O debate sobre o fim da escala 6×1 ganha força no país, mas milhões de mulheres brasileiras seguem submetidas a uma jornada ainda mais exaustiva: a escala “7×0”. Além do trabalho remunerado, são elas as principais responsáveis pelos cuidados com filhos, idosos, pessoas com deficiência e pelas tarefas domésticas — um trabalho invisível, não remunerado e que limita oportunidades de estudo, emprego, renda e participação na vida pública.
Hoje, cerca de 6 milhões de mulheres no Brasil dedicam 40 horas ou mais por semana ao trabalho de cuidado não remunerado, de acordo com pesquisa do PNAD. Nas profissões do cuidado, a desigualdade também se repete: 75% dos trabalhadores do setor são mulheres, 45% são mulheres negras e 25% são trabalhadoras domésticas. Os dados confirmam como o trabalho do cuidado no Brasil tem um recorte de gênero e raça: é basicamente feito por mulheres negras.
Em entrevista à Rede PT de Comunicação, a socióloga e secretária Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Laís Abramo, afirma que a política representa uma mudança estrutural na forma como o país trata o cuidado.
“O cuidado precisa deixar de ser visto como uma responsabilidade individual das mulheres e passar a ser tratado como compromisso coletivo e política pública permanente”, defende.
Laís Abramo também relaciona a política de cuidados ao debate sobre redução da jornada de trabalho e ao fim da escala 6×1.
“A jornada das mulheres muitas vezes não é seis por um, é sete por zero. Porque existe a jornada do trabalho remunerado, mas o trabalho não remunerado não termina nunca. Mesmo no dia de descanso, elas seguem cuidando da casa, dos filhos e da família.”
Sobrecarga maior das mulheres
Segundo a secretária, a sobrecarga feminina impacta diretamente a autonomia econômica das mulheres e pode aprofundar situações de vulnerabilidade social e violência doméstica.
“A falta de autonomia econômica fragiliza muito as mulheres. Muitas vezes existe uma situação de violência doméstica e a mulher, com dois ou três filhos, não consegue sair daquela situação porque não tem renda, não tem apoio, não tem para onde ir. Então a relação entre violência, feminicídio e sobrecarga de cuidados é muito evidente para nós.”
Apesar de o Brasil possuir estruturas importantes nas áreas de saúde, assistência social e educação, Laís Abramo avalia que os serviços ainda são insuficientes diante da realidade social e demográfica do país.
Com o envelhecimento da população e a redução do tamanho das famílias, cresce a necessidade de uma rede pública de apoio aos cuidados. A secretária destaca que a principal inovação da Política Nacional de Cuidados é olhar simultaneamente para quem precisa de cuidado e para quem cuida.
Cuidotecas
Entre as iniciativas já colocadas em prática pelo Governo do Brasil estão as “Cuidotecas”, espaços de acolhimento para crianças de 3 a 12 anos em horários que excedem a jornada escolar, como noites, fins de semana e períodos de férias.
“Nós percebemos que muitas mulheres não tinham com quem deixar os filhos nos horários de estudo ou de formação profissional. Isso prejudicava muito a permanência e a conclusão dos cursos. Então criamos as Cuidotecas justamente para acolher essas crianças enquanto as mães estudam, trabalham ou participam de atividades públicas.”
Para ela, garantir o direito ao cuidado significa também garantir liberdade e autonomia para que as mulheres possam construir seus próprios projetos de vida.
“A Política Nacional de Cuidados não reforça a ideia de que o papel da mulher é ficar em casa cuidando. Ela afirma que as mulheres têm direito ao cuidado, mas também têm direito de estudar, trabalhar, participar da vida pública e ser o que quiserem ser”, finaliza.

