Flávio Bolsonaro resolveu declarar, por conta própria, que o caso Dark Horse está encerrado. Durante uma agenda de campanha em São Paulo, na quinta-feira, 20, o candidato da extrema direita chamou de “página virada” a controvérsia sobre os milhões negociados com Daniel Vorcaro para financiar o filme de promoção política de Jair Bolsonaro.
Questionado sobre a prestação de contas que prometeu apresentar, Flávio alegou que o documento já teria aparecido em um processo. “Inclusive eu vi a própria prestação de contas que foi feita do filme […] e viram que estava tudo certinho”, afirmou. Em seguida, atacou o presidente Lula e tentou mudar de assunto.
Mas não está “tudo certinho”. Os contratos não foram publicados, os gastos não foram detalhados e o destino final dos recursos continua sendo investigado pela Polícia Federal. Uma investigação federal em andamento não vira “página virada” por decisão do próprio investigado.
Perícia privada não é prestação de contas pública
O documento ao qual Flávio se refere é uma perícia privada contratada pela defesa da dona da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme. O material foi anexado a um inquérito policial em São Paulo e aponta que Dark Horse teria custado aproximadamente R$ 75 milhões.
O relatório afirma que R$ 54,2 milhões foram gastos nos Estados Unidos e outros R$ 20,9 milhões no Brasil. Não informa, porém, quem recebeu os pagamentos, quais serviços foram contratados nem apresenta as notas fiscais e os contratos que permitiriam conferir as despesas.
A perícia também não identifica quem colocou dinheiro no fundo norte-americano usado para financiar o filme. A Folha de S.Paulo destacou que o laudo privado não detalha os financiadores nem inclui as notas emitidas pelos fornecedores.
A conta de Flávio continua sem fechar
Documentos e mensagens divulgados pelo Intercept Brasil revelaram que Flávio negociou com Vorcaro um aporte de quase US$ 24 milhões, em torno de R$ 134 milhões na cotação da época. Pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram transferidos em seis operações.
Parte do dinheiro saiu da Entre Investimentos e Participações e foi enviada ao Havengate Development Fund, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Há uma diferença de quase R$ 45 milhões que permanece sem explicação: enquanto a perícia aponta orçamento inicial de aproximadamente R$ 89,7 milhões, Flávio negociou R$ 134 milhões com Vorcaro. Por que pediu tanto dinheiro a mais? Quais eram as condições do acordo? Quem receberia o restante?
Também segue sem resposta o motivo pelo qual Flávio negou a negociação quando foi abordado pela primeira vez. “É mentira”, afirmou em 13 de maio, antes de rir e deixar o local. Horas depois, diante dos áudios, das mensagens e dos comprovantes bancários, admitiu que havia procurado Vorcaro para financiar o projeto.
Polícia Federal mantém o caso aberto
Em 23 de julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a abrir um inquérito para rastrear os recursos repassados por Vorcaro.
O pedido partiu da própria PF e recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República, que identificou elementos suficientes para a abertura da investigação. Os agentes apuram o destino do dinheiro, possíveis irregularidades nos pagamentos e eventual contrapartida oferecida ao ex-dono do Banco Master.
A PF também quer saber se parte dos recursos enviados aos Estados Unidos pode ter bancado despesas de Eduardo Bolsonaro ou outras ações de aliados da extrema direita no país. Os envolvidos negam essa hipótese, e o inquérito tramita sob sigilo.
Promessa de transparência ficou para trás
Em maio, Flávio afirmou estar “100% disposto” a tornar público o contrato relacionado ao financiamento do filme. Dias depois, prometeu uma prestação de contas transparente e deu prazo de 30 dias para que a produtora organizasse os documentos.
O prazo terminou em junho. Mais de dois meses depois, não apareceram os contratos, os extratos, os comprovantes de pagamento nem a relação completa de beneficiários. O candidato também não explicou por que negociou um valor muito superior ao orçamento informado pela própria produtora.

