A relação entre os brasileiros e seus representantes no Congresso Nacional passa por um momento de evidente distanciamento. De acordo com a pesquisa Datafolha divulgada no fim de junho, 67% dos eleitores que participaram das eleições de 2022 não se lembram em quem votaram para deputado federal, enquanto 66% afirmam não recordar o candidato escolhido para o Senado.
Em contraste, 85% afirmam recordar o voto para presidente, evidenciando que a atenção do eleitor permanece concentrada nas disputas do Poder Executivo.
O levantamento também mostra que 68% dos entrevistados não conseguem citar o nome de nenhum deputado federal em exercício, enquanto 75% não lembram de nenhum senador.
Os dados revelam que apenas seis dos 513 deputados federais foram lembrados por pelo menos 1% dos entrevistados. No Senado, 15 dos 81 parlamentares alcançaram esse índice. Entre os entrevistados, 36% disseram não lembrar do nome de nenhum deputado federal e 32% afirmaram simplesmente não saber citar um parlamentar. Em relação ao Senado, 40% responderam que não se recordavam de nenhum senador, enquanto 35% disseram não conhecer nenhum nome.
Em entrevista à Rede PT de comunicação, o cientista político Paulo Roberto Souza ressaltou que o levantamento revela um problema que vai além do esquecimento e aponta para uma crise na relação entre o eleitorado e o Poder Legislativo. “A pesquisa traz um dado mais preocupante: dois em cada três dizem não se recordar em quem votaram para o Congresso em 2022, o que demonstra apatia, distanciamento e desinteresse sobre a política legislativa e, consequentemente, um hiperfoco e atrelamento da política ao Executivo”, analisou.
Segundo o pesquisador, em uma democracia consolidada seria esperado que a população, ao menos, lembrasse em quem votou na eleição mais recente. “Qualquer expectativa mínima de interesse na democracia e no sistema político é de que as pessoas se lembrem pelo menos em quem votou nas últimas eleições. Logo, este cenário não é esperado e revela um problema muito profundo de desinteresse e, em última instância, algum nível de falta de crença no sistema político-partidário e eleitoral brasileiro.”
Na avaliação de Souza, o problema também está relacionado às características do sistema eleitoral brasileiro.
“Existe o elemento da pouca compreensão, no caso dos deputados, do quão relevante foi o voto para eleger ou não em quem se votou em um sistema proporcional apresentado como muito complexo para o cidadão médio. Pode haver até algum tipo de constrangimento ou vergonha do próprio voto. Mas acredito que deve-se levar em consideração também que parece haver uma negativa de responsabilidade por boa parte do eleitorado, como se ele não estivesse nada a ver com isso, ainda mais com um Congresso com altos índices de rejeição.”
O cientista político alerta que esse cenário produz efeitos diretos sobre a qualidade da democracia, especialmente em um momento em que o Congresso concentra parcela crescente do orçamento público. “São várias as consequências, mas gostaria de destacar a dificuldade de atrelar responsabilidade a quem não se sabe quem é e suas funções, além da hiper responsabilização do Executivo, e mais ainda na figura do Presidente da República. Estamos passando por um processo de transformação da divisão dos poderes com uma maior concentração do orçamento nas mãos do Legislativo que em 2026 ultrapassou o do Executivo. Enquanto o último trabalha para políticas públicas universais, o Legislativo aplica suas emendas em redutos eleitorais locais, reestabelecendo ou aprofundando relações clientelistas”, afirmou Souza.
Reforma política volta ao centro do debate
Diante desse cenário, a reforma política voltou a ocupar espaço nas discussões sobre o fortalecimento da democracia representativa. O tema tem sido defendido pelo Partido dos Trabalhadores como uma das respostas ao crescente distanciamento entre cidadãos e instituições.
Durante o Fórum Democracia Sempre, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que a crise democrática exige mudanças estruturais capazes de aproximar a população do Estado. “Nós só responderemos à crise da democracia se a sociedade se sentir parte do processo democrático. E certamente nós teremos que fazer reformas institucionais para que a gente responda a essa crise da democracia”, declarou o petista.
Em artigo publicado em junho no jornal Folha de S. Paulo, o dirigente petista segue defendendo a transformação no meio político. “Precisamos de um Estado reformado, eficiente, democrático, com capacidade de investimento, de pesquisa e inovação para indução de um novo modelo de desenvolvimento”, declarou Edinho.
Com citações ao Manifesto do 8° Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores em seu texto, que reitera a defesa de uma reforma estrutural na democracia representativa brasileira, Edinho reforçou o a urgência em se criar mecanismos permanentes de participação social. “A democracia não pode ser apenas um valor abstrato. Precisa aparecer na elaboração do Orçamento, no transporte, na escola, na saúde, na segurança, na moradia, na cultura, no esporte e no trabalho”.

