Três em cada 10 brasileiros que trabalham com carteira assinada estão submetidos à jornada 6×1, com apenas um dia de folga na semana. O Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu início, neste mês de maio, a uma campanha nacional para explicar as razões pelas quais apoia o fim da jornada 6×1 e defende um novo regime de trabalho de 40 horas semanais, dois dias de folga e sem redução de salário.
Lula já enviou ao Congresso, no dia 14 de abril, com urgência constitucional, um projeto de lei que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial, e implementa a jornada 5×2.
A proposta atinge diretamente cerca de 37 milhões de trabalhadores, dos quais aproximadamente 14,8 milhões ainda estão submetidos ao regime 6×1, uma rotina que, na prática, transforma o único dia de folga em extensão das obrigações domésticas. “Quando descansar vira privilégio, é de injustiça que estamos falando”, afirma a campanha institucional do governo.
Direito ao tempo com a família, à dignidade
Os vídeos da campanha resgatam a trajetória histórica das conquistas trabalhistas no Brasil, que sempre enfrentaram resistências, e reforçam o papel da redução da jornada como mais um avanço civilizatório. “Limitar a jornada, garantir descanso semanal, férias, licença-maternidade foram conquistas que devolveram o tempo às pessoas. Contra cada uma delas disseram que o Brasil ia quebrar. Não quebrou”, diz a peça.
A campanha confronta diretamente o discurso tradicional de setores empresariais que, historicamente, resistem à ampliação de direitos. Ao mesmo tempo, reposiciona o debate sob a ótica da dignidade: “A luta aqui é por saúde mental, por vida além do trabalho”.
Assista:
Saúde, produtividade e qualidade de vida
Em 2024, o Brasil registrou cerca de 500 mil afastamentos por doenças psicossociais relacionadas ao trabalho, evidenciando o impacto direto das jornadas exaustivas na saúde da população.
A campanha enfatiza que a redução da jornada não é apenas uma pauta social, mas também econômica. “Trabalhadores descansados produzem mais, cometem menos erros, duram mais nos empregos. Um país exausto não cresce”, mostra uma das peças.
Estudos internacionais reforçam esse argumento. Experiências em países como Reino Unido e Portugal mostram que jornadas menores podem manter ou até elevar a produtividade. No Brasil, uma nota técnica do Ipea indica que o impacto financeiro da medida é baixo, inferior a 1% dos custos operacionais na indústria e no comércio.
A proposta coloca o país em sintonia com uma tendência internacional. Na América Latina, Chile e Colômbia já avançam na redução da jornada. Na Europa, países como França e Alemanha operam com cargas horárias iguais ou inferiores a 40 horas semanais.
Apoio entre pequenos negócios
Dados do Sebrae também desmontam a tese de que a medida prejudicaria o setor produtivo. Segundo levantamento, 46% dos micro e pequenos empresários afirmam que a mudança na jornada não deve impactar seus negócios.
O número reforça a leitura de que o debate sobre a redução da jornada vai além de uma disputa entre capital e trabalho, revelando espaço para convergência, especialmente entre pequenos empreendedores.

