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‘Vamos combater o PCC e Comando Vermelho aqui. Não somos republiqueta’, reage Lula

Lula reconhece o terror que PCC e CV impõe nos territórios, mas explica que intervenção dos EUA é inaceitável.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente a ingerência dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil. O Governo do Brasil reagiu à decisão do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, de classificar as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, pelas consequências econômicas e políticas da medida e pelo fato de isso significar um claro ataque à soberania nacional.

“Nós não aceitamos ser tratados como moleque. Nós não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta”, disparou Lula, nesta sexta-feira, 29, durante evento da Petrobras em Sergipe.

O presidente enfatizou que o Comando Vermelho e o PCC  “são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país”.

“Eles são terroristas porque eles incomodam as famílias, eles incomodam o bairro, eles incomodam a cidade, eles roubam tudo do povo, o direito do povo viver livremente. Então eles são terroristas e nós vamos combatê-los aqui dentro.”

Lula esclareceu que foi aprovada uma Lei Antifacção que dá instrumentos ao Governo do Brasil para combater o crime organizado. “E vamos combater.”

O presidente denunciou a negligência do governo de Trump em mirar o tráfico de armas  e em entregar brasileiros que fogem para os EUA para escapar de punições no Brasil. A maioria das armas contrabandeadas e apreendidas no Brasil pela Polícia Federal, enfatizou Lula, vêm dos EUA.

“O Brasil está disposto a trabalhar para combater o crime organizado e vamos começar pelo seu estado Delaware, que tem lavagem de dinheiro de brasileiro. Vamos começar por entregar o [Alexandre] Ramagem, que está condenado a 16 anos e está escondido lá. Vamos começar entregando o maior contrabandista de combustível desse país, o Ricardo Magro, que a Polícia Federal e Receita apreenderam 220 milhões de combustíveis dele, contrabandeados, e ele está morando em Miami. Eu entreguei para o Trump o nome dele e a fotografia da casa dele. Quer combater o crime organizado? Entregue os nossos que estão lá nos Estados Unidos”, afirmou Lula.

O presidente também condenou a subserviência da família Bolsonaro, a quem chamou de “traidores da pátria”, e a aventura de tentarem sabotar a economia por meio da taxação de parte das exportações brasileiras. “Se eles fossem pedir intervenção para prender miliciano, eles ficavam presos lá. Essa é a verdade”, observou.

É deplorável que família Bolsonaro defenda intervenção estrangeira, diz governo

O Governo do Brasil divulgou, nesta sexta-feira, 29, um posicionamento sobre a decisão do governo de Donald Trump. Em nota, o governo brasileiro critica abertamente as atitudes da família Bolsonaro e os “falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros”.

“O Brasil é uma nação soberana que tem travado combate permanente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as demais facções e milícias que praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias. Enfrentar essas organizações criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro. O terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional”, diz a nota.

Para o Governo do Brasil, “a segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos”. E o pronunciamento oficial destaca a ação do clã Bolsonaro contra o país:

“É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país”.

“Pretexto para intervenção é inaceitável”

Na quinta, 28, o assessor especial de Lula, embaixador Celso Amorim, rebateu a estratégia da Casa Branca:

“Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconomico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já havia explicitado, em março, ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que a intenção do Brasil era exatamente evitar que o CV e o PCC fossem classificados como organizações terroristas. A Constituição de 1988 enquadra como terrorismo atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, com a finalidade de provocar terror social ou generalizado.

Viagem aos EUA em meio a escândalos do Master

Em comunicado, Rubio indicou que CV e PCC “são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil” e que elas serão designadas como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho.

A decisão dos EUA se deu dois dias depois da visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a Presidência da República, a Washington. Encurralado pelas investigações sobre o Banco Master, Flávio viajou no domingo, 24, na tentativa de tirar o foco das denúncias que pesam contra ele. O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro pediu, em tom de intimidade, R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, conforme áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil há pouco mais de duas semanas, para bancar o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória do pai.

Flávio recebeu R$ 61 milhões de Vorcaro, mas não conseguiu esclarecer o destino do dinheiro desde que as conversas com o ex-dono do Master se tornaram públicas.

Repercussão internacional

A imprensa internacional repercutiu as intenções de Trump e a subserviência da família Bolsonaro. Na manchete da reportagem sobre o assunto, o jornal The New York Times estampou: “Após nova pressão dos Bolsonaros, EUA classificam gangues brasileiras como grupos terroristas”.

Segundo o jornal, a decisão foi tomada em decorrência de “meses de lobby agressivo dos filhos do ex-presidente preso, Jair Bolsonaro, um aliado próximo de Trump”. “A medida surge poucos dias depois de dois dos filhos de Bolsonaro, um dos quais planeja se candidatar à presidência ainda este ano, terem visitado Trump na Casa Branca”, pontua.

O NY Times argumenta que novas tensões podem surgir entre os países se Washington tentar interferir nas eleições do Brasil. “Isso gerou preocupação entre autoridades brasileiras de que os EUA possam estar tentando influenciar as próximas eleições, ajudando um novo Bolsonaro. Flávio Bolsonaro afirmou que desafiará nas eleições de outubro o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, a quem acusa de ser leniente com o crime.”

Da Rede PT de Comunicação.

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