Por Janaina Oliveira (*) e Marcelo Morais (**)
O Brasil ainda está longe de ser um país em que a política represente, de fato, a diversidade do seu povo. O retrato do Parlamento brasileiro, em todas as suas esferas, segue sendo majoritariamente masculino, branco e heterossexual, evidenciando um descompasso estrutural entre quem decide e quem vive as desigualdades cotidianas.
Como demonstram dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do IBGE e do levantamento feito pela organização Vote LGBT, o Parlamento brasileiro não reflete a diversidade da população, especialmente no que se refere à presença de pessoas LGBTQIAPN+. Mesmo em um país com maioria de mulheres e ampla diversidade racial e social, os espaços de poder permanecem concentrados em poucos grupos.
Quando olhamos para a população LGBTQIAPN+, esse cenário se torna ainda mais (in)visível, e mais grave. A presença de parlamentares assumidamente LGBT ainda é exceção, resultado de um histórico processo de exclusão, invisibilização e violência política. Dados recentes coletados pela Vote LGBT mostram que, mesmo com o crescimento de candidaturas, a taxa de eleição segue extremamente baixa, evidenciando barreiras estruturais de acesso ao sistema político.
E essa ausência não é neutra. Ela produz efeitos concretos: políticas públicas insuficientes, ausência de proteção institucional e baixa capacidade de resposta do Estado às demandas dessa população.
O ativismo como estratégia política
A experiência brasileira mostra que a presença LGBT na política institucional não surge espontaneamente. Ela é fruto de trajetórias marcadas pelo ativismo social. Como demonstra a literatura sobre ativismo institucional, muitos dos quadros que hoje ocupam espaços no Estado trazem consigo acúmulos construídos nos movimentos sociais, operando uma transição entre a militância e a atuação institucional.
Esse movimento é fundamental. Não se trata apenas de ocupar cargos, mas de tensionar estruturas historicamente excludentes. Parlamentares LGBTQIAPN+ não apenas representam uma identidade, eles introduzem novas agendas, novas formas de fazer política e novas prioridades no debate público.
A trajetória de lideranças como o senador Fabiano Contarato ilustra de forma contundente esse processo. Primeiro senador assumidamente gay do Brasil, Contarato construiu sua trajetória a partir da defesa dos direitos humanos, com atuação como delegado e professor de direito, antes de ingressar na política institucional. Sua eleição representa não apenas um marco simbólico, mas uma inflexão concreta na forma como o parlamento brasileiro passa a incorporar, ainda que de forma incipiente, a diversidade da sociedade.
Assim como outros parlamentares oriundos dos movimentos sociais, sua atuação demonstra que ocupar o parlamento é resultado de uma estratégia política construída coletivamente. Mais do que presença, trata-se de transformar a institucionalidade por dentro, tensionando estruturas conservadoras e ampliando o alcance das políticas públicas voltadas à garantia de direitos.
Limites da política institucional
No entanto, a presença LGBT no parlamento ocorre em um ambiente profundamente adverso. As instituições políticas brasileiras são atravessadas por conservadorismos que dificultam a aprovação de agendas progressistas e, muitas vezes, inviabilizam políticas públicas voltadas à diversidade.
A própria experiência institucional revela que o parlamento é um espaço de disputa permanente. A entrada de parlamentares LGBT é, por si só, um elemento de tensão em estruturas que não estavam preparadas, nem dispostas, a acolher essa diversidade.
Esse cenário se agrava diante do fortalecimento de forças conservadoras que atuam para barrar avanços e, em muitos casos, promover retrocessos nos direitos da população LGBTQIAPN+. A disputa política, portanto, não é apenas por representação, mas por sobrevivência e dignidade.
2026: transformar e defender a democracia
Diante desse cenário, a tarefa colocada para 2026 é clara: ampliar a presença de pessoas LGBTQIAPN+ nos espaços de poder e fortalecer um projeto político comprometido com a democracia, a justiça social e a liberdade.
A eleição de parlamentares LGBT não é apenas uma questão de representatividade simbólica. Trata-se de uma estratégia política concreta para:
- Fortalecer a agenda de direitos humanos;
- Disputar o orçamento público;
- Formular políticas estruturantes;
- Enfrentar o avanço conservador nas instituições.
Mais do que isso, a população LGBT tem um papel decisivo na sustentação e no aprofundamento de um novo ciclo democrático no Brasil. A defesa de um governo comprometido com direitos passa, necessariamente, pela participação ativa desses sujeitos na política institucional.
Nesse sentido, o projeto “Nossas Cores 2026: Ocupar para Transformar e Defender a Democracia” surge como uma iniciativa estratégica de mobilização, formação e fortalecimento das candidaturas e lideranças LGBTQIAPN+ em todo o país, articulando ação política, participação popular e enfrentamento aos discursos de ódio. Ocupar os espaços de decisão significa transformar as estruturas historicamente excludentes da política brasileira. Defender a democracia também é garantir que pessoas LGBTQIAPN+ possam existir, participar e decidir os rumos do país com dignidade, segurança e direitos assegurados.
Um chamado à ação
A história recente mostra que nenhum direito foi conquistado sem organização política. E, no Brasil de hoje, não há mais espaço para que a população LGBTQIAPN+ permaneça à margem das decisões.
É preciso disputar as eleições, ocupar os parlamentos, construir redes e fortalecer mandatos comprometidos com a transformação social.
A política não é um espaço neutro e, por isso mesmo, precisa ser ocupada. Porque onde não há presença, há ausência de direitos. E onde não há disputa, há retrocesso.
2026 será mais do que uma eleição, será uma disputa pelo futuro, pela liberdade de existir.
*Janaina Oliveira é Secretária Nacional LGBT do Partido do Trabalhadores;
**Marcelo Morais é membro do Coletivo Nacional LGBT e ex Secretário Estadual LGBT do PT Paulista.

