não podemos mais ter muros. Nós temos que ter pontes, pontes para o saber, pontes para a saúde, pontes para a própria segurança”, afirmou o governador em exercício.

Ricardo Couto declarou ter o dever de reconhecer o esforço do Governo Lula para retomar políticas sociais e investimentos em áreas estratégicas. Para ele, o conhecimento científico deve ser tratado como uma das principais responsabilidades do Estado, com estímulos que comecem na educação básica e alcancem as universidades e os centros de pesquisa.

Lula retribuiu os elogios e afirmou que Couto demonstrou coragem ao participar da reunião da SBPC e defender investimentos públicos em educação e ciência.

“Você leva para casa, de volta para a sua família, o reconhecimento de que, quando a pessoa está cumprindo uma missão séria, o povo reconhece. Portanto, parabéns”, disse o presidente.

Sair da versão mobile