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Onde tudo começou: ‘Homens não são medidos pelas épocas. São medidos pelo caráter’

Lula: “A emoção de hoje é uma emoção ímpar. É uma emoção que estou sentindo muito mais forte do que a que senti em 1979, aqui mesmo neste estádio”

Quarenta e sete anos depois de subir em uma mesa emprestada de um bar para falar, sem microfone, aos metalúrgicos em greve, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou neste domingo, 16, à Vila Euclides. Diante de 40 mil pessoas, confessou que nem mesmo a lembrança daquela multidão de 1979 se comparava ao que sentia agora.

“A emoção de hoje é uma emoção ímpar. É uma emoção que estou sentindo muito mais forte do que a que senti em 1979, aqui mesmo neste estádio”, afirmou Lula, na abertura oficial da campanha à reeleição em São Bernardo do Campo (SP).

O cenário que encontrou em 2026 era diferente. No lugar da mesa improvisada, havia um grande palco. As palavras que antes precisavam ser repetidas de trabalhador em trabalhador agora alcançavam o estádio inteiro. Mas a confiança entre Lula e o povo permanecia a mesma.

A cantora Fafá de Belém cantou o hino nacional, acompanhada por fogos nas cores verde e amarela. O público respondeu com o coro que atravessou décadas de campanhas: “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”.

Nos telões, antigos companheiros do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC deram depoimentos sobre as greves que desafiaram a ditadura no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. Lula assistiu de pé. Em seguida, os trabalhadores que apareciam no vídeo subiram ao palco e o abraçaram, em um encontro entre os homens que fizeram aquela história e as milhares de pessoas dispostas a continuá-la.

‘Homens são medidos pelo caráter’

A emoção também veio da lembrança de quem já não estava ali. Lula homenageou intelectuais que ajudaram a construir o PT, como Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido e Marco Aurélio Garcia, além de trabalhadores e defensores dos direitos humanos que perderam a vida por suas lutas.

A memória mais íntima foi a de Dona Lindu, sua mãe. Lula recordou que, em 1980, estava preso por causa da greve de 41 dias quando ela morreu. Mesmo durante a ditadura, recebeu autorização para deixar a prisão e acompanhar o sepultamento.

O presidente comparou aquele episódio ao que viveu em 2019, já sob o regime democrático, quando afirmou ter sido impedido de sair da prisão para o enterro do irmão Vavá.

“Você vê a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para ir ao enterro da minha mãe. No regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei, não permitiu que eu saísse para ir ao enterro do meu irmão”, relatou.

Foi então que Lula resumiu uma das mensagens que queria passar:

“Os homens não são medidos pelas épocas. Os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que tiveram de berço”.

Lula atribuiu a Dona Lindu a formação que levou para toda a vida. Nascida em Pernambuco e analfabeta, ela criou sozinha oito filhos depois de abandonar o marido, que havia formado outra família em Santos.

“Devo a minha vinda aqui hoje em agradecimento à Dona Lindu, que é responsável por tudo o que sou na vida”, declarou.

A maior lição política de Lula

Em 1979, depois de duas semanas de greve, Lula considerou que uma proposta apresentada pelos empresários permitia a volta ao trabalho enquanto as negociações continuavam.

Temendo que o acordo fosse rejeitado, pediu um voto de confiança. Os trabalhadores levantaram as mãos e aprovaram sua proposta, mas deixaram o estádio revoltados, convencidos de que haviam sido traídos.

Lula passou o ano seguinte tentando recuperar aquela confiança. Voltava às portas das fábricas, insistia no diálogo e buscava mostrar que uma paralisação prolongada atingiria duramente as famílias, que precisavam pagar o aluguel e colocar leite e pão dentro de casa.

Em 1980, veio uma nova greve. Lula foi preso, milhares de trabalhadores acabaram demitidos e a categoria não conquistou suas reivindicações. Ainda assim, ele saiu reconhecido como herói. Para o presidente, os metalúrgicos haviam compreendido que seu alerta no ano anterior estava correto.

“Em 1979, fui tratado como se fosse covarde. Em 1980, quando achei que seria massacrado, virei herói. Os trabalhadores descobriram que eu estava certo em 1979 e aprenderam a lição em 1980”, contou.

A experiência ensinou a Lula que liderar não é dizer apenas aquilo que a multidão deseja ouvir, mas preservar a confiança e ter coragem de falar a verdade mesmo nos momentos mais difíceis.

“Isso foi a mais importante lição política que tive na minha vida. A lembrança deste estádio, para mim, é inesquecível”.

Lealdade ao povo trabalhador

Foi também na Vila Euclides que Lula percebeu que a luta sindical não bastaria para transformar o Brasil. Ele admitiu que, depois da greve de 1978, dizia não gostar de políticos nem de política. Com o tempo, entendeu a contradição de lutar contra os patrões durante todo o ano e, nas eleições, entregar o governo aos mesmos interesses enfrentados nas fábricas.

O defeito de quem não gosta de política é que o país é governado por quem gosta. É preciso a gente fazer política para aprender a escolher corretamente quem vai ser vereador, deputado, prefeito, governador e presidente”, afirmou.

Lula comparou a escolha de representantes dos patrões para cuidar dos trabalhadores a colocar uma raposa dentro do galinheiro e esperar que ela proteja as galinhas. Dessa descoberta surgiu a necessidade de criar um partido construído pela própria classe trabalhadora.

“Eu queria um partido dos trabalhadores para a gente eleger deputado, vereador e prefeito e começar a fazer as coisas em que a gente acredita”, lembrou.

O presidente reafirmou que essa relação com o povo continua guiada pela lealdade construída nas portas das fábricas.

Eu não tenho o direito de mentir para aqueles que confiam em mim, para aqueles que gostam de mim. Vocês podem ter certeza da minha lealdade com vocês”.

Por que disputar o quarto mandato

Primeiro presidente eleito três vezes pelo voto popular, Lula deixou claro que não aceitará abandonar a luta enquanto houver o risco de retorno de uma extrema direita que despreza a vida e os direitos do povo.

Enquanto eu estiver vivo, não vou parar de lutar e permitir que volte uma direita que dava risada das crianças que estavam morrendo por falta de remédio e que foi responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas na Covid por não comprar a vacina”, afirmou.

Para Lula, pensar no futuro significa garantir educação, saúde, moradia, emprego e oportunidades. Ele comparou os cerca de 2 milhões de postos formais gerados durante o governo anterior aos 10,1 milhões criados desde seu retorno à Presidência.

O presidente também recordou iniciativas como o Luz para Todos e a Transposição do Rio São Francisco. Em ambos os casos, disse, o objetivo foi garantir dignidade a quem conhecia a escuridão dos candeeiros ou precisava dividir com os animais a pouca água disponível no sertão.

“É um filho do Nordeste que sabe o valor de levar água para 12 milhões de pessoas. Isso é pensar no futuro”, declarou.

Educação e a força da mulher

Entre as prioridades apresentadas para um quarto mandato, a formação das novas gerações recebeu destaque. Lula afirmou que pretende ampliar o acesso ao ensino superior e à educação profissional e garantir escolas de tempo integral em todo o país.

“Quero meninas e meninos bem formados, bem estruturados, não apenas para trabalhar no mercado de trabalho, mas para construir outro país”, disse.

Lula lembrou que, quando assumiu a Presidência pela primeira vez, em 2003, cerca de 5 milhões de trabalhadores tinham diploma universitário. Hoje, são aproximadamente 25 milhões. Também destacou a expansão das universidades e das unidades da Rede Federal de Educação Profissional durante os governos do PT.

Ao relatar uma visita à Universidade Federal do ABC, o presidente afirmou ter recebido a informação de que um estudante custa aproximadamente R$ 20 mil por ano, enquanto a manutenção de um preso em São Paulo chega a R$ 35 mil.

“Qual é a lição? Investir em educação é muito mais barato do que investir na cadeia. Temos que dar oportunidade quando as pessoas são crianças e jovens para criar um país mais civilizado”, defendeu.

O projeto inclui escolas de tempo integral que ofereçam arte, música, dança, educação ambiental e formação para a igualdade. Para Lula, o respeito às mulheres também deve ser ensinado desde a infância.

O menino tem que começar a aprender desde criança que o homem não é melhor do que a mulher. Ele tem que aprender que nós somos iguais”.

Segurança entre as prioridades

Na segurança pública, Lula defendeu que o Estado deixe de concentrar sua ação apenas nos territórios pobres e enfrente os verdadeiros chefes e financiadores do crime organizado.

O presidente destacou que o caminho para desmontar as organizações criminosas passa pelo bloqueio de contas, pela apreensão de patrimônio e pela retirada do poder econômico de quem lucra com a violência.

Lula voltou a afirmar que, se a proposta de emenda à Constituição da Segurança Pública for aprovada, criará o Ministério da Segurança Pública para coordenar a atuação da União com estados e municípios.

“Nós vamos libertar o povo das vilas mais pobres, onde tem quadrilha que manda e inferniza a vida das pessoas. Vamos prender todo mundo que acha que é dono de uma favela ou de um bairro pobre”, prometeu.

Soberania

A defesa da soberania nacional apareceu como outro compromisso central para o próximo mandato. Lula apontou que a disputa mundial por terras raras e minerais críticos coloca o Brasil diante de uma oportunidade histórica de desenvolver tecnologia, fortalecer sua indústria e gerar empregos qualificados.

O presidente rejeitou a ideia de o país continuar exportando matéria-prima para depois importar celulares, chips, baterias e outros produtos de alto valor agregado.

“A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas feitas com ele. Queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui e gerar riqueza”, afirmou.

Lula ressaltou que o Brasil manterá relações com todas as nações, mas não permitirá que potências estrangeiras controlem suas riquezas.

“Nós não temos opção pela China nem pelos Estados Unidos. Ninguém vai explorar os nossos minerais. Nós é que vamos explorá-los em benefício do povo brasileiro.”

Para Lula, o país tem todas as condições de assumir um lugar de protagonismo no mundo, desde que invista em educação, ciência, tecnologia e numa indústria capaz de transformar as riquezas nacionais.

“Este país está devendo a si mesmo se transformar numa grande nação. E nós vamos fazer deste país uma grande nação.”

Brasil pronto para mais

O presidente pediu que a militância leve às ruas a comparação entre os resultados dos governos, mostrando quem gerou mais empregos, ampliou o acesso à educação, aumentou salários e investiu na vida do povo.

“Criem vergonha na cara, parem de mentir, porque o povo brasileiro não vai aceitar que a mentira vença a verdade”, afirmou ao rebater os ataques da oposição.

Quando se despediu das 40 mil pessoas que lotavam o estádio, Lula já não falava apenas daquele reencontro com o passado. A Vila Euclides de 1979 ajudou a devolver a voz aos trabalhadores e a abrir caminho para a democracia. A de 2026 deu a largada a uma nova caminhada para fazer o Brasil avançar.

Quarenta e sete anos depois, a voz estava mais rouca, como ele próprio reconheceu. Mas carregava a mesma convicção daquele jovem metalúrgico que precisou transformar milhares de trabalhadores em seu primeiro sistema de som.

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