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O que é soberania e por que afeta a vida de todos os brasileiros?

Palavra soberania entrou no debate público; defesa da autonomia de um país tem relação com o cotidiano da sociedade, empregos e salários.

A palavra soberania voltou ao centro do debate público brasileiro em meio a disputas comerciais e tensões diplomáticas envolvendo o Brasil e os Estados Unidos e a decisão de Donald Trump de impor o tarifaço a exportações brasileiras. A decisão do governo norte-americano de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros reacendeu discussões sobre a capacidade do país de defender seus interesses econômicos, políticos e estratégicos diante de pressões externas.

Soberania aparece no glossário das lideranças políticas, especialistas e representantes de diferentes setores para justificar posições e decisões. Mas, apesar da presença constante nos discursos públicos, o significado de soberania nem sempre é compreendido em sua dimensão prática.

Afinal, o que significa ser um país soberano? E de que forma esse conceito influencia a vida cotidiana da população brasileira?

A Rede PT de Comunicação conversou com o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB), Gustavo Menon. Ele explica o significado do termo, sua importância para o desenvolvimento nacional e como a presença ou a ausência desse princípio se reflete no dia-a-dia da população. 

O conceito de soberania e seus impactos

Para o especialista soberania é, em sua definição mais básica, a capacidade de um Estado decidir seus próprios rumos, aplicar suas leis, proteger seu território e conduzir suas políticas sem subordinação a outros países. Segundo ele, esse princípio continua sendo fundamental no século XXI, especialmente para que um país possa defender seus interesses estratégicos e seu modelo de desenvolvimento.

“Soberania é a autoridade última do Estado dentro de suas fronteiras e a liberdade que esse Estado tem de conduzir sua política externa. Um país que perde a sua soberania perde margem para escolher seu modelo de desenvolvimento, passa a não ter capacidade de proteger seus empregos, regular mercados e defender os interesses nacionais”, explica.

Menon ressalta, no entanto, que defender a soberania não significa defender o isolamento. Em um cenário de crescente interdependência entre os países, o conceito passou a incorporar novas dimensões, que vão além do controle do território e das fronteiras.

“Por isso, precisamos falar de uma soberania não só formal, mas uma soberania também material que possa se refletir na nossa política econômica, na nossa política tecnológica, em diversos setores que compõem a sociedade brasileira”, afirma.

Na avaliação do especialista, essa transformação também alterou a natureza das ameaças à soberania. Se antes elas estavam associadas principalmente a conflitos militares, atualmente envolvem disputas comerciais, sanções econômicas, dependência tecnológica, manipulação financeira e o avanço da desinformação. 

Na avaliação de Menon, a soberania também tem efeitos concretos sobre o cotidiano da população. Segundo ele, quando um país perde capacidade de definir políticas industriais, comerciais e externas, os impactos chegam rapidamente ao emprego, à renda, aos preços e ao desenvolvimento econômico.

“Os efeitos de uma não soberania ou de uma subsoberania chegam rapidamente à vida das pessoas. Se um país perde sua capacidade de decidir sobre sua política industrial, comercial e externa, necessariamente estamos falando de impactos diretos e indiretos sobre salários, empregos e um projeto de desenvolvimento”, afirma.

Contexto internacional e desafios do Brasil

Ao comentar o contexto internacional, o especialista explica que políticas unilaterais e protecionistas podem pressionar a autonomia dos países e afetar seus setores produtivos. “Precisamos resgatar o conceito de soberania. Não podemos nos colocar de joelhos diante de interesses estrangeiros alheios aos interesses nacionais brasileiros”, reforça.

Segundo o professor, crises e disputas internacionais, como guerras, conflitos regionais e tensões comerciais entre grandes potências, também influenciam a inflação, os custos da energia e dos alimentos, afetando diretamente a qualidade de vida da população.

“Estamos diante dos conflitos que se dilataram pela região do Oriente Médio e do contexto de guerra comercial entre Estados Unidos e China. Isso se reflete em pressões inflacionárias no campo do petróleo, no setor de alimentos, e esses impactos são sentidos em políticas para nós pensarmos a soberania alimentar, o cotidiano das pessoas e, consequentemente, uma vida que possa ser gozada a partir das liberdades democráticas e na atuação soberana dos Estados Democráticos de Direito.”

Sobre o tarifaço de Trump, ele avalia que ações unilaterais dos Estados Unidos representam pressões sobre a autonomia nacional. Segundo ele, essas medidas se inserem em um contexto mais amplo de disputas geopolíticas e de influência internacional. Menon aponta elos da taxação aos movimentos da direita e extrema direita da América Latina.

“Temos, de um lado, sanções comerciais, mas há uma operação política também por parte de setores muito conectados e alinhados politicamente ao trumpismo, que se reflete exatamente num endossamento das sanções que estão sendo impostas de forma unilateral ao Brasil.”

Ingerência dos EUA em ano eleitoral

O professor afirma que outras iniciativas do governo norte-americano, como mudanças na classificação de organizações criminosas brasileiras, devem ser analisadas dentro desse cenário. “Nesse ambiente do segundo semestre de 2026, às vésperas do processo eleitoral, os Estados Unidos recrudescem sua política de ingerência, querendo diretamente e indiretamente interferir no pleito e na soberania brasileira”. 

Apesar dos desafios, Menon destaca que o Brasil reúne condições favoráveis para fortalecer sua posição no cenário internacional. Para ele, fatores como a extensão territorial, a riqueza em recursos naturais, a força do agronegócio, a matriz energética relativamente limpa, o mercado interno e a tradição diplomática colocam o país em posição estratégica para atuar em defesa do multilateralismo e da cooperação internacional.

Ao mesmo tempo, o especialista afirma que o fortalecimento da soberania depende da redução da dependência tecnológica, da reindustrialização de setores estratégicos, da proteção da infraestrutura digital e dos dados nacionais, do estímulo à inovação e da ampliação da integração regional. “A boa notícia é que, no caso brasileiro, essa soberania é construída de forma democrática, inclusiva e voltada para um desenvolvimento que seja ambientalmente sustentável, socialmente justo e economicamente viável”, ressalta.

“O Brasil não se entrega”, a campanha do PT 

A defesa da soberania nacional é o eixo central da campanha “O Brasil Não Se Entrega”, lançada pelo Partido dos Trabalhadores para aproximar o tema do cotidiano da população. Para isso, uma série de conteúdos explicam, de forma simples e direta, como a defesa da soberania está presente na vida cotidiana dos brasileiros.

O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirma que soberania vai além da política externa e diz respeito ao direito de o Brasil decidir seus próprios rumos sem interferências externas.

“Muitas vezes a palavra soberania parece um termo distante, político ou técnico, mas a verdade é que ela está no dia a dia de cada brasileiro e de cada brasileira. Quando o PT fala em defender a soberania nacional, especialmente agora, diante do tariflávio injusto imposto pelos Estados Unidos, a gente está falando de defender o que é nosso e o nosso direito de decidir o próprio futuro”, afirma.

Para exemplificar como a soberania se reflete no cotidiano da população, Éden Valadares afirma que o conceito está diretamente ligado à proteção dos empregos, da economia e da capacidade de o Brasil decidir seus próprios rumos. Segundo ele, as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros afetam diretamente setores como a indústria, o comércio e a agricultura. “Defender a soberania não é aceitar que decisões lá fora matem postos de trabalho aqui dentro”, afirma.

O secretário também relaciona a soberania à defesa de áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional, como a tecnologia e os recursos minerais. Como exemplos, cita o Pix, definido por ele como uma tecnologia pública brasileira que deve ser protegida de interesses externos, e as terras raras, que, segundo Éden, precisam ser utilizadas para gerar inovação, indústria, riqueza e empregos no país, em vez de serem exploradas por interesses internacionais.

“O Brasil não é o quintal de ninguém. O Brasil pertence aos brasileiros e nós não aceitamos que ninguém decida o nosso destino por nós”, conclui o secretário.

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