Por Eliara Santana (*)
De nada adiantaram as campanhas de desinformação, as mentiras divulgadas pelas redes sociais, o pânico que empresários e políticos tentaram espalhar, os editoriais dos grandes jornais, as propagandas caríssimas. Nada disso teve resultado, porque o fim da escala 6×1 foi aprovado na Câmara.
Numa votação expressiva em primeiro e segundo turnos, a Proposta e Emenda Constitucional (PEC) que conquistou a população teve também expressivo apoio dos deputados – no primeiro turno da votação, placar de 472 a 22; no segundo, placar de 461 a 19. Agora, a proposta vai ao Senado, e a mobilização para pressionar os senadores já está em pleno vigor – votar contra a PEC se tornou votar contra o trabalhador.
Uma pauta sobre a vida real
A discussão sobre o fim da escala 6×1 foi uma pauta muito bem construída não somente do ponto de vista político, técnico, mas do ponto de vista simbólico e semiótico. Ao longo de vários meses, desde 2023, o tema vem sendo trabalhado junto ao público e conseguiu construir a percepção de que uma escala em que a pessoa trabalha seis dias e tem apenas um dia de folga é uma exploração cruel. A PEC pautou a vida real das pessoas reais que, como já cantou Chico Buarque, não sai nos jornais.
Paulatinamente, o debate promovido foi comunicando questões complexas de modo simples e direto. Nesse sentido, um dos pontos centrais nessa narrativa é que ela foi capaz de estabelecer um diálogo, um vínculo com a vida real das pessoas. Foi capaz de expor e traduzir essa rotina e retirar o véu da normalidade de uma situação que é indigna. Aos poucos, as pessoas foram compreendendo que aquela condição de trabalho não era “normal” nem aceitável. O que culminou no aumento da pressão popular, quando a narrativa passou a fazer parte mesmo das conversas cotidianas, do senso comum, e na aprovação pelo Congresso.
Após a aprovação, no dia 27, o assunto teve um engajamento muito grande. Segundo levantamento da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados,“nas redes, com altíssimo engajamento, a aprovação dominou os assuntos mais comentados, sendo amplamente comemorada pela maioria dos internautas, que alegaram ser uma conquista histórica para a dignidade do trabalhador.
Trabalhadores fizeram relatos de alívio e memes comemorando a perspectiva de mais tempo livre para o descanso e o lazer, elogiando também a mobilização popular que pressionou o Congresso. Por outro lado, também houve registro de debates acalorados: apoiadores da oposição ecoaram temores sobre inflação e desemprego, enquanto defensores da proposta já começaram a organizar campanhas de cobrança direcionadas aos senadores”.
Ou seja, para além da comemoração do resultado e do engajamento que o tema gerou, a mobilização prossegue nas campanhas para cobrar a aprovação no Senado.

“Vitória da classe trabalhadora”
Um tema que viraliza conquista diversos públicos e é capaz de trazer à cena novas concepções, ideias e abordagens que já estavam desgastadas. Foi o que aconteceu com o debate pelo fim da escala 6×1 no mundo midiático – tanto o digital quanto o convencional. Paulatinamente, desde que foi colocada em evidência pela atuação de deputados de esquerda e do próprio governo federal, o eixo narrativo principal do fim da escala 6 x 1 – “ter tempo para o descanso” – foi se desdobrando em narrativas que se tornaram muito potentes, como: necessidade de mais tempo para cuidar dos filhos, para estudar, para cuidar da casa, sobrecarga para as mulheres, importância de tempo para o lazer.
E assim, uma linguagem acessível, ao lado de uma temática trabalhada para se tornar inteligível para a grande maioria da população, foi um sucesso em termos de convencimento político-midiático.
Aquele tema produziu um conjunto de significados para dizer sobre uma realidade e consolidou um potente imaginário sociodiscursivo na população. Lembrando Charaudeau (2007), as representações sociais são elementos de produção de sentido e constroem o real partilhado. São, portanto, fundamentais para que as realidades sejam explicadas e absorvidas.
Nesse sentido, o debate sobre o fim da escala 6×1 foi tão efetivo que potencializou nesse imaginário coletivo duas expressões – uma recente e outra mais antiga –, que ocuparam a cena e as discussões em vários circuitos. Esses conceitos foram “vida além do trabalho” (VAT) e “classe trabalhadora”.
O primeiro foi se impondo nas conversas cotidianas e fortalecendo entre as pessoas a ideia de que é preciso viver a vida para além do trabalho e que a exaustão imposta por uma jornada que toma todo o tempo da pessoa não se justifica e não é normal – o que se desdobrou, em parte, para a percepção de uma “escravidão moderna”.
Isso explica, por exemplo, o fato de a fala do balconista de farmácia Rick Azevedo ter saído do TikTok e ganhado o imaginário coletivo. Em setembro de 2023, ele disse num vídeo: “Quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1? Gente, é uma escravidão moderna. Moderna, não. Ultrapassada”. Viralizou.
E pela fala de Rick, outro termo, já bastante gasto pelas peripécias do capitalismo, emergiu com força imensa: “classe trabalhadora”. Como sinalizou levantamento da Nexus numa amostragem do Facebook e do Instagram, “outra amostra volumosa de 20 mil menções em português sobre o assunto, feitas no mesmo período, acumula mais de 15,4 milhões de interações. Na nuvem destas plataformas, ‘classe trabalhadora’ e ‘Erika Hilton’ ganham protagonismo”.
É, sem dúvida, uma retomada muito importante de um conceito forte que se desgastou, uma representação potente de um imaginário coletivo que se consolida.
E no Google, segundo o mesmo levantamento da Nexus, “em aferição às 9h de hoje (28) também, “escala 6×1” ranqueou na 6ª posição das buscas das útlimas 24 horas, por ordem de relevância. O termo foi pesquisado mais de 100 mil vezes, com pico de procura às 6h20 desta quinta-feira (28). Entre as buscas relacionadas a esta, aparecem expressões como “votação escala 6×1“, “como vai funcionar a escala 5×2“, “quem votou contra o fim da escala 6×1“, “julia zanatta“, “quando começa a escala 5×2” e “nikolas ferreira“.
A reação da extrema direita
Como a extrema direita sempre surpreende em suas encenações, concomitantemente à votação pelo fim da escala, viralizou nas redes o vídeo do deputado do PL Nikolas Ferreira em que ele propõe a escala 4 x 3 para garantir que “quando der merda, a culpa é deles”. A repercussão foi péssima, pois ficou claríssimo que o interesse de Nikolas passa longe do interesse dos trabalhadores. O deputado dobrou a aposta e expôs a ideia no plenário da Câmara.
No dia da votação, Nikolas disse, sem qualquer pudor: “Quando tiver demissão em massa, quando aumentar o preço dos produtos, quando o empreendedor não conseguir mais e vai ter que demitir a pessoa para contratar outra, aí, meus amigos, esse dia vai ser maravilhoso, porque vocês queriam colocar algo e fugir da consequência, mas não. Quando acontecer, eu estarei pronto, de roupa pronta para falar”.
Mesmo com a verborragia tóxica, Nikolas votou a favor da proposta e não conseguiu fazer sua manobra de impor a votação da 4 x 3. E segue acumulando muitas críticas nas redes e na mídia corporativa.
Importante lembrar que, desde o começo do debate, a direita e a extrema direita agiram sempre contra os trabalhadores, mesmo que tentando camuflar o discurso. Vários foram os políticos – como Ronaldo Caiado, Gustavo Gayer, e o próprio Nikolas Ferreira –, que avançaram o sinal contra os trabalhadores, tentando arrumar discursos convincentes que não mostrassem de que lado eles estavam.
Tentaram esboçar justificativas e fugiram do debate sério. Nikolas Ferreira, por exemplo, que tentou lacrar no dia da votação com o referido vídeo, fugiu completamente do debate ao longo desses três anos. No início, ele tentava encontrar um discurso que não afastasse suas bases, mas foi bastante criticado nas redes, recuou e fugiu do debate. Deu com os burros n’água.
Desde o momento em que o tema de fato começou a avançar e a conquistar corações e mentes, o mau humor da direita e da extrema direita, do empresariado e da mídia corporativa se fez presente. De Ronaldo Caiado a Nikolas Ferreira, passando por editoriais de jornais como O Estado de S.Paulo, todo o arquétipo conservador tentou bater na proposta, tentou desacreditar a mobilização dos trabalhadores, tentou agredir o presidente Lula e o PT.
Mas todos os esforços foram em vão. Porque a classe trabalhadora, ao que parece, enfim compreendeu que deve haver vida além do trabalho.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).