Por Eliara Santana (*)
A desinformação nem sempre se manifesta ou é propagada por meio de fake news ou mentiras escancaradas. Há muitas estratégias, como a construção de determinada percepção social por meio de narrativas mentirosas ou falseadas que alteram o sentido e o significado de alguns temas, geralmente, temas-chave no universo sociopolítico.
Essas estratégias são, muitas vezes, mais danosas do que as mentiras facilmente detectáveis, pois elas constroem visões de mundo limitadas e distorcidas, e isso impacta, por exemplo, nosso processo de escolha. Um bom exemplo é o que revela a recente pesquisa Datafolha sobre o comportamento do brasileiro, que mostra que uma boa parte da população vincula a pobreza à preguiça de pessoas que não querem trabalhar. Esse percentual praticamente dobrou em quatro anos. No levantamento, foram ouvidos, presencialmente, 2.004 eleitores de 16 anos ou mais em 139 municípios, entre os dias 17 e 18 de junho.
De acordo com o Datafolha, a parcela de brasileiros que associam a pobreza à “preguiça de pessoas que não querem trabalhar” foi de 22%, em 2022, para 40% em 2026. Na série histórica, o percentual dos que vinculam pobreza à preguiça, em 2026, é o maior: em 2013, eram 32%; em 2014, 37%; em 2017, 21%; e, em 2022, 22%. No entanto, segundo a pesquisa, a perspectiva de que a pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para todos ainda é majoritária, mas em queda – foi de 76% para 58%.
Para além dos números e da vinculação expressa por eles, é relevante tentar compreender de que maneira eles se ligam à desinformação sistemática que se consolidou no Brasil nos últimos anos. E um ponto-chave nessa abordagem é o modo como os brasileiros enxergam as políticas públicas desenvolvidas pelo Governo Federal, ou seja, a percepção da população em relação à efetividade e à necessidade de políticas públicas robustas capazes, de fato, de inserir a população mais vulnerável em condições dignas de vida – com acesso à saúde, alimentação, educação, informação, condições de trabalho. A construção de percepção envolve um processo de captura, seleção e organização de informações circulantes no ambiente, com a construção dos sentidos sendo feita a partir das nossas emoções e experiências.
Nesse cenário, se o que permanece no imaginário coletivo, em termos de exposição de um cenário social, é o boicote midiático tácito a qualquer política pública, um enviesamento no entendimento de sua aplicação e a exploração de um viés sempre negativo – por exemplo, associando políticas de atendimento às pessoas vulneráveis a uma “gastança” do governo – e uma sistemática produção de desinformação no ambiente digital, o que sobra para a população é a ideia (equivocada) de que as pessoas não querem trabalhar e por isso vivem nas ruas ou em condições precárias.
Falta o básico para o entendimento, que é a construção dos fios de sentido – nada é óbvio, nada é autoexplicativo, é preciso que todos os fios sejam ligados. A percepção equivocada sobre políticas públicas e pobreza tem, no ambiente político-midiático, um fator muito importante: o acesso desigual à informação plural e de qualidade. Assim sendo, as pessoas, de modo geral, não podem comparar informações e perspectivas para formarem uma opinião crítica acerca dos temas que interessam.
Com esse acesso plural à informação, por exemplo, as pessoas poderiam compreender melhor o posicionamento de empresários contra o fim da escala 6 x 1 – o que nada tem a ver com a preocupação em relação ao mercado de trabalho. Segundo o Datafolha, entre esse público, 56% acreditam que boa parte da pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar.
E é exatamente esse público que concentra riqueza e acesso a oportunidades. Nesse quesito, vale lembrar a fala da diretora-executiva jurídica da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Luciana Nunes Freire, que durante audiência sobre o fim da escala disse que trabalha na escala 5 x 2 e que, com a mudança e o fim da escala 6 x 1, os salões de beleza não iriam mais funcionar aos sábados para atender mulheres como ela, que têm uma jornada de trabalho reduzida (e decente).
A percepção sobre desigualdade
A pobreza extrema e a falta de oportunidades para melhorar de vida estão estreitamente ligadas à desigualdade estrutural. Desigualdade aqui compreendida como uma distribuição desigual de recursos, oportunidades e direitos entre os cidadãos. Esse fenômeno da desigualdade é pouquíssimo debatido no Brasil e tratado de modo bastante superficial pela mídia no país, que é um dos mais desiguais do mundo.
Trocando em miúdos, a desigualdade não é apenas uma diferença de renda, ela se expressa por uma concentração brutal de riquezas nas mãos de pouquíssimas pessoas e significa que, por mais que as pessoas em geral se matem de trabalhar, elas não vão mudar de vida nem garantir condições melhores de existência. Daí a importância de os números serem traduzidos e a realidade, explicada.
A desigualdade nos molda como sociedade e impacta todos os modos e arranjos da vida nacional. Ela pode ser abordada em três vertentes principais: Desigualdade de Renda (refere-se à concentração de riqueza); Desigualdade de Acesso (diferenças marcantes que afetam o dia a dia das pessoas, como acesso a saneamento básico, a moradia e a transporte); Desigualdade de Oportunidades (diferenças expressivas no acesso à educação e ao mercado de trabalho).
Nos últimos quatro anos, com a saída do Brasil do Mapa da Fome (em 2014 e, novamente, em 2023), resultado de políticas públicas robustas que incluíram as pessoas mais pobres no orçamento e na elaboração de políticas públicas, o cenário nacional mostrou redução significativa da desigualdade, mas ela ainda é muito gritante por aqui.
O Brasil é, paradoxalmente, uma das maiores economias globais, mas a riqueza nacional é extremamente mal distribuída, o que estrutura um fosso entre a pequena fatia mais rica e a maioria mais pobre da população. Dados do IBGE divulgados em junho deste ano mostram que, no Brasil, os 10% mais ricos concentram mais de 40% de toda a renda do país, ou seja, essa fatia ganha mais do que os 70% dos mais pobres em conjunto.
Como demonstram relatórios do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), houve avanços na renda das pessoas, especialmente entre os anos de 2003 e 2014, nos governos Lula e Dilma, e no retorno do presidente Lula, a partir de 2023, a partir de uma combinação muito importante de mercado de trabalho aquecido e programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Desse modo, o Brasil registrou, em 2024, um recorde de renda e o menor nível de pobreza e desigualdade na história do país. Nada disso tem a ver com preguiça ou vontade de trabalhar – tem a ver com oportunidade e investimento em políticas públicas e políticas de renda.
Voltando à discussão sobre percepção dos brasileiros que vinculam pobreza à preguiça: se esses dados e o conceito de desigualdade não são explorados, esmiuçados, mostrados em desenhos no horário nobre da TV, nas rádios, em jornais, pra viralizar nas redes sociais, as pessoas nunca vão entender que a pobreza não se liga à “preguiça” de alguns que hipoteticamente “não querem trabalhar”. Ela se liga à exploração de muitos, à concentração brutal de renda e à falta de oportunidades.
Não é a preguiça. É a desigualdade que leva à pobreza, e isso precisa ser cuidadosamente explicado.

